A Marmistoi investe 225 mil euros em tecnologia de Indústria 4.0, com apoio do ALGARVE 2030, para responder a projetos de elevada exigência técnica no setor da pedra natural.
Uma piscina feita de mármore verde da Índia, pensada para criar a sensação de água em movimento, tomará forma quando se juntar a um labirinto de pedras, trabalhadas uma a uma em ambos os lados, com tolerâncias mínimas e geometrias irregulares que exigem horas de maquinação intensiva e precisa.
É este o projeto que a Marmistoi tem em mãos para o início de 2026 e é descrito pelos responsáveis como o trabalho mais complexo que a empresa alguma vez aceitou executar.
Apesar de ainda estar em preparação, esta obra concentra um conjunto de exigências técnicas que são o melhor retrato do posicionamento de mercado desta empresa algarvia, que emprega 12 pessoas.
«Eu gosto de trabalhar com coisas exclusivas», afirma o gerente José Romba, que também tem em mãos «um grande trabalho personalizado para um hotel, com 500 metros quadrados» de quartzito do Brasil.
«O nosso lema é a qualidade, que se distingue nos acabamentos, na matéria-prima que se utiliza, na forma como é transformada e na prontidão da entrega», diz, sublinhando que não concorre com as congéneres pelo preço mais baixo.
«Não usamos restos. Cada bloco é para uma obra», afirma, para evitar variações de cor e textura no resultado das empreitadas.
Este nível de entrega consegue-se graças ao elevado grau de automatização das linhas de produção na fábrica situada no Coiro da Burra, em Estoi, concelho de Faro.
«Temos três máquinas de corte com controlo numérico computadorizado (CNC), todas elas modelos recentes. Todos os trabalhos personalizados que fazemos são desenhados e preparados em CAD», descreve Pedro Romba.
Por vezes, contudo, é preciso fazer o inverso e ligar a realidade ao desenho digital para lidar com a imperfeição do que está efetivamente construído, por exemplo, em escadas que saem fora do padrão habitual ou em cozinhas fora de esquadria.
Pedro Romba explica que os problemas surgem da diferença entre o projeto e a execução. «O arquiteto faz o projeto, mas na fase de execução da obra a realidade das medidas é diferente», aponta.
Para responder, a empresa passou a realizar levantamentos topográficos diretamente em obra. Os pontos reais das paredes, dos arcos e das superfícies são recolhidos no local e tratados em ambiente digital. Uma solução que permite avaliar o que pode ser corrigido e o que tem de ser absorvido pela própria peça.
«Há situações em que as pedras não conseguem fazer uma parede redonda ou respeitar um arco perfeito. Depois de medir, sabemos qual é a margem de tolerância e tentamos, ao máximo, aproximar o resultado do que o cliente quer».
A informação é depois enviada para as máquinas CNC, que cortam cada elemento já adaptado à realidade do espaço. «É uma tecnologia avançada para o setor. Ainda poucas empresas a têm», garante.
Importância dos fundos europeus para a vanguarda técnica
Mas nem sempre foi assim. Em 2020, quando Pedro Romba concluiu a formação superior em Engenharia Mecânica e Gestão e Manutenção Industrial, reteve o que aprendeu nas cadeiras relacionadas com o fabrico assistido por computador.
«Na altura, os nossos colegas das zonas Centro e Norte do país começaram a investir muito em máquinas de controlo numérico. Insisti com o meu pai e fiz muita pressão para darmos um salto tecnológico, muito além das máquinas convencionais», recorda.
E o plano acabou por avançar, com capital próprio, numa fase em que o Algarve ainda não dispunha de linhas de apoio dirigidas à indústria transformadora.
O inesperado advento da COVID-19, que imobilizou o turismo, revelou essa grande falha. Percebeu-se que o quadro comunitário seguinte teria de ser mais diversificado. E a verdade é que, pouco depois, o negócio começou a ganhar fôlego.
«Vimos que o mercado estava a aumentar e sentimos necessidade de comprar mais máquinas. Os fundos europeus são muito importantes para as empresas poderem dar um passo em frente. E há anos que isso acontece noutras zonas do país. Por isso, decidimos procurar apoios», explica, para atenuar esta desvantagem estrutural.
Com efeito, a Marmistoi viu aprovada, em abril de 2024, uma candidatura ao Programa Regional ALGARVE 2030, destinada à modernização da produção com equipamentos de Indústria 4.0, à melhoria dos processos internos, ao reforço da eficiência energética e à valorização comercial da empresa.
O custo total da operação ascende a 225.588,10 euros, integralmente elegível, com um apoio FEDER de 112.794,05 euros, correspondente a uma taxa de cofinanciamento de 50 por cento.
«Neste momento, contamos com muito mais capacidade de resposta instalada. Falta de clientes não temos. E não queremos ficar por aqui. Vamos tentar ir ainda mais além», garante o empresário.
Técnica do «livro aberto»
Outro problema recorrente no trabalho com pedra natural é a dificuldade do cliente em antecipar o resultado. Para responder a isso, a Marmistoi passou a utilizar ferramentas digitais de visualização que permitem simular padrões e desmultiplicações a partir de uma chapa já cortada.
«As pedras fazem coisas lindas e únicas. Quando as cortamos, respeitamos a simetria», diz o empresário, que tem dois enormes padrões no escritório, como se fossem molduras vivas da aptidão e capacidade técnica da empresa.
Pedro Romba recorda que, durante anos, esse processo era feito de forma manual, abrindo placas no chão e testando combinações. «Depois começámos a usar software de edição de imagem para fazer os espelhamentos. Hoje usamos uma aplicação que nos permite fotografar a chapa e mostrar ao cliente como fica em duas, quatro ou oito placas».
É a chamada técnica do «livro aberto», em que se respeita e aproveita o que a natureza gravou na pedra para criar padrões únicos.
Para áreas relativamente pequenas, pode ser necessário consumir várias vezes mais material do que a área final aplicada. «Para fazer uma parede de oito metros quadrados, gastam-se 40», refere José Romba.
Pedra algarvia? «sim, senhor!»
Romba é dos poucos no setor que assume o gosto pela pedra da região, como o calcário do Escarpão de Albufeira e a brecha algarvia, adquiridas em bloco diretamente nas pedreiras e transformadas integralmente nas suas instalações.
«Sim, senhor. Os meus colegas não gostam porque é uma pedra que tem muito desperdício. Só se aproveita cerca de 60%. O resto perde-se» e, além disso, é necessário equipamento adequado, admite o empresário.
Ainda assim, defende que se trata de uma pedra com características próprias, muito procurada para cantarias, janelas e trabalhos de restauro ou obras rústicas.
Pedro Romba, engenheiro e filho do empresário, explica que existem muitas cantarias centenárias com calcário de Escarpão e pedra de Bordeira por todo o Algarve, ambas partilham de características físico-mecânicas muito idênticas.
Acrescenta ainda que a procura vem sobretudo de clientes estrangeiros que valorizam a autenticidade. «O público holandês gosta muito de ter os materiais da região, quando possível», diz, associando esse interesse à valorização da identidade local.
Menos popular é o grés de Silves, que é extraído em pequenas quantidades numa pedreira familiar de exploração própria. O sienito de Monchique tem boa quantidade de exploração, com a sua serragem e polimento feitos em Vigo pela empresa detentora da pedreira.
O território como limite operacional
O Algarve absorve a totalidade da atividade da empresa. Embora já tenha exportado trabalho para Inglaterra e Espanha, Romba não procura essa via. E justifica: «Estamos numa ponta de Portugal. Se quisermos carregar um contentor para o estrangeiro, temos de ir despachar a Sines, que é mais perto. Existem cais em Faro e Portimão, mas não conseguem operar navios para este tipo de carga. O custo da logística dos meus concorrentes é três vezes menor do que o nosso», afirma, justificando a opção por apostar no elevado valor técnico e na personalização da produção.
Com as contas em dia e elevada capacidade produtiva instalada, a empresa tem realizado trabalhos pontuais para municípios da região, incluindo todo o tipo de mobiliário urbano. Alcoutim, Olhão e Portimão, este último com uma encomenda destinada a atualizar a toponímia que acompanha a expansão da cidade, são alguns dos clientes em carteira.
Longevidade comercial graças a um gestor autodidata
A carreira de José Romba soma 44 anos. Começou a trabalhar na empresa que hoje é sua aos 16 anos, vindo do nordeste algarvio. Trabalhou 23 anos por conta de outrem até a adquirir, em 2004. A sua capacidade de gestão e experiência foram postas à prova pouco depois, com os efeitos da crise a afetarem profundamente todo o setor da construção civil.
«Todos os que passaram por isso sabem o que aconteceu. Não foi fácil. Conseguiu-se resolver e ultrapassar as dificuldades. 2012 foi o pior ano. A partir daí, a empresa tem sempre crescido e, neste momento, está sólida», afirma.
O maior elogio vem do filho: «O meu pai é um grande gestor. É uma pessoa que liga muito a relatórios financeiros, tem curiosidade sobre matemática financeira. É uma pessoa disciplinada, muito atenta nessa vertente e nunca gostou muito de esticar a perna mais do que as calças. Hoje, a nossa empresa tem um bom histórico financeiro», afirma Pedro Romba.
É essa prudência, aliada à capacidade técnica e à aposta na diferenciação, que permite à Marmistoi continuar a aceitar projetos que outros recusam.











