Podíamos inspirar-nos na visão estratégica e de planeamento urbano da vizinhança ibérica. A começar no princípio orientador de empreender para quem habita e vive a cidade, para a comunidade
1) Da importância dos museus e centros culturais nas cidades.
Da vizinha Andaluzia faltava-me conhecer a província de Jaén, região em que a paisagem é um mar de oliveiras a perder de vista. E com o atrativo das cidades de Baeza e Úbeda serem património da humanidade, exibindo um admirável conjunto monumental e muito bem preservado de igrejas, palácios e antigas praças.
Mas o que me interessa referir, mais uma vez… (pois no barlavento já publiquei um artigo Dos centros de arte contemporânea e da razão de existirem) são as dinâmicas urbanas aqui ao lado.
Por exemplo Jaén, cidade mais do interior e com pouco turismo (comparando com a vizinha Córdova), conta desde 2017 com o Museu Ibero, um edifício de moderna arquitetura, amplo e funcional, situado bem no centro da cidade.
Neste museu, com uma boa coleção de peças de escultura do período ibérico pré-romano, resultantes em grande parte de escavações arqueológicas recentes, a antiguidade funde-se harmoniosamente com a contemporaneidade.
Já de saída, com o museu prestes a fechar, o segurança fez questão de nos mostrar zonas ainda não acessíveis e os fundos, com um conjunto impressionante de peças encaixotadas e catalogadas, assim como os espaços onde ficarão expostas.
Esta atitude bem simpática, permitiu-nos conhecer melhor a amplitude e arrojo deste empreendimento.
De sublinhar que além deste novo e moderno edifício, Jaén conta ainda com museo provincial, na mesma avenida e a curta distância do Ibero, e com um centro cultural instalado num antigo palácio no casco antigo.
2) Triste fado o de Faro
E demos por nós, já na rua, a comentar a inércia política e a falta desta mesma dinâmica empreendedora em Faro.
É verdade que qualquer cidade média em Espanha tem uma dimensão urbana e populacional, consequentemente de investimento social e económico, que supera a maior parte das capitais de distrito de Portugal. Países vizinhos com escalas urbanas muito diferentes.
Mas podíamos inspirar-nos na visão estratégica e de planeamento urbano da vizinhança ibérica. A começar no princípio orientador de empreender para quem habita e vive a cidade, para a comunidade, e não para turista ver para quem nos visita. Ou seja, fortalecendo a identidade e a memória do que somos, valorizando arte, artistas, cultura e património regional. Se assim for, bom e digno de admiração para nós também será certamente para os visitantes.
Lamentavelmente, como sempre, vamos é tendo notícia de novas demolições em zonas centrais da cidade, que irão dar lugar a urbanizações e condomínios de luxo. Triste fado o de Faro!
Mas para terminar em registo menos pesaroso, destaco pela positiva o excelente trabalho do diretor e equipa do museu municipal de Faro, com um acréscimo significativo de exposições temporárias, muito bem programadas e abrangendo diferentes épocas, autores e géneros artísticos e literários.
3) Das árvores em meio urbano
Já cansa, escrever sobre isto!…artigo Do diferente entendimento das árvores em meio urbano no Algarve e Andaluzia Mas perante o contínuo massacre das árvores em espaços urbanos da região, não posso calar a indignação. Como se as pessoas estivessem possuídas por uma espécie de ódio (palavra que peço emprestada ao amigo e arquiteto paisagista Gonçalo Duarte Gomes, que intitulou uma palestra de Gente que Odeia Árvores).
São muitos os exemplos de árvores completamente decepadas. Não chamem a isto podas.
Por comparação, em Jaén, pude mais uma vez observar uma cidade andaluza com avenidas e ruas densamente arborizadas com árvores ornamentais de grande porte, bem cuidadas, assim como laranjeiras e oliveiras igualmente com função ornamental, mantendo copas grandes de modo a providenciar boas sombras.
Nota: Gosto do meu país e dificilmente mudaria definitivamente para Espanha, mas penso que podíamos aprender alguma coisa com o vizinho do lado. No planeamento e gestão urbana e até a libertar-nos da confrangedora subserviência na atual conjuntura política internacional.
Paulo Penisga | Professor