Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado recebe uma expedição científica, entre 28 de setembro e 7 de outubro.
O histórico veleiro da pesca do bacalhau Santa Maria Manuela acolhe, entre 28 de setembro e 7 de outubro, a primeira grande campanha científica e educativa dedicada ao Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado, a primeira Área Marinha Protegida de Iniciativa Comunitária em Portugal.
A iniciativa é liderada pela Fundação Oceano Azul, Oceanário de Lisboa e Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) da Universidade do Algarve (UAlg), em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Marinha Portuguesa, Autoridade Marítima Nacional (AMN), Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS) e os municípios de Albufeira, Lagoa, Silves e Portimão.
Envolvem-se ainda associações locais e organizações não-governamentais como a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), Teia d’Impulsos, SOMAR e o Centro Ciência Viva de Lagos.
Comunidade e ciência a bordo
De 28 de setembro a 1 de outubro, o veleiro estará em Portimão com atividades abertas ao público e às escolas. O Oceanário de Lisboa dinamiza experiências de realidade virtual que permitem «mergulhar» no aquário central, além do programa «Mini 30×30», que convida crianças e jovens a participar numa carta aberta às Nações Unidas pela proteção de 30% do oceano até 2030, já subscrita por quase 10 mil estudantes de 29 países.
As atividades educativas incluem jogos de literacia sobre poluição marinha, biodiversidade do recife, comunicação de golfinhos e baleias, ou ainda oficinas criativas de transformação de lixo em arte. Outras propostas passam por experiências práticas de navegação tradicional, simulações sobre gestão sustentável das pescas e dinâmicas para explorar ecossistemas marinhos.
De 2 a 7 de outubro, o foco passa para a ciência, com o navio fundeado na baía de Armação de Pêra. Investigadores do CCMAR e parceiros vão mapear habitats emblemáticos como gorgónias, pradarias marinhas, jardins de corais e bancos de algas calcárias (maerl).
A monitorização ambiental recorre a câmaras subaquáticas, ADN ambiental, acústica e observação de aves e cetáceos. O arsenal tecnológico inclui drones, veículos operados remotamente (ROVs), veículos subaquáticos autónomos (AUVs) e mergulho científico.
Uma área construída «de baixo para cima»
Criado oficialmente em janeiro de 2024, o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve nasceu de um processo participativo inédito, iniciado em 2018. Pescadores, autarcas, associações locais, ICNF, CCMAR e Fundação Oceano Azul juntaram-se para construir uma proposta de proteção que envolveu seis sessões públicas em três anos, com mais de 80 entidades e 100 participantes.
Os objetivos definidos desde o início foram claros: conservar valores naturais sensíveis e ameaçados, promover a pesca local sustentável, desenvolver atividades recreativas responsáveis e dinamizar a educação e cultura ligadas ao oceano. Para apoiar a adaptação da comunidade piscatória, foi ainda criado um mecanismo pioneiro de compensações financeiras, evitando que a transição para novas regras fosse penalizadora para quem depende da pequena pesca.
Pedra do Valado: tesouro natural e económico
A área protegida cobre 156 quilómetros quadrados (km²) entre a Marina de Albufeira e o Farol de Alfanzina. Estudos científicos identificaram 1.059 espécies marinhas, entre as quais 754 invertebrados, 152 peixes, 61 aves marinhas, duas tartarugas, sete cetáceos e 82 espécies de macroalgas. Destas, 156 espécies têm valor comercial e 39 potencial biomédico. Foram registadas 45 espécies novas para Portugal e 12 para a ciência.
Entre os valores mais emblemáticos encontram-se os cavalos-marinhos (Hippocampus spp.) e o mero (Epinephelus marginatus), espécies ameaçadas que aqui encontram refúgio.
O recife combina 60% de fundos arenosos e 40% de substrato rochoso, integrando habitats classificados pela Diretiva Habitats e pela Convenção OSPAR, como os jardins de gorgónias, pradarias de ervas marinhas e bancos de maerl.
Os bancos de maerl são formações de algas calcárias (do género Lithothamnion e outras espécies) que crescem soltas no fundo marinho. Ao contrário das algas marinhas comuns, estas vão acumulando depósitos de carbonato de cálcio, formando autênticos «tapetes» ou «bancos» no leito do mar.
Funcionam como viveiros para peixes e invertebrados juvenis; fixam carbono, ajudando a mitigar alterações climáticas e crescem muito lentamente (alguns milímetros por ano), o que os torna extremamente vulneráveis a perturbações como dragagens, poluição ou pesca de arrasto.
O valor socioeconómico é igualmente expressivo. A pesca artesanal assegura mais de 600 empregos e cerca de oito milhões de euros anuais, assente sobretudo no polvo. A pesca lúdica regista mais de 11 mil eventos anuais, com capturas de espécies como dourada, robalo e sargo.
O turismo marítimo, em forte crescimento, atrai quase um milhão de visitantes por ano, gerando mais de 40 milhões de euros e sustentando um tecido empresarial que passou de 170 empresas em 2013 para 563 em 2023. No total, estima-se que a Pedra do Valado represente mais de 1.600 empregos diretos e um impacto superior a 48 milhões de euros anuais.
Porta-vozes da missão
A campanha mobiliza um conjunto diversificado de especialistas e gestores. Da Fundação Oceano Azul participam Diana Vieira, bióloga marinha responsável pela Campanha Recife do Algarve, e Flávia Silva, engenheira do ambiente dedicada à capacitação de ONGs e combate ao lixo marinho. O Oceanário de Lisboa é representado por Diogo Geraldes, diretor de Educação e coordenador do programa «Educar para uma Geração Azul».
Do lado científico, o CCMAR conta com Jorge Gonçalves, coordenador da campanha e investigador sénior em ecologia marinha, acompanhado por Bárbara Horta Costa, especialista em Áreas Marinhas Protegidas, Mafalda Rangel, pioneira em estudos sobre pesca lúdica e artesanal, e Ana Marçalo, especialista em capturas acessórias e conservação de espécies protegidas.
A bordo, o navio é comandado por Artur Ribeiro, capitão da Marinha Mercante que dirige o Santa Maria Manuela desde 2018, enquanto a gestão estratégica cabe a Nigel Beacham, diretor-geral do lugre, que tem ampliado o programa de expedições científicas e turismo marítimo.
Conhecimento para gestão futura
«O envolvimento da comunidade e a excelência científica são a base desta missão», destaca Diana Vieira. Para Jorge Gonçalves, «a recolha de dados essenciais permitirá avaliar o estado atual do ecossistema e orientar medidas de gestão eficazes».
Os resultados desta missão vão alimentar o Programa Especial e o Regulamento de Gestão do Parque, avaliar a evolução da biodiversidade e consolidar o modelo pioneiro de cogestão comunitária. A campanha também se insere em metas globais como o objetivo 30×30, que pretende proteger 30% do oceano até 2030.
Para os organizadores, a Pedra do Valado volta a ser palco de uma história maior: «uma oportunidade para o Algarve se reposicionar, valorizando o seu património natural e oferecendo uma nova marca à região e ao país».
