O discurso base de Pacheco Pereira, assente no conflito de classes, faz dele um político apreciado por adversários expectáveis.
Dada a reconfiguração política do mundo, primeiro na subjugação humana às forças mercantis, depois ao reposicionamento digital potenciador das novas direitas que funcionaram como forças de arrastão para o quadrante oposto, há muito que Pacheco Pereira (PP) deixou de ser, como se define, mero social-democrata, tornando-se um agente infiltrado da esquerda, talvez menos por decisão, que por deslocação do eixo político.
PP funciona como uma mula de droga, contrabandeando no seu âmago várias pequenas doses esquerdistas cultivadas na adolescência que ganham potência e eficácia adicional pela forma autêntica como se apresenta. A sua inconsciência desse facto, sobretudo num enquadramento onde tanta esquerda rejeita a sua história, confere-lhe uma cariz quase revolucionário num teatro político feito de actores com uma gritante incapacidade, tanto de representatividade como de representação.
O discurso base de Pacheco Pereira, assente no conflito de classes, quando, até mesmo muitas variantes comunistas erradicaram a expressão do seu léxico, faz dele um político apreciado por adversários expectáveis do que por aliados óbvios, dado as suas críticas mais acutilantes serem contra o seu próprio quadrante.
A razão desse fogo amigo é o humanismo estar no centro da sua razão, não a economia, desautorizada como fórum de organização social. A partir daí, PP une a crítica ao capitalismo selvagem da doutrina social da igreja a certos aspectos do materialismo dialéctico numa confluência com os valores de Abril, acima da obsessão falocêntrica do crescimento económico ao qual têm cedido tantas ideologias.
Sem secundarizar o seu carácter estruturador, PP também tem percebido como incorporar as lutas identitárias na luta de classes mais eficazmente que os seus defensores principais.
Neste contexto, um historiador como PP, trabalhando a partir de factos, coloca-se territorialmente nos antípodas de André Ventura (AV), cuja única característica é a mestria na manipulação, distorção, gritaria e instrumentalização dos acontecimentos de forma a encaixarem na visão maniqueísta ao serviço dos seus interesses do momento.
O derby entre PP e AV, foi entre dois adversários com idiomas, realidades e objectivos irreconciliáveis. Onde o primeiro discursa com a propriedade da história, o segundo fala de e para o cérebro reptiliano, futebolizando o debate.
Como o one trick pony que é, André surgiu com o mesmo extenuado e entediante modus operandi na forma e no conteúdo, utilizando as habituais interrupções, escandaleira, berraria e whataboutism, colando PP a um comunismo estatal que nunca existiu, para surgir como novo centro.
Onde o primeiro se distância do maquiavelismo, o segundo leva-o para lá do extremo, subjugando tudo aos seus fins, mesmo não sabendo quais são.
Onde o primeiro traz uma perspectiva factual duma história feita de vencedores, contrapondo-lhe uma visão quase popular, o segundo trabalha para o soundbyte e o reel, com primazia há muito comprovada.
PP não é, claro, alheio à espectacularização dos meios de comunicação e sempre tirou partido isso. Mas além do gáudio pessoal, no final, PP, na melhor das hipóteses, solidificou apenas a convicção dos convertidos, enquanto André consolidou um eleitorado já seu e recuperou o tempo de antena perdido. Só por isso, vence.
Vence porque tem algo para ganhar, enquanto PP jogou para aquecer. André volta a estar na ordem do dia, agora com novos conteúdos, proporcionados por PP para as suas redes sociais, onde os factos nada são contra o amor ao clube, seita e partido que é o Chega. Vence porque aparecer é ganhar e PP proporcionou-lhe isso.
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário