Com essa primeira edição, Quando Começo a Cantar, de 1943, a poesia de Aleixo deixava, somente, de ser impressa em folhas volantes, actas de Jogos Florais ou em algumas páginas da imprensa local.
Primavera de 1943. Data histórica na poesia aleixiana. Joaquim Magalhães, acabado de co-fundar o Círculo Cultural do Algarve, e na qualidade de Presidente dessa associação cultural (viria a sê-lo até 1970), sediada em Faro, toma a iniciativa de, com a anuência do poeta Aleixo, editar a sua primeira obra.
Dão-lhe o sugestivo título de Quando Começo a Cantar, primeiro verso de uma sextilha inscrita no livro e que reza assim: «Quando começo a cantar, / Eu bem quisera agradar, / Mas nem sempre sou capaz; / Só quando o coração canta / A minha pobre garganta / Faz o que nem sempre faz».
Com essa primeira edição, financiada pelo recém-fundado Círculo Cultural do Algarve e que contou com uma preciosa ajuda financeira por parte da Junta de Província[1], na altura, presidida por um amigo e colega de Joaquim Magalhães, o Dr. José do Nascimento, a poesia de Aleixo deixava, somente, de ser impressa em folhas volantes, actas de Jogos Florais ou em algumas páginas da imprensa local (como p. ex. n’O Louletano) e regional (como p. ex. no Correio do Sul). Adquiria, a partir desse momento, a forma de livro, podendo, dessa maneira, alcançar mais leitores. Chegar a mais pessoas. Ser lida, discutida e criticada. Numa espécie de jogo de soma positiva. Porque todos ganhavam. Ganhava o poeta. Ganhavam os futuros leitores. E, principalmente, ganhava a poesia portuguesa.
A primeira edição do Quando Começo a Cantar foi composta da seguinte maneira: cento e treze quadras, quatro quintilhas, cinco sextilhas e duas composições em décimas subordinadas a um mote de quatro versos. Editaram-se 1.100 exemplares, que, posteriormente, serão vendidos ao preço unitário de 7$50 (valor que na altura dava para comprar três pães de quilo). Os custos totais da edição orçam em 1.650$00. E o seu sucesso comercial é total. Vendem-se todos os exemplares em menos de dois meses [2].
Dado o facto do poeta Aleixo ser, praticamente, desconhecido do grande público, Joaquim Magalhães pensa, em boa hora, escrever uma breve apresentação do autor. Em jeito de prefácio à referida publicação. Dá-lhe o título de «Explicação Indispensável». Nesse escrito curto, de apenas três páginas, Magalhães faz uma sumária apresentação do autor, começando por escrever:
«Embora não totalmente analfabeto – sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros – não é capaz, porém, de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto»[3].
Para, logo de seguida, acrescentar: «Todavia, há nos versos que constituem este livro uma correcção de linguagem e, sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixam de impressionar»[4].
Identificando, depois, com enorme clareza e precisão, as três características que, no seu entender, melhor definiam a poesia do Autor: «a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso»[5].
Magalhães acrescenta, ainda, que o tom da poesia de Aleixo é «dorido, irónico [e] um pouco puritano de moralista»[6].
A obra termina de ser impressa no dia 14 de Abril de 1943, nas instalações da Tipografia União – a tipografia da diocese do Algarve, que, entre outras publicações, editava o periódico regional católico Folha do Domingo –, em Faro. Começando o próprio Aleixo a venda dos seus primeiros exemplares no dia 25 de Abril de 1943, um Domingo de Páscoa – por sinal, o último dia do ano em que, de acordo com o calendário lunar, pode ocorrer o Domingo de Páscoa –, no Ateneu Comercial e Industrial de Loulé, por ocasião da festa de encerramento dos Jogos Florais da Primavera, promovidos pelo jornal Notícias de Coimbra.
Em Janeiro de 1944 a obra inaugural da poesia aleixiana vai merecer uma crítica literária na revista Brotéria. Que era, na altura, uma importante e conceituada revista do meio cultural português. Fora fundada, nos princípios de 1902, como sendo a «Revista de Ciências Naturais do Colégio de S. Fiel», pelos padres Joaquim da Silva Tavares, Carlos Zimmerman e Cândido Mendes.
Fundadores que lhe puseram o nome de Brotéria, em homenagem ao célebre naturalista português Félix da Silva Avelar Brotero (1744-1828). Apresentava-se, originalmente, com o subtítulo de «Revista de Ciências Naturais do Colégio de S. Fiel». Todavia, depois da existência de várias séries da revista, em 1925 inicia-se uma nova série, agora subintitulada de «Revista de Fé, Ciência, Letras». Nos anos Quarenta a revista passou a apresentar como subtítulo «Revista Contemporânea de Cultura». A Brotéria fazia a defesa, o testemunho e a divulgação dos interesses culturais da comunidade jesuítica a residir em Portugal. Era a revista cultural dos Inacianos.
Assim sendo, em Janeiro de 1944, no volume XXXVIII da revista Brotéria, pode encontrar-se uma das primeiras críticas literárias a uma obra aleixiana. Vem assinada por A. Veloso. E reza assim:
«Aleixo, António. – Quando começo a cantar. – Vol. de 180 x 120 mm., e 61 páginas, com prefácio de Joaquim Magalhães. Círculo Cultural do Algarve, Faro, 1943.
António Aleixo evidencia, neste pequeno volume, surpreendente facilidade rítmica e fundo poético muito apreciável. Bem fez, por isso, o C. C. A., revelando aos nossos poetas, este pobre cauteleiro, que nasceu poeta e versejava, não por mania de versejar, mas porque sente, dentro da alma, alguma coisa
«que manda fazer assim» (pág. 14).
O poeta sofre, como todos os verdadeiros poetas, a distância que vai da expressão material do verso à ideia representada na sua alma de artista, e quer que almas irmãs da sua completem, em si, o que as palavras sugerem, mas não chegam a dizer:
Nos quadros que a gente vê,
quási sempre o mais bonito
´sta guardado p´ra quem lê
o que lá não ´stá escrito (pág. 47).
É preciso ser-se realmente poeta, para o sentir e dizer assim. Revela o A. igual facilidade nas várias modalidades estróficas de que usa e lampejos de densidade poética, que nos surpreendem, ainda quando glosa motes, ralha contra as injustiças sociais ou mata, com riso, discreta e chistosamente, a presunção ridícula de certas vaidades sem consistência.
Refere-nos o prefaciador a vida de pobreza do poeta, com mulher e filhos, e sem pão para lhes dar, nem recursos para valer a sua filha, que a tuberculose lhe vai minando.
Dizem que não há poesia que valha uma boa acção. E que boa acção não seria, se os mais poetas lhe estendessem, num gesto lindo de simpatia humana, a sua mão valedora e irmã! Não seria, esta acção, a melhor das suas poesias?
– A. Veloso»[7].
A crítica, ela própria um exercício de objectividade, simplicidade e beleza, revela a excelência da obra criticada. O crítico mostra-se verdadeiramente surpreendido com «a facilidade rítmica e o fundo poético» do autor. Mas não só. Na poesia de Aleixo surpreende-lhe, igualmente, a «facilidade nas várias modalidades estróficas de que usa e lampejos de densidade poética». Para o crítico, o autor apresenta uma saudável «densidade poética» em todas as dimensões da sua obra, isto é, «quando glosa motes, ralha contra as injustiças sociais ou mata, com riso, discreta e chistosamente, a presunção ridícula de certas vaidades sem consistência».
Sublinhe-se que A. Veloso – devendo ser um jesuíta, ou, caso não o fosse, encontrando-se ligado, de alguma forma, à Companhia de Jesus –, se mostrou visivelmente agradado com a mensagem aleixiana. Analisando esta primeira obra do poeta de forma simpática, positiva e elogiosa, mostrando-se, dessa maneira, bem sensível à qualidade literária do «pobre cauteleiro» e genial poeta.
Refira-se, para terminar, que o Quando Começo a Cantar teria mais duas edições: a segunda edição, editada em Coimbra, pela Livraria Atlântida, em 1948; e uma terceira edição, editada em Lisboa, em 1960.
João Romero Chagas Aleixo | Historiador
[1]A Junta de Província concedeu um subsídio de 1.000$00 para a edição desta obra.
[2]Cf. MAGALHÃES, Joaquim, «António Aleixo – Testemunho em Forma de Apontamento Breve Sobre a Vida E a Obra do Poeta», in Literatura Popular Portuguesa. Teoria da Literatura Oral/Tradicional/Popular, Compilação das comunicações apresentadas no Colóquio internacional intitulado Literatura Popular Portuguesa, Teoria da Literatura Oral/Tradicional/Popular realizado nos dias 26, 27 e 28 de Novembro de 1987, com a coordenação de Manuel Viegas Guerreiro em colaboração com a Linha de Acção de Recolha e Estudo da Literatura Popular Portuguesa do Centro de Estudos Geográficos do I.N.I.C., Lisboa, Acarte e Fundação Calouste Gulbenkian, 1992, p. 292.
[3]Cf. Joaquim MAGALHÃES, «Explicação Indispensável», in Quando Começo a Cantar, Faro, Círculo Cultural do Algarve, 1943, p. 7.
[4]Cf. ibidem.
[5]Cf. ibidem, p. 8.
[6]Cf. ibidem.
[7]Cf. A. VELOSO, «Crítica Literária ao Quando Começo a Cantar», in Brotéria, Revista Contemporânea de Cultura, volume XXXVIII, fascículo 1, Lisboa, Janeiro de 1944, p. 103.