O aumento do preço das casas e a inflação estão a criar um novo tipo de pessoas em condição de sem-abrigo em Portugal, integradas socialmente que são empurradas para a exclusão, alertam associações que lidam com este problema e com a pobreza.
No final de 2023, o coordenador da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), Henrique Joaquim, admitiu um aumento do número de pessoas a viver na rua. Os dados mais recentes, referentes a 2022, indicavam 10.700 pessoas na condição de sem-abrigo em 2022.
O Alentejo, a Área Metropolitana de Lisboa e o Algarve eram as regiões que registavam as proporções mais elevadas, respetivamente 2,13, 1,60 e 1,51 pessoas em situação de sem-abrigo por mil residentes.
«Damos uma volta pela Gare do Oriente, Saldanha, Martim Moniz ou outras ruas de Lisboa (…) e dificilmente encontramos toxicodependentes ou alcoólicos» a viver nas ruas, como era o perfil dos sem-abrigo no passado, disse à Lusa o dirigente da associação Remar Luís Filipe Macedo.
Agora são «pessoas saudáveis que estão a lutar pela vida», acrescentou.
Na véspera da apresentação no parlamento da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) 2025-2030, o dirigente reconhece que há cada vez mais casos nas ruas.
«Temos notado que a situação dos sem-abrigo não melhora, não diminui. Cada vez há mais pessoas nas ruas, em locais não habituais», disse, dando o exemplo do serviço de refeições da sua associação.
«Saímos sempre com três terrinas de sopa e 250 lanches e damos até acabar, mas muitas pessoas ficam sem receber uma refeição», explicou.
Para Luís Filipe Macedo, «este problema está a aumentar, com um novo perfil, mais emigrantes e mais novos», e «custa ver como algumas pessoas estão a viver nalguns locais de Lisboa».
O responsável apontou o aumento do preço das casas e do custo de vida como os principais fatores para este fenómeno.
«Alguns até poderão ter algum trabalho ou biscate, mas não têm condições para ter casa e ficam a viver em tendas», afirmou o dirigente da Remar.
Por seu turno, Sandra Camara Pestana, responsável da Associação Cais, recorda que a vocação da sua associação é acompanhar processos de reinserção, fornecendo lugares para residir e dando apoio na procura de emprego.
Apesar disso, a Cais tem notado que existem mais casos de sem-abrigo e de exclusão social, alguns deles antigos utentes que agora se deparam com problemas económicos.
«As pessoas trabalham para sobreviver» e «vivem num limbo», considerou. «Se um casal fica no desemprego é um horror e a vida fica em suspenso», acrescentou.
«As medidas inflacionistas que estamos a viver, a falta de habitação. Se as pessoas não têm habitação, não tem uma vida estável e sem isso não conseguem um emprego», salientou a dirigente da Cais.
No Porto, a associação apoiava «um casal que ia trabalhar todos os dias e vivia na rua», uma «situação que não é sustentável», exemplificou Sandra Camara Pestana.
Nos casos identificados, a Associação Remar tenta «fazer o acolhimento», procurando dar-lhes dormida e outros cuidados de modo a auxiliar na integração.
Mas é preciso que «eles queiram isso», salientou Luís Filipe Macedo.
Em outubro de 2023, Marcelo Rebelo de Sousa pediu um «solução justa, digna e humana» para as pessoas em situação de sem-abrigo. Portugal tem 10.700 pessoas a dormir na rua, 1400 só no Algarve, tal como o barlavento noticiou.
Fotos: Bruno Filipe Pires
