Portugal mantém rendimentos entre os mais baixos da UE e registou uma subida de 24% nos preços da habitação desde 2020, segundo o retrato da nova plataforma da Pordata.
A Pordata lançou hoje uma nova plataforma interativa que traça um retrato comparativo dos 27 Estados-membros da União Europeia (UE), no ano em que Portugal assinala 40 anos de adesão à UE. A iniciativa coincide com o 16.º aniversário da base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Organizada em quatro áreas — População, Economia, Custo de Vida e Rendimentos, Energia e Ambiente — a nova plataforma, baseada em dados do Eurostat, permite comparar indicadores, acompanhar a evolução de cada país e situar Portugal face à média europeia.
O retrato mostra um país com crescimento económico acima da média recente, mas com fragilidades persistentes: Portugal registou o sexto maior crescimento do PIB per capita entre 2020 e 2024, mas continua entre os Estados-membros com menor poder de compra e foi o segundo onde os preços da habitação mais subiram desde 2020.
Poder de compra: Portugal entre os rendimentos mais baixos da UE
O rendimento mediano disponível das famílias portuguesas, por adulto equivalente, foi de 1.053,9 euros em 2024. Trata-se do rendimento líquido do agregado familiar, depois de impostos, que inclui salários e transferências sociais e é ajustado à dimensão da família.
Embora a fonte não o explicite, o valor corresponde a uma base mensal. A plataforma da Pordata fixa o cabaz padrão de bens essenciais em 100 euros e indica que este rendimento permite comprar 11 cabazes.
A divisão de 1.053,9 euros por 100 euros resulta em cerca de 10,5, arredondados para 11, o que pressupõe que ambos os valores sejam mensais. O Eurostat apresenta este indicador em termos anuais, sendo habitual a sua divisão por 12 quando a comparação é feita com valores mensais, como neste retrato.
No Luxemburgo, o rendimento mediano por adulto equivalente atinge 4.233,3 euros, cerca de quatro vezes mais do que em Portugal. No salário bruto médio, a diferença mantém-se expressiva: 6.914,1 euros no Luxemburgo contra 2.068,2 euros em Portugal.
Apesar de o cabaz de bens essenciais ser relativamente mais barato — Portugal ocupa o 17.º lugar —, o baixo rendimento disponível mantém o poder de compra entre os mais reduzidos da UE.
Habitação: preços sobem 24% desde 2020, segunda maior subida na UE
Entre 2020 e 2024, os preços da habitação em Portugal aumentaram 24,1%, a segunda maior subida acumulada entre os 27 Estados-membros, apenas superada pela Grécia, com 29%.
A maior descida registou-se na Finlândia, onde os preços recuaram 16,3% no mesmo período. A comparação baseia-se nas séries de variação acumulada divulgadas pelo Eurostat, que medem a evolução dos preços da habitação em cada Estado-membro.
No total, os preços subiram em 16 dos 27 países da UE. Em Portugal, esta valorização coincide com rendimentos baixos, o que agrava a dificuldade de acesso à casa própria.
Economia: crescimento rápido, mas produtividade baixa
Entre 2020 e 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita nacional cresceu 40% em termos nominais e 10% em termos reais, o sexto maior crescimento da UE.
Apesar do dinamismo recente, a produtividade do trabalho permanece baixa no contexto europeu. Em 2024, cada trabalhador contribuiu com cerca de 47,7 mil euros para o PIB, o 19.º valor entre os 27 Estados-membros. No topo da tabela surge a Irlanda, com 194,4 mil euros por trabalhador — o valor mais elevado da UE.
Demografia: segundo país mais envelhecido da UE
Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com 24,1% da população com 65 ou mais anos, apenas atrás de Itália. Os jovens até aos 15 anos representam apenas 12,8% da população, uma das percentagens mais baixas da UE. Existem 53 jovens por cada 100 idosos, um dos rácios mais reduzidos do espaço comunitário.
A população em idade ativa diminuiu nas últimas duas décadas, passando de 67,4% para 63,1% do total. Portugal apresenta a população em idade ativa menos escolarizada entre os Estados-membros: cerca de 38,7% não têm o ensino secundário completo.
Apesar do envelhecimento acentuado, a população residente tem crescido nos últimos anos, em parte devido ao aumento da imigração. Os estrangeiros representam cerca de 9,8% dos residentes em Portugal, acima da média da União Europeia.
Energia e ambiente: liderança nas renováveis, atraso na reciclagem
Portugal é um dos países com maior peso de energias renováveis na produção total: 97,8% da energia produzida tem origem renovável. O país é ainda o terceiro com menos emissões de gases com efeito de estufa por habitante, com 4,8 toneladas anuais.
A dependência energética mantém-se elevada, nos 64,5%, apesar da redução registada na última década.
Na reciclagem de resíduos urbanos, Portugal figura entre os que menos reciclam. A taxa foi de 30,6%, menos de metade da registada na Alemanha, com 68,7%, e na Áustria, com 62,8%.
Em suma, o retrato da Pordata revela um país com crescimento económico relevante e avanços na transição energética, mas ainda marcado por rendimentos baixos, envelhecimento acentuado e forte pressão na habitação.