Fomos à procura de Nair Fernandes, a campeã nacional de boxe, na categoria sénior, menos de 48 quilos. Quando a maior parte dos portimonenses desconhece que se pratica a modalidade na cidade do Arade, um título nacional torna-se uma autêntica surpresa.
E mais surpresos ficámos com a nossa medalhada. Encontrámos uma jovem que aparenta menos idade do que os seus 19 anos, com um olhar meigo e feliz, sem a carga muscular que, inconscientemente, se atribui a alguém que pratica luta em competição. À primeira vista, apresentou-nos uma fragilidade que desapareceu de imediato, mal calçou as luvas e subiu ao ringue.
Nair, porquê o boxe?
Nair Fernandes – Faço boxe a sério, há três anos. Mas desde pequena que sei o básico, porque o meu pai é treinador. Já pratiquei outras modalidades, como a ginástica rítmica e a acrobática, mas este é o meu desporto, tem mais a ver comigo.
É nervosa e o usa o boxe para descarregar?
Pelo contrário. Sou muito calma.
Tem competido muito, nestes últimos três anos?
Nem por isso. Fiz o meu primeiro combate em 2013 e, recentemente, entrei nos campeonatos regional e nacional, vencendo ambos, na minha categoria.
Que portas se abrem com o título? Um lugar na seleção nacional?
Não sei bem como isso é, mas tenho de fazer mais provas para combater internacionalmente. É necessário competir com outros atletas para o apuramento.
E vai continuar na mesma categoria, ou vai arranjar peso para subir de escalão?
Vou tentar ganhar peso, para passar para a categoria seguinte.
O boxe é uma modalidade olímpica. Está nos seus horizontes ir aos Jogos Olímpicos, no futuro?
Gostava, mas tenho de trabalhar muito para isso.
Como são escalonados os treinos de uma lutadora?
Três vezes por semana, duas horas por sessão. Mas o meu pai consegue dar-me treinos extra.
Mas vocês não treinam só a dar murros, pois não?
Não! Treinamos muita técnica, pernas, braços, saber aplicar os golpes, saber defender. É necessário muita condição física, muita resistência.
Fazem muito ginásio?
Sim, mas não levantamento de pesos. Fazemos flexões e abdominais, pois necessitamos de muita agilidade e flexibilidade. E também fazemos «pairing», que são combatezinhos uns contra os outros. E usamos os sacos para criar força e velocidade nos murros. É necessário muita velocidade e reflexos muito rápidos.
Conseguem adivinhar o momento em que o adversário vai bater?
Não é bem adivinhar. Mas, ao primeiro movimento, já sabemos o que é que vai sair dali.
Olham para as mãos do adversário, ou concentram-se nos olhos, chamados «espelho da alma»?
É sempre olhos nos olhos, que dá para ver tudo e nos dá a fração de segundo necessária para aparar o golpe e contra-atacar.
Há muitas mulheres a praticar boxe, em Portugal?
Sim, há. O boxe profissional, que vemos na televisão, é dominado pelos homens. Mas o boxe olímpico tem muitas mulheres praticantes.
Faz-me confusão ver mulheres a praticar boxe, porque o peito é uma zona muito sensível…?
Temos de usar proteção em material plástico, que é leve e não aleija. Tal como a proteção dos dentes, que também é obrigatória.
Escola de Boxe de Portimão
A Escola de Boxe de Portimão é uma associação sem fins lucrativos, com três anos de existência, que não depende de qualquer subsídio para viver. Há dois anos que possui instalações próprias, nos Três Bicos, que partilha com outras associações ligadas aos desportos de combate. Cerca de 200 praticantes usam as instalações, nas várias modalidades, dos quais trinta e cinco, com idades compreendidas entre os 6 e os 40 anos, se dedicam ao boxe.
Carlos Reis e Luís Fernandes (pai da Nair Fernandes), foram os grandes obreiros desta associação e são ambos treinadores e grandes amantes da modalidade. O primeiro, que também é o presidente da instituição, dedica-se ao ensino do boxe aos mais pequenos; o segundo é responsável pelos atletas de competição.
Ambos fizeram boxe amador, treinando juntos, durante muitos anos. O Luís Fernandes chegou a promover galas de boxes em Portimão, que terminaram por falta de condições para o fazer. Este projeto nasceu da necessidade de fazerem as coisas com um projeto delineado.
Segundo Carlos Reis, «o projeto inicial era só formação, para crianças dos 6 aos 12 anos, para serem ou não futuros atletas, mas para lhes darmos uma base. Achámos que deveríamos fazer as coisas de modo legal e assim nasceu a Escola de Boxe».
No ano passado, a Escola de Boxe de Portimão já teve dois atletas masculinos a arrecadar os títulos de campeões nacionais, em cadetes e juvenis. Com um título em seniores femininos, no corrente ano, podemos dizer que está no caminho certo para levar o nome de Portimão a outras paragens.
Carlos Reis considera que a gestão do espaço e dos horários para acomodar as diversas modalidades no Centro é o aspeto mais difícil, mas têm conseguido resolver a situação e conviver em harmonia.
O «barlavento» deseja os maiores êxitos a esta associação, que tem passado quase despercebida numa sociedade onde apenas o futebol é cabeça de cartaz, com ou sem títulos arrecadados.