Há um ano, a artista holandesa Meinke Flesseman abriu as portas da sua galeria de arte em Portimão. Hoje é muito mais do que isso.
A artista holandesa, que cresceu no Algarve, Meinke Flesseman está a celebrar um ano da abertura da sua galeria de arte, em Portimão. Num mês em que os motivos para festejar são vários, a pintora tem mais um e convida todos a fazê-lo do seu lado.
Esta sexta-feira, dia 15 de dezembro, Meinke apresenta a primeira exposição coletiva, às 17h00, o que acredita ser um ponto de partida para esta nova vertente que pretende explorar daqui em diante. É uma mulher de vários ofícios, desde a cerâmica à joalharia, passando pela escultura e objetos decorativos, em barro ou gesso.
Após passar a sua infância na região algarvia, para onde imigrou com os pais quando tinha apenas dois anos, aos 14, Meinke regressou aos Países Baixos de onde, três anos mais tarde, partiu para Inglaterra, país onde esteve também apenas dois anos.
Dos 19 aos 21 anos, seguiu-se uma experiência a viajar pela Europa de mochila às costas. O seu lado aventureiro fez com que as mudanças não ficassem por aqui e foi para Itália, onde estudou joalharia, contudo sentiu «uma limitação na criatividade» e decidiu ter aulas de pintura.
Quando regressou a Portugal, viveu um ano em Lisboa, porém acabou por voltar ao Algarve, onde tomou a decisão de ir viver para Moscovo, capital russa. Nos anos 90, fazer joalharia na Rússia «era complicado porque não havia acesso a materiais» por isso, inscreveu-se na Escola de Belas Artes para aprender mais sobre pintura.
Com o colapso da União Soviética, a escola onde estudava foi também afetada. Viviam-se momentos difíceis, mas a criatividade nunca ficou de lado. Em entrevista ao barlavento, a artista recordou como a fome apertava no país, porém existia uma partilha entre o povo, tanto de alimentos como de ideias e arte.
Ao voltar a Portugal, Meinke, descendente de uma família criativa, começou a pintar profissionalmente os 28 anos, altura em que residia novamente em Lagoa. Tinha os seus esboços, desenhos e pinturas, mas não olhava para a arte como um trabalho a tempo inteiro até que quando vendeu as primeiras obras a uma amiga em Moscovo e percebeu que talvez o seu caminho passasse por obras realistas.
Mais tarde, fez a sua primeira exposição, no Centro Cultural Convento de São José, em Lagoa, evento em que vendeu obras e recebeu encomendas. Foi fazendo o seu percurso quando, num momento de lazer, conheceu artistas que viviam na zona este do Algarve, o que a levou a, após 13 anos a residir em Lagoa, se mudásse para Olhão, onde esteve uma década.
Foi «uma decisão espontânea, senti que estava a precisar de mudar para um ambiente em que estivesse rodeada de mais artistas», esclareceu.
Acabou por regressar para perto da família, mas, desta vez, pretendia comprar casa em Portimão. Uma casa com um conceito distinto. Procurava um espaço onde pudesse tanto viver como mostrar o seu trabalho e assim, encontrou o local perfeito que remodelou completamente.
Colocou o receio de abrir uma galeria de parte e arriscou no projeto, o que resultou num «ano super desafiante» da sua vida, de preparação e crescimento. Inicialmente, não tinha exatamente definido tudo o que poderia fazer com o espaço.
«Não foi algo planeado», revelou ao explicar que as ideias foram florescendo e, agora, pretende que o lugar sirva também para acolher exposições temporárias, mas não só.
O edifício de dois andares, que funciona como galeria de arte no rés do chão, tem dois apartamentos encantadores no primeiro piso alugados, individualmente, para Alojamento Local. Decorados com quadros e artigos seus, que juntou com alguns que já lá estavam, ambos transmitem uma sensação de bem-estar e tranquilidade.
Um dos apartamentos dispõe de quatro quartos, com um terraço virado a norte e vista para o jardim casa, e outro de seis, em que duas suítes estão situadas no espaçoso terraço virado a sul. Os dois têm amplos espaços comuns e cozinhas totalmente equipadas, com tudo à disposição.
Portugueses, americanos e canadianos, já várias nacionalidades passaram por este espaço que transborda arte e deixa qualquer um com vontade de criar, sendo o local ideal tanto para relaxar como explorar pensamentos e possibilidades artísticas.
Ao longo do seu percurso, Meinke teve aulas de cerâmica no centro e sul do país, onde aprendeu diferentes técnicas, e de escultura em barro, no Algarve. Após diversas experiências e conhecimento adquirido, chegou aos trabalhos que hoje apresenta na sua Galeria de Arte, uma «combinação entre o abstrato e o figurativo».
A mãe é também artista e «uma pessoa muito criativa na forma como encara a vida». Quando se mudaram para Portugal vigorava o Estado Novo e, portanto, não existia liberdade de expressão através das artes, a criatividade era limitada. As restrições fizeram, no entanto, com que Meinke aprendesse que «quando não é possível comprar algo, inventa-se, improvisa-se».
Estas vivências, permitiram-na comparar as diferenças entre os países europeus que visitou quando viajou durante dois anos, e o que assistiu ao longo do tempo que passou em Itália e na Rússia.
«Enquanto viajava, tudo era simples, o consumismo era fácil, já em Moscovo não se podia comprar sequer uma bucha para fazer um buraco na parede e encontrar pão fresco era um milagre», contou.
A sua influência familiar, em conjunto com todas as suas experiências e, muitas vezes, a necessidade de improvisar para conseguir dar resposta às necessidades, resultaram na artista completa que Meinke é hoje.
A inspiração das suas obras é natural e espontânea, surge consoante as experiências que vive no seu quotidiano.
«Sou uma pessoa sensível e espontânea reajo ao ambiente à minha volta», notou. Claramente, é possível perceber, nas pinturas da artista, que gosta de animais, da natureza e aposta na simplicidade.
Cresceu numa quinta, rodeada de animais, mas são as cabras que mais a fascinam, razão pela qual surgem em diferentes quadros e peças de cerâmica. Quanto às pinturas de paisagens, foram «uma reação à pandemia», segundo a pintora que lembrou como a natureza foi a distração de muitos durante a propagação do coronavírus.
Ainda que prefira pintar sem restrições, é adepta de desafios o que já a tirou da sua zona de conforto com certas encomendas. Meinke passou da tela para um painel de azulejos, o que nunca tinha experimentado, embora essa mudança implicasse trabalhar com tinta e material diferente do que estava habituada. «Foi difícil, mas saiu muito bem», desvendou.
Apesar de ter progredido muito no último ano como fundadora da sua Galeria de Arte, este é apenas o começo. O espaço amplo, mas extremamente acolhedor, tem potencial para acolher mentes criativas, seja através de workshops, yoga, pintura com modelos vivos ou funcionar como espaço de retiro criativo e espera-se mais exposições coletivas temporárias. A panóplia de opções é tanta que a artista não podia estar mais animada.










