Pesca da sardinha no Algarve teve um «arranque suave», com boas capturas e preços valorizados em lota, num contexto de menor quota e aumento dos custos do gasóleo.
Luís Jacinto, mestre da traineira Portipesca, evitou uma noite ventosa e decidiu sair ao mar 24 horas depois da abertura oficial da campanha da sardinha (sardina pilchardus).
No porto de pesca de Quarteira, observa a sua tripulação a descarregar as dornas, cada uma carregada com 350 quilos de pescado, ao início da manhã de hoje, terça-feira, 5 de maio.
A pescaria «foi boa, meia quota», resumiu. «Trouxemos 5,5 toneladas de sardinha. Para primeiro dia, é muito bom». Apesar da boa captura inicial, não esconde a preocupação com a escalada dos custos do gasóleo, e diz não ter visto abundância no mar.
Miguel Cardoso, dirigente da Olhãopesca – Organização de Produtores de Pesca do Algarve, descreve este início da pesca do cerco como uma fase de adaptação.
«As nossas expectativas são boas. Esperamos sempre bons resultados, um ano melhor que o anterior, e uma campanha positiva. Estes primeiros dias são sempre uma adaptação. Algumas embarcações ainda estão a preparar as redes, não estão todas a trabalhar. Já houve algumas capturas reduzidas no Sotavento, em pré-época», para testar homens e máquinas depois de uma paragem de cinco meses.
Mário Galhardo, da Barlapescas – Cooperativa dos Armadores de Pesca do Barlavento, concorda. Estima que a frota da pesca de cerco, em Portimão, tenha 12 embarcações, mas apenas três começaram agora a faina da sardinha, incluindo a do mestre Luís Jacinto.
As restantes ainda estão em reparação e a apetrechar-se. Aponta que, no início de junho, estarão todas em plena laboração.
Há atum atrás das sardinhas
O que não passa despercebido é a presença de atum-rabilho em águas algarvias, sobretudo ao largo do Sotavento, que poderá estar a condicionar o comportamento e a localização da sardinha.
«Soubemos que está a acontecer uma grande migração. Há relatos de pescadores lúdicos que já observaram» a passagem dos tunídeos «e isso faz com que os pequenos pelágicos se afastem mais da costa. Sei que em Portimão há uma maior concentração» de sardinha.
Mário Galhardo confirma e diz que os cardumes parecem estar sobretudo a oeste, até ao Cabo de São Vicente, e aponta também a presença de golfinhos, predadores que concorrem com os homens do mar.
Esta é também historicamente uma das áreas mais produtivas. «É considerada até uma zona de procriação, como Matosinhos e Peniche», acrescenta Miguel Cardoso.

Quota nacional mais baixa em relação a 2025
Segundo o Despacho n.º 5288/2026, publicado em Diário da República a 22 de abril, a campanha arranca com um limite global de 33.446 toneladas para a frota portuguesa, menos 960 toneladas face ao ano anterior.
A pesca da sardinha reabriu às 00h00 de segunda-feira, 4 de maio. A campanha anterior tinha encerrado a 3 de dezembro de 2025, para proteger o recurso.
A pesca é gerida em conjunto por Portugal e Espanha, no âmbito do plano plurianual 2021-2026, que integra medidas de proteção dos juvenis e campanhas científicas para avaliar o estado do recurso.
«Tendo em conta o parecer do ICES — por questões científicas e pareceres científicos —, houve esta redução», diz Miguel Cardoso. Ainda assim, «de modo geral, o sector considera que esta é uma boa possibilidade de pesca para fazer face à atividade».
Mário Galhardo também concorda. «Já apanhámos muito menos. E agora vai haver uma nova revisão, o que significa que a quota pode aumentar outra vez», espera.

Consumidor vai pagar mais este ano?
A verdade é que o preço da sardinha valorizou logo nas primeiras horas de campanha. «Houve dornas vendidas a 700 euros, o que dá cerca de dois euros o quilo», em lota, estima. «É muito bom para o início da safra», considera Miguel Cardoso.
Mário Galhardo sublinha que «nunca, em nenhum ano, se começou com este valor».
«A sardinha ainda não apresenta os níveis de gordura que todos desejamos, mas tem saída, tem procura», acrescenta, com destino sobretudo às conserveiras e indústria dos congelados, mas também ao consumo em fresco, acrescenta o dirigente olhanense.
Este ano, a evolução do mercado poderá favorecer os pescadores e armadores nacionais porque Marrocos, principal fornecedor para a indústria conserveira europeia, suspendeu a exportação de sardinha congelada desde 1 de fevereiro último, para garantir o abastecimento interno e conter a subida de preços.
A medida surge num contexto de quebra acentuada das capturas, com os desembarques naquele país a caírem cerca de 46% entre 2022 e 2024. Sem esta oferta, as conserveiras passam a depender mais da pesca nacional, o que aumentará a demanda.
Há ainda outro fator, mas este, de prestígio. «A sardinha ibérica foi certificada com o padrão MSC, o que abre portas aos mercados do norte da Europa. Vai fazer com que haja mais procura, o que é muito favorável para o nosso sector», disse Cardoso.
O dirigente da Olhãopesca admite que o consumidor, provavelmente, terá de abrir os cordões à bolsa e sentirá o peso na carteira quando pensar em assar sardinhas este verão.
«Muito provavelmente, a sardinha vai estar mais cara este ano. Claro que o preço final decorrerá muito da oferta, da abundância e da regularidade das descargas ao dia».
Miguel Cardoso revela que «o Ministério da Agricultura e das Pescas já anunciou que está a ponderar a disponibilização de apoios», para mitigar os custos do combustível de trabalho.
Mário Galhardo reforça a necessidade: «esta é uma atividade dispendiosa porque as traineiras andam toda a noite à procura dos cardumes, fazem muitas milhas e gastam bastante gasóleo. Espero que o Governo ajude, porque até agora é apenas intenção».
Quarteira e Portimão concentram a faina
Os principais portos de descarga de sardinha no Algarve continuam a ser os de Quarteira e Portimão, devido a critérios de logística, mercado, capacidade e até tradição.
«Quarteira tem uma característica muito própria: há uma concentração de compradores (grossistas) espanhóis. É também um porto mais fácil de aceder, o mar está muito próximo, o desembarque flui de forma mais célere» e depois do leilão na lota da Docapesca, camiões e carrinhas de distribuição do peixe fresco têm acesso fácil à A22.
Em Portimão, diz Mário Galhardo, por outro lado, além da frota, «temos a tradição da melhor sardinha», e, segundo relatos dos mestres com quem falou, este ano, «está boa, tem qualidade, só lhe falta um bocadinho de gordura. Isso acontece quando começam a aquecer as águas».
Em Olhão, «descarregam alguns barcos de cerco de menor dimensão, que tradicionalmente capturam mais cavala e carapau», acrescenta Cardoso.
Ambos concordam que os pescadores estavam «desejosos» de regressar ao cerco. A duração da época dependerá das quantidades. «A expectativas é que se prolongue até final de novembro, início de dezembro. Para já, é um arranque suave», conclui.







