Associação ambientalista Quercus identifica incêndios, política da água e resíduos como principais retrocessos de 2025 e destaca o Tratado do Alto Mar entre as expectativas positivas para 2026.
A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza identifica o verão extremo, os grandes incêndios rurais, a estratégia nacional da água e o enfraquecimento da legislação ambiental europeia como os principais retrocessos ambientais de 2025, num balanço anual divulgado no encerramento do ano, a 30 de dezembro de 2025.
Ao assinalar quatro décadas de atividade, a associação ambientalista traça um retrato crítico do ano ambiental em Portugal e na União Europeia, cruzando impactos climáticos, decisões políticas e processos internacionais que, segundo a organização, marcaram negativamente o rumo da ação climática e da proteção ambiental.
Verão extremo e incêndios entre os piores registos das últimas décadas
Entre os factos mais negativos de 2025, a Quercus destaca o verão mais quente dos últimos 94 anos em Portugal, com uma temperatura média 1,55 °C acima do valor de referência e um máximo absoluto de 46,6 °C registado em Mora. Este contexto contribuiu para o quarto pior ano de área ardida das últimas três décadas, com mais de 269 mil hectares consumidos pelo fogo até 15 de outubro.
Segundo a associação, este cenário voltou a expor a vulnerabilidade do modelo florestal assente em monoculturas de espécies de elevada combustibilidade, em particular o eucalipto, num contexto de verões mais longos, secos e extremos.
Estratégia da água criticada por privilegiar regadio intensivo
Outro dos pontos negativos apontados no balanço é a Estratégia Nacional para a Gestão da Água, designada «Água que Une», apresentada em março de 2025. A Quercus considera que o documento configura um conjunto de prioridades e investimentos centrados num modelo agrícola intensivo, baseado no regadio, remetendo para segundo plano a garantia da água para consumo humano, que classifica como prioridade consagrada na lei.
A associação alerta para os riscos de uma gestão da água que não responda de forma adequada aos efeitos das alterações climáticas, sobretudo em regiões mais expostas à escassez hídrica estrutural.
Recuos na legislação ambiental europeia e críticas à COP30
No plano europeu, a Quercus aponta 2025 como um ano de enfraquecimento da legislação ambiental, referindo iniciativas que isentam a maioria das empresas de novas obrigações de responsabilidade e transparência ambiental. A associação critica também propostas da Comissão Europeia que visam a desregulação da colocação no mercado de pesticidas e dos chamados novos organismos geneticamente modificados.
Neste contexto, a organização destaca negativamente o chamado pacote Omnibus ambiental, considerando que sacrifica a qualidade do ar, da água e a saúde pública em nome da competitividade económica, cedendo a pressões de lobbies e colocando em causa compromissos assumidos ao nível da ação climática e do bem comum.
A nível internacional, a Quercus sublinha ainda os resultados da COP30, criticando a retirada do roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis do texto final do acordo, apesar de este ter sido assumido como objetivo na COP28.
Embargo da Barragem do Pisão entre os principais avanços de 2025
Entre os factos positivos do ano, a Quercus destaca o embargo judicial à Barragem do Pisão, no Alto Alentejo. O projeto, oficialmente designado Aproveitamento Hidroelétrico de Fins Múltiplos do Crato, foi suspenso pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Castelo Branco devido a irregularidades na avaliação de impacte ambiental, à não demonstração da utilidade pública e aos danos considerados irreversíveis no montado de sobro e azinheira.
A decisão foi confirmada pelo Tribunal Central Administrativo Sul, após recurso apresentado por autarquias e pela Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo. A associação considera que este embargo constitui um precedente relevante na avaliação judicial de grandes projetos hidráulicos em Portugal, tendo contado também com pareceres favoráveis do Ministério Público.
Sociedade civil mobilizada contra megaprojetos fotovoltaicos
Outro dos avanços assinalados é a mobilização da sociedade civil face a megaprojetos fotovoltaicos. A Quercus destaca o caso da Central Solar Fotovoltaica de Sophia e das linhas de muito alta tensão associadas, abrangendo os concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova.
A consulta pública deste projeto, realizada entre outubro e novembro de 2025, registou cerca de 12.700 participações, uma das maiores de sempre no portal Participa.pt. Para a associação, este envolvimento traduz uma mensagem clara da sociedade no sentido de que a transição energética não deve ocorrer à custa dos ecossistemas nem da degradação dos valores naturais.
Floresta Azul e justiça climática entre os sinais positivos
No balanço positivo de 2025, a Quercus inclui ainda a criação do programa «Floresta Azul — Restauro Ecológico de Pradarias Marinhas». A associação sublinha a importância destes ecossistemas de carbono azul, como sapais e pradarias marinhas, na captura e armazenamento de carbono, na proteção da biodiversidade e na adaptação às alterações climáticas, com particular relevância para regiões costeiras.
A nível internacional, a organização destaca também a aprovação do Mecanismo de Ação de Belém, na COP30, considerando-o um dos avanços mais sólidos em matéria de direitos humanos no âmbito das negociações climáticas das Nações Unidas, ao colocar a justiça social no centro da transição climática.
Tratado do Alto Mar entra em vigor em 2026
Entre as expectativas ambientais para 2026, a Quercus dá particular destaque à entrada em vigor do Tratado do Alto Mar, após a ratificação por mais de 60 países em 2025, número necessário para a sua aplicação.
Segundo a associação, este instrumento jurídico internacional vinculativo permitirá reforçar a proteção da biodiversidade marinha em áreas além das jurisdições nacionais, abrangendo mais de dois terços do oceano. A Quercus espera que a implementação efetiva do tratado represente um avanço significativo na conservação dos ecossistemas marinhos e na governação internacional dos oceanos, com impactos positivos também para regiões costeiras.
Resíduos, pesticidas e novos OGM no centro das atenções em 2026
Para 2026, a Quercus identifica ainda a gestão de resíduos como um dos maiores desafios ambientais em Portugal. A associação alerta para o atraso face às metas europeias de reciclagem e para a dependência continuada dos aterros, defendendo a implementação do Sistema de Depósito e Reembolso, prevista para 10 de abril de 2026.
Entre outras prioridades, surgem o Plano Nacional de Restauro da Natureza, a regulação dos pesticidas e o acompanhamento do processo legislativo europeu sobre os novos organismos geneticamente modificados, dossier que a associação considera crítico para a proteção da saúde pública e do ambiente.