Conceito inovador usa aguardente de medronho de elevada qualidade para criar uma bebida leve, frutada e gaseificada. Projeto avança com o apoio de 647 mil euros do Programa Regional ALGARVE 2030.
A «Mood», bebida ligeira, refrescante e com apenas 5% de álcool, é a marca para uma nova utilização da aguardente de medronho e também do próprio fruto fresco.
O produto, criado e desenvolvido pela startup Medronho in a Bottle – Desenvolvimento, Produção e Comércio de Bebidas, Unipessoal, Lda., empresa incubada no CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da Universidade do Algarve (UAlg), no campus de Gambelas, em Faro, apesar da juventude, já é um caso de sucesso, com boa aceitação por parte de consumidores e cadeias de distribuição.
Tudo começou em Monte Gatão, na zona de Mértola, onde Ludovic Gago, formado em Engenharia Eletrotécnica na UAlg, avançou com uma plantação de olival e outra de medronheiros, no âmbito de um projeto de jovem agricultor, iniciado em 2013. A produção consolidou-se e surgiu a ideia, recorda.
«No olival, pensámos logo em dar escoamento para a produção de azeite e azeitona. Com o medronho, ao fim de três a quatro anos da produção se enraizar, começámos a pensar em algo diferente. Gostava de fazer algo inovador, que não existisse no mercado. Pensei: não consumo aguardente nem bebidas alcoólicas muito fortes. Portanto, porque não fazer uma bebida com baixo teor alcoólico a partir do medronho?», recorda.
Foi esta ideia que levou Ludovic, ainda estudante, a procurar o CRIA, já em plena pandemia de COVID-19. «Liguei. Passado uma hora falei com o coordenador Hugo Barros. Desafiou-me a participar no Concurso Ideias em Caixa, pois via muito potencial: um produto fácil de escalar, com prazos de validade alargados para chegar a outros mercados».
Participou e ganhou uma menção honrosa. O projeto também foi distinguido na 12.ª edição do Prémio Empreendedorismo e Inovação do Crédito Agrícola, em 2021. O maior prémio, contudo, foi a consultadoria necessária para desenvolver a bebida.
Gago procurou a professora Ludovina Rodrigues Galego, especialista em aguardente de medronho, «que passou muitos anos a estudar como é que se deve fazer. Sugeriu montar uma equipa multidisciplinar, na qual cada perito daria o seu contributo em cada área da sua especialidade. Houve uma parte sensorial e outra dedicada à produção e à qualidade».
Uma bebida com ciência
«Eu tinha uma ideia daquilo que imaginava: pegar na aguardente, pegar no fruto do medronho, misturar os dois, reduzir o teor alcoólico e obter uma bebida final. O objetivo era atingir entre 4 a 8% de teor alcoólico, no máximo. Os sabores mudavam drasticamente, para muito pior ou para muito melhor, conforme o teor de álcool. Foi preciso encontrar um equilíbrio», recorda, até por motivos comerciais, para que o Imposto Especial de Consumo não inflacionasse o preço de venda ao consumidor final.
E houve outro pormenor que ditou a diferença: «O nosso medronho, por exemplo, é utilizado para a polpa, mas comprávamos uma aguardente de medronho normal, desde que tivesse as características que a professora Ludovina indicava e que não podia ultrapassar determinada quantidade de metanol».
Não se mostrou, contudo, uma opção fácil. «Porque há quem faça medronho e não se importe muito com esses parâmetros. São mais tradicionais e acham que fazem melhor do que a ciência lhes pode ensinar». Ludovic acabou por encontrar um parceiro em Martim Longo, no concelho de Alcoutim, cuja destilaria segue à risca as especificações definidas pela UAlg.
Sobre a gama, «pensámos que ter apenas uma referência, um único sabor, podia ser limitativo em termos de papilas gustativas das pessoas. Então, durante o desenvolvimento, fizemos experiências com frutos vermelhos (amora, framboesa, morango) e com laranja. Testámos várias frutas. Usámos laranja, limão, lima e até tangerina», recorda.
Nasceu, assim, a «Mood», uma bebida suave e sem conservantes, disponível em quatro sabores: Original (sumo de medronho), Laranja, Limão e Frutos Vermelhos (mistura 50-50 de morango e framboesa). «Compramos tudo localmente. Só não compramos local quando não há outra hipótese. A laranja e o limão vêm da Cacial».
No início, compravam sumos já preparados, mas «não se mostrou adequado e tivemos algumas queixas. Começámos a comprar toda a fruta e a fazer todo o processo».
À conquista do retalho
A produção ronda hoje as três mil garrafas por mês. A entrada nos supermercados do Pingo Doce no Algarve foi um marco: «A Jerónimo Martins acreditou em nós. É a nossa primeira grande cadeia de retalho. O comprador regional veio falar connosco e acordou-se o preço».
Mais recentemente, a «Mood» está presente no portfólio do Food Lab do Continente, espaço para produtos inovadores em 12 lojas, entre Lisboa e Porto. A aceitação? «Está a correr muito bem. Todas as semanas temos encomendas», diz Ludovic Gago.
Por norma, a «Mood» está exposta «nas arcas de frio, junto às bebidas frescas prontas. Ou então, está junto aos produtos regionais», como no Pingo Doce.
Apesar de a bebida estar disponível em lata e em garrafa, a preferência dos consumidores tende a recair sobre o vidro. «Acho que temos a ideia de que o vidro conserva melhor. Talvez seja pela transparência», opina.
Entrar na grande distribuição «não é difícil, mas é moroso. Há que passar por toda uma hierarquia até chegar ao gestor de categoria. Pedem-nos apresentações, fichas técnicas, querem saber como é que se desenvolveu, quem são os engenheiros alimentares por detrás e todos os detalhes. E demoram algum tempo a decidir. Menos de seis meses não se consegue», resume.
Há também contactos no canal Horeca e interesse por parte de «bares e lounges na Quinta do Lago e Vale do Lobo».

Importância dos fundos europeus
O próximo passo para Ludovic Gago é aumentar a capacidade produtiva, consolidar a equipa e explorar novos canais.
«A importância deste fundo é gigante. Uma empresa como a nossa jamais conseguia montar uma unidade de produção e desenvolvimento sem esta ajuda. Por exemplo, vamos ter uma certificação, o Food Safety System Certification (FSSC) 22000, sem a qual não podemos vender para hipermercados europeus. Sem isto, não há um hipermercado alemão ou inglês que ponha o nosso produto à venda. Custa entre 20 e 30 mil euros. Isso vem contemplado na candidatura, além dos equipamentos que custam acima de 300 mil euros. Portanto, é muito difícil uma startup ter capital para tudo o que é necessário para trabalhar de acordo com todas as regras», sublinha.
Esta operação tem um custo total de 863.928 euros, cofinanciado a 75% por fundos europeus do Programa Regional ALGARVE 2030, o que equivale a cerca de 647 mil euros.
A verba permite à jovem startup investir em equipamentos, certificações, marketing, recursos humanos e preparação para exportação.
O desafio na calha é ter a nova unidade de produção, na Rua Antero de Quental, em Faro, pronta até janeiro próximo.
Exportação e novos mercados
Exportar a «Mood» para novos destinos também está no radar do empresário. «Temos uma proposta para ir para os Estados Unidos da América. Mas com a atual questão das tarifas, está complicado».
A oportunidade surgiu via Instagram, através de uma distribuidora de vinhos de origem portuguesa que importa vinhos e licorosos. Já foram pedidas amostras e, caso avance, a bebida algarvia terá de seguir por via marítima, por causa do teor alcoólico.
Mais sabores e menos preconceito
Outro aspeto peculiar é que a sazonalidade parece influenciar o consumo. «Cerca de 80% das vendas acontecem no verão», uma tendência que a marca quer contrariar. «Estamos a pensar fazer um sabor mais direcionado para o inverno, provavelmente com chocolate», um toque reconfortante com o calor do medronho.
Claro, a boa onda comercial do verão não será desaproveitada. A empresa está a investir em I&D com o objetivo de expandir o portfólio. «Temos muitos pedidos para fazer um sabor de melancia e também de maçã, esta última devido às cidras», revela.
Sem concorrência direta, Ludovic admite que a originalidade da «Mood» pode ser obstáculo. «Pode ser tão inovador que o cliente diz que o medronho tem de ser bebido puro. Ou seja, pode haver algum preconceito. Mas mesmo entre os mais conservadores, há quem goste de experimentar novidades», conclui.

