A sua personalidade tímida e reservada que faz com que o seu trabalho não tenha sido ainda sido alvo de grande divulgação, mantendo-se desconhecido da maioria do público. No entanto, os seus desenhos já circulam de forma viral pelas redes sociais. «Neste momento o objetivo é afirmar a minha identidade enquanto artista» explica Dércio Santos, 29 anos, natural de Olhão.
Tudo começou há apenas dois anos. O facto de gostar de «pormenores e detalhes» levou-o a optar pelo realismo ou hiper-realismo, um movimento artístico que nasceu nos Estados Unidos da América no final da década de 1960, e que enfatiza a alta definição geral de uma imagem criando uma ilusão da realidade. Quase como se se tratasse de uma fotografia, mas desenhada à mão, e sem os limites que esta impõe, por exemplo, nos temas e nos cenários.
«Às vezes perco mais tempo a planear o como fazer, do que na execução em si. É uma experimentação constante. Aprendi sozinho por tentativa-erro. Experimentando novos métodos para conseguir o resultado desejado. Leva-se dez vezes mais tempo e é muito complicado», confidencia.
Santos gosta de desenhar «isolado de tudo. É como se nada mais existisse. Entrego-me totalmente».
Cada trabalho demora em média 50 a 60 horas a executar, durante cerca de uma semana. Durante este tempo, capta o processo e a evolução do trabalho em vídeos de timelapse – técnica fotográfica utilizada para registar transformações relativamente lentas, que duram horas, dias ou semanas, e mostram em vídeo o resultado da evolução captada em poucos segundos ou minutos. «Há dias em que me entusiasmo. Começo a pintar de manhã e só termino à noite, com poucas pausas. Não me importo de perder 20 horas num pormenor. O importante é fazer com gosto».
Através da Internet descobriu o trabalho e tendências de outros artistas, mas também novos materiais. Muitos deles são caros e extremamente difíceis de encontrar. Provêm sobretudo do Reino Unido, Estados Unidos e Japão. Por exemplo, um marcador de álcool custa quatro euros, seis blocos de papel strathmore 105 euros e um conjunto de 12 lápis cerca de 60 euros. Muitos dos desenhos são feitos com recurso a lápis de cor aquareláveis por serem «os mais fáceis de encontrar em Portugal».
Enquanto eterno apaixonado por personagens do cinema, dedica atualmente a sua obra a figuras épicas como as da saga Star Wars e da Marvel, mas também retratos de personalidades como Steve Jobs ou Louis de Funès.
«Quando era pequeno lembro-me de ir a um quiosque com a minha mãe e encontrar uma banda desenhada do Homem Aranha, do qual depois me tornei fã. Como a minha família não tinha muitas posses, uma forma de ocupar o meu tempo era copiar os desenhos» da banda-desenhada.
«Gosto de desenhar um pouco de tudo. Um dos próximos projetos é dedicar-me ao desenho de animais realistas».
Na escola todos os intervalos serviam para «pintar e fazer desenhos. Eram momentos mágicos e libertadores». Seguiu artes no secundário, mas na universidade não chegou a concluir o curso de Design de Comunicação, por não corresponder às suas expectativas.
Foi a pressão dos amigos mais próximos que o levou a criar uma página no facebook para mostrar os seus trabalhos. «Não gosto de me expor. Sou tão perfecionista que me sinto sempre insatisfeito. Ainda hoje faz-me confusão partilhar publicamente os meus desenhos. Para mim uma obra nunca está terminada. Falta sempre qualquer coisa. No dia em que achar que atingi a perfeição, provavelmente paro de desenhar porque deixa de ser desafiante», brinca.
Dércio Santos recebe diariamente solicitações para comprar e executar trabalhos à comissão. De momento não está a aceitar novas encomendas, embora admita vender os seus trabalhos por «preços justos».
Um desenho original pode ser adquirido por valores que rondam os 200 euros. O objetivo a curto prazo para além de concluir o seu estúdio em Olhão, é apostar na reprodução de prints – cópias o mais fiéis possível – dos seus trabalhos originais.