Na sua mais recente passagem pelo Algarve, André Ventura trouxe consigo um aparato digno de um filme de ação, com seguranças privados e encenações mediáticas, tentando apresentar-se como o messias político que viria «limpar Portugal» a partir do sul.
Foi levado em braços, clamou vitória antecipada e declarou o Algarve como «grande bastião» do Chega, onde começaria a «conquista do país». Mas a realidade é outra – e bem mais serena. A indiferença dos algarvios, habituados à brisa temperada do mar e à sobriedade dos que conhecem o peso da história, não se deixa enganar por discursos inflamados nem por populismos de ocasião.
A construção de uma ameaça imaginária
A linguagem bélica usada por Ventura — «conquistar», «limpar», «lutar» — é sintomática de uma visão da política assente na divisão, no conflito e na demonização do outro. Esta retórica é incompatível com os princípios da Democracia Cristã, que assentam na dignidade da pessoa humana, no bem comum e na procura de consensos construtivos.
Ao apresentar o Algarve como um «laboratório nacional» para as suas ideias, o líder do Chega revela uma visão instrumental da região e dos seus habitantes. Em vez de escutar, aprender e dialogar com as necessidades reais dos algarvios — da habitação à saúde, do ordenamento do território ao emprego digno — Ventura prefere projetar uma narrativa de «guerra cultural» que pouco ou nada tem a ver com os desafios concretos da região.
O vendilhão do templo moderno
Ventura em cada terra que visita veste-se de «alvo em movimento» rodeado de seguranças, dramatizando uma perseguição que não existe. Como um vendilhão do templo — expressão bíblica que Jesus usou para denunciar os que profanam o sagrado com interesses próprios — apresenta-se como salvador, quando o que carrega nos ombros não é redenção, mas ressentimento.
A manipulação do medo é uma arma antiga, usada por todos os que, ao longo da história, procuraram poder sem responsabilidade. Mas os algarvios, que sabem o valor da paz social e da convivência entre gerações e culturas, olham com desconfiança esta teatralização da insegurança. Como diria o povo da serra de Monchique: «Quem muito assobia, pouco tem para dizer.»
A falsa promessa de «limpar Portugal»
Dizer que quer «limpar Portugal» da corrupção pode parecer, à primeira vista, um objetivo nobre. Mas quando essa promessa se faz sem propostas sérias, sem respeito pelas instituições e com base na generalização difamatória, trata-se apenas de retórica demagógica.
O combate à corrupção exige reformas profundas na justiça, na administração pública e na cultura política. Exige também lideranças éticas, com provas dadas e compromisso com a verdade. Não se combate o mal com histeria. Combate-se com coerência, com serenidade e com um verdadeiro amor à polis — à comunidade política como espaço de justiça e solidariedade.
O papel das autarquias é serviço, não é conquista
Ventura afirma que «não basta votar no André Ventura» e que é preciso «votar em quem vai mudar a vossa vida, nas autarquias locais». Curiosamente, esta é das poucas afirmações com que se pode concordar — desde que a mudança proposta seja baseada em serviço, proximidade e competência.
A Democracia Cristã valoriza profundamente o princípio da subsidiariedade: os problemas devem ser resolvidos ao nível mais próximo possível das pessoas. As autarquias não são trampolins para projetos pessoais de poder. São, ou deveriam ser, comunidades de serviço, onde os eleitos respondem diretamente às necessidades dos cidadãos — e são escrutinados por isso.
Transformar câmaras municipais em bastiões ideológicos, como Ventura deseja, é perverter a natureza da governação local. É colocar o ego à frente do bem comum.
O Algarve como território de inclusão, não de exclusão
O Algarve sempre foi terra de cruzamentos: mouros e cristãos, pescadores e camponeses, visitantes e residentes. A convivência entre diferentes está na alma da região. Cidades como Portimão, Albufeira, Faro, Olhão ou Vila Real de Santo António são exemplo de comunidades abertas, resilientes e solidárias.
É por isso que causa perplexidade ver Ventura apresentar o Algarve como palco de uma cruzada política que não corresponde à sua identidade. Quando diz que «Portugal é nosso, até morrer», o que propõe é uma visão de apropriação exclusivista da nação — como se houvesse portugueses «de primeira» e «de segunda».
Esta ideia é profundamente contrária à mensagem cristã de fraternidade universal, que o Papa Francisco tão bem tem recordado na sua encíclica Fratelli Tutti:
«O amor social é chave para um autêntico desenvolvimento. Para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário reabilitar o amor na vida social — o amor político, que é o amor mais amplo, que abrange todos.» (Fratelli Tutti, 183)
O Algarve não precisa de «messias de ocasião». Precisa de líderes comprometidos com a justiça social, com a coesão territorial e com o desenvolvimento sustentável.
Respostas reais para problemas concretos
Em vez de discursos inflamados, os algarvios esperam respostas para os seus problemas: a precariedade laboral no setor do turismo, a falta de habitação acessível, o envelhecimento da população, a escassez de médicos de família, o abandono das zonas rurais, a dependência excessiva do litoral.
A Democracia Cristã propõe um modelo de desenvolvimento equilibrado e solidário, que respeite o ambiente e valorize o património cultural. Um Algarve que invista na agricultura sustentável, na requalificação urbana com habitação digna, na mobilidade verde, na formação dos jovens e na dignidade dos mais velhos.
A transformação do Algarve não se fará com palavras de ordem, mas com projetos sérios, participação cidadã e uma visão enraizada na dignidade da pessoa humana.
Conclusão: depois do remoinho, a serenidade algarvia
Tal como o Sueste, Ventura passa pelo Algarve como um remoinho que levanta poeira — mas que não muda a paisagem. Os algarvios, com a sua sabedoria antiga e o seu pragmatismo sereno, sabem distinguir entre o que é substância e o que é encenação.
O tempo da política como espetáculo está a terminar. O Algarve precisa de líderes que vejam cada pessoa como um fim em si mesma, não como massa de manobra. Que respeitem a identidade da região, a sua cultura e as suas aspirações.
Como diria Sophia de Mello Breyner Andresen, que tantas vezes falou do sul com voz poética e clara:
«A liberdade é o espaço da responsabilidade».
Que a liberdade do Algarve não seja capturada por promessas vãs, mas reanimada por um compromisso renovado com a verdade, a justiça e o bem comum.
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio e democrata cristão
Foto: Chega