O projeto Carefish/catch visa reduzir o sofrimento na pesca com armadilhas e covos. O Centro de Ciências do Mar (CCMAR) do Algarve é um dos parceiros.
De acordo com um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a produção pesqueira mundial atingiu um novo máximo.
No entanto, o sector das pescas continua a debater-se com o grande problema do sofrimento dos animais durante o processo de captura, que, até à data, quase não tem sido uma questão pública.
O projeto Carefish/catch visa reduzir o sofrimento na pesca. Para o efeito, os cientistas estão a identificar medidas adequadas. Recentemente, publicaram recomendações sobre a pesca com armadilhas e covos.
O último relatório do projeto centra-se nos covos e armadilhas utilizados na pesca do polvo no sul de Portugal, como exemplo da pesca de pequena escala no sul da Europa.
As armadilhas e os covos encontram-se tanto na pesca de pequena escala como na pesca industrial em todo o mundo. Embora representem apenas uma proporção relativamente pequena das capturas globais, têm uma importância económica considerável, uma vez que certas espécies geram muitas receitas, dizem os investigadores do projeto com sede em Olhão.
Atrair, iscar e apanhar
As armadilhas têm, geralmente, estruturas rígidas e atraem os peixes com isco. Quando os peixes, crustáceos ou moluscos estão dentro das armadilhas, é quase impossível escapar. Em comparação com outras artes de pesca de fundo, como o arrasto, as armadilhas e os covos têm um impacto reduzido no habitat aquático, mas as artes que muitas vezes se perdem – continuam a capturar animais como «armadilhas fantasma».
Abuso de força, lixívia, armazenamento vivo
As conclusões do relatório atestam o sofrimento considerável dos polvos aprisionados. Os polvos são retirados das armadilhas com grande força, levando ao corte de membros. A lixívia é também utilizada para facilitar a remoção dos animais das armadilhas, o que pode provocar queimaduras dolorosas no corpo, especialmente nos olhos.
Este método também pode ser devastador porque os animais que não estão sexualmente maduros devem ser libertados, sendo questionável se eles sobrevivem ao choque e aos ferimentos causados pela lixívia.
Além disso, os animais trazidos para bordo geralmente não são mortos para que pareçam o mais frescos possível para os compradores. São mantidos vivos e amontoados no navio, por vezes até em água doce. Tudo isto causa grande sofrimento.
Recomendações para reduzir o sofrimento dos animais
Para evitar a utilização de lixívia e a remoção violenta, poderão ser usados outros produtos (ainda a ser testados, por exemplo, vinagre) que não causem dano ao animal e armadilhas deveriam ser concebidas de forma diferente no futuro, por exemplo, com aberturas maiores ou partes móveis.
Além disso, os animais deverão ser atordoados e mortos imediatamente, de preferência por um membro treinado da tripulação do navio. A prática recomendada consiste em fazer uma incisão no cérebro com um objeto afiado e pontiagudo (por exemplo, uma faca). Estas boas práticas de melhor manuseamento e morte rápida terão ainda um impacto positivo na qualidade do produto que será vendido ao consumidor.
Os parceiros do projeto Carefish/catch apelam aos políticos, aos organismos de certificação, à indústria e aos retalhistas para que levem a sério os conselhos sobre a redução do sofrimento dos peixes, moluscos e crustáceos e ajudem a implementar normas de bem-estar animal nas pescas.
Parceiros internacionais
O principal objetivo do projeto Carefish/catch é promover melhores normas de pesca. Cinco parceiros internacionais partilham as seguintes tarefas:
- Fair-fish (Suíça) gere a base de dados que resume o sofrimento dos animais causado por vários métodos de pesca e possíveis melhorias.
- O CCMAR da Universidade do Algarve (Portugal) efetua as avaliações do estado dos peixes capturados por diferentes métodos de pesca e trabalha a bordo dos navios para avaliar o estado e a vitalidade de diferentes espécies de peixes e medir o seu stress.
- O FishEthoGroup (Portugal) desenvolve normas de bem-estar animal para pescarias certificadas.
- A Friend of the Sea (Itália) irá incluí-los no seu próprio programa de certificação das pescas.
- O Instituto DeMoS (França) avalia o impacto destas medidas no sector das pescas e nos consumidores.
O relatório pode ser lido aqui.
Fotos: Bruno Filipe Pires






