O RADIS revela que o Algarve envelhece rápido e acumula doenças crónicas. A região precisa de prevenção, proximidade e redes de cuidado para garantir envelhecimento digno.
Vivemos num Algarve belo, luminoso e desejado, mas que carrega uma realidade silenciosa: estamos a envelhecer depressa e sem as condições necessárias para envelhecer bem. Os resultados do Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde (RADIS), recentemente apresentado pela Convenção Nacional da Saúde, mostram, com uma clareza quase dolorosa, que a saúde da nossa região depende hoje menos dos hospitais e mais da forma como vivemos, trabalhamos, comemos, respiramos e envelhecemos.
E é aqui que precisamos de parar, respirar fundo e perguntar: que Algarve estamos a construir para os próximos 20 anos?
O RADIS confirma algo que muitos de nós já sentimos na pele — ou na vida dos nossos pais e avós. O Algarve é uma das regiões com maior proporção de idosos, muitos deles a viver sozinhos, com baixos rendimentos e dificuldades de mobilidade. A solidão, tantas vezes invisível, tornou-se um determinante de saúde tão relevante quanto a tensão arterial ou o colesterol. A doença crónica, que antes parecia uma fatalidade do destino, surge agora como resultado de ritmos de vida acelerados, alimentação desregulada, falta de atividade física e ambientes que não favorecem comportamentos saudáveis.
O mais preocupante não é o diagnóstico. É o facto de o sistema de saúde continuar demasiado focado em apagar incêndios e pouco preparado para prevenir. O hospital chega tarde demais para quem vive anos sem acompanhamento. O centro de saúde, embora fundamental, não chega a quem vive isolado ou longe das zonas urbanas. E a comunidade — esse grande motor de saúde pública — permanece subaproveitada.
Os dados mostram que grande parte das pessoas que envelhecem no Algarve vive com duas, três ou mais doenças crónicas ao mesmo tempo. Este é o novo normal. E, perante isto, temos de ser honestos: não há capacidade hospitalar, nem orçamento público, que aguente responder apenas à doença sem cuidar das suas causas.
Se há boa notícia, ela está na própria evidência. O RADIS revela que as doenças mais incapacitantes e custosas são exatamente aquelas que podemos prevenir — hipertensão, diabetes tipo 2, AVC, fragilidade, depressão e demências. Ou seja, temos poder para mudar o rumo, mas ainda não o estamos a usar.
O Algarve, pela sua dimensão e coesão social, poderia ser o território ideal para liderar uma nova visão de saúde: uma visão que começa em casa, nas escolas, nos clubes, nas autarquias e nas associações. Uma visão em que a farmácia comunitária deixa de ser apenas o lugar onde levantamos medicamentos e passa a ser parte ativa da vigilância da saúde; em que o município investe mais na mobilidade pedonal e menos no carro; em que as escolas ensinam alimentação real e literacia emocional; em que os centros de saúde trabalham de mãos dadas com IPSS, juntas de freguesia e cuidadores.
Porque a saúde — a verdadeira saúde — não se constrói no hospital. Constrói-se nos lugares onde vivemos, trabalhamos e convivemos.
O RADIS expõe também outra fragilidade: a nossa dependência de respostas hospitalares que não conseguem acompanhar o volume de necessidades. As listas de espera para consultas de especialidade e exames são longas, a escassez de profissionais é real e a pressão sazonal causada pelo turismo agrava ainda mais a situação. O Algarve precisa de uma estratégia de saúde que seja regional e integrada, e não apenas mais um conjunto de medidas avulsas ditadas por Lisboa.
Hoje, mais do que nunca, é urgente falar de proximidade. E proximidade significa três coisas: prevenção, integração e comunidade. Prevenção para evitar que as doenças apareçam ou avancem. Integração para impedir que as pessoas fiquem perdidas entre serviços que não comunicam entre si. E comunidade para garantir que ninguém envelhece sozinho, invisível ou em silêncio.
Se continuarmos a olhar para a saúde apenas como um problema médico, perdemos de vista aquilo que o RADIS nos está a gritar: a saúde é uma questão de território, de vida quotidiana e de relações humanas.
Não basta construir mais hospitais. É preciso construir redes de cuidado. Não basta pedir mais médicos. É preciso pedir melhores condições para que eles queiram ficar. Não basta financiar tratamentos. É preciso financiar prevenção, literacia e bem-estar.
O Algarve tem tudo para ser pioneiro: uma população que sente o problema, autarquias próximas das pessoas, instituições solidárias e um setor social que conhece bem o terreno. Falta apenas o passo mais difícil: aceitar que a mudança não virá de um despacho, mas da capacidade de nos organizarmos como comunidade consciente e corresponsável pela sua própria saúde.
Se queremos um Algarve onde se viva mais anos e melhor, temos de começar agora. Não amanhã. Não quando o sistema colapsar. Agora — com políticas que valorizem a prevenção, com investimento em literacia, com equipas multidisciplinares próximas das pessoas, com mais apoio aos cuidadores, com combate à solidão e com coragem política para assumir que o futuro da saúde não é hospitalocêntrico: é humanocêntrico.
O RADIS não é apenas um retrato. É um aviso. Mas também é um mapa. Mostra-nos o caminho. Cabe-nos a nós decidir se o queremos seguir.
Alexandre Guedes da Silva | Voluntário e Presidente da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM)