O cenário é desolador e mostra o outro Algarve: aquele que não figura nos postais turísticos, nem tão pouco nos sites de viagens que vendem a região como um destino de sonho.
Uma década após o fim do resgate da troika a Portugal (2011 – 2014) e 17 anos desde a queda do banco Lehman Brothers, em 2008, ainda hoje é visível nas zonas mais turísticas do Algarve o impacto dessas crises bancárias.
Desregulação financeira, derivados financeiros sobrevalorizados e créditos hipotecários de alto risco (subprime) foram os ingredientes de uma crise à escala mundial que não tardou a chegar a Portugal.
O clima internacional era sombrio e o perigo estava à espreita: a economia estagnava, as taxas de juro subiam e os preços das matérias-primas disparavam. A falência do quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos acabaria por trazer à tona a maior crise financeira desde o crash de 1930.
No seguimento da crise imobiliária, a falta de financiamento bancário levou à falência de várias sociedades e, consequentemente, ao fecho de hotéis no Algarve. Enquanto uns encerraram portas, alguns nunca chegaram a sair do papel e outros tiveram de interromper os trabalhos por falta de dinheiro, deixando as obras a meio.
Boa parte ficou ao abandono, tornando-se em paraísos de cimento e ervas daninhas com vista mar, como é o caso do Ocean Ville, em Albufeira. Situado numa encosta sobranceira a uma das principais avenidas da cidade, os despojos deste enorme complexo hoteleiro fazem lembrar uma cidade fantasma.
Inaugurado em 2007, o projeto era ambicioso: um hotel com 100 quartos e 80 apartamentos para segunda habitação. Fecharia pouco depois, vítima da crise no Banco Português de Negócios (BPN) e de um buraco financeiro de 700 milhões de euros, que levou à nacionalização do banco e à prisão do seu presidente, José Oliveira e Costa, entretanto já falecido.
Abandonado em 2008, tem tudo menos pessoas. Projetado em forma de círculo incompleto, com uma abertura para o Oceano Atlântico, o complexo tinha todos os elementos que se exigiam a uma unidade de luxo.
Ali não faltam arruamentos, recantos ajardinados, uma piscina e um parque infantil, entretanto tomados pela vegetação e sujidade.
O cenário é desolador e mostra o outro Algarve: aquele que não figura nos postais turísticos, nem tão pouco nos sites de viagens que vendem a região como um destino de sonho. Mas este colosso, que já teve alguns interessados, sem que houvesse negócio, não é o único que aguarda por melhores dias. Há vários empreendimentos imobiliários abandonados no Algarve e que assim permanecem. Até hoje.
Marta Duarte | Jornalista e aluna do Mestrado em Comunicação e Media Digitais da Universidade do Algarve (UAlg)





