«Caravela», de Leonor Cabral, estreia esta noite, às 21h30, no Centro de artes Performativas do Algarve (CAPa), em Faro.
Os fenómenos do tempo e do binómio previsão/acontecimento são um tema recente da carreira da atriz Leonor Cabral e a nova criação «Caravela» segue por essa rota.
É um solo que parte da biologia marinha para fazer escala nos lugares-comuns do imaginário coletivo português com destino a um sufocante, mas verossímil e norteado pela ciência, fim de mundo ambiental.
A atriz foi desafiada pelo Festival Encontros do Devir «a pensar, através da minha profissão que é o teatro, este assunto tão grande que é crise climática, a crise ecológica e a crise humanitária. Desafiou-me a trazer uma proposta e eu apresentei-lhe a Caravela», neste caso, a Caravela-Portuguesa (Physalia physalis).
Numa encenação quase despida de adereços, a protagonista contorce-se de dor. São as reações do contacto da pele com o animal gelatinoso, numa praia do futuro, em que a população de Physalia physalis está fora de controlo, impulsionada pelo aquecimento global, o mesmo que extingue o seu principal predador, a tartaruga-marinha.
«Foi muito bom poder pensar sobre todas estas questões e também, como é que eu poderia de alguma maneira, sintetizar as minhas inquietações, que são muitas e têm múltiplas manifestações», explicou Leonor Cabral, durante uma apresentação a duas turmas do ensino secundário de Faro.
«Cresci nos Açores onde tal como aqui no Algarve, as pessoas vivem o mar de uma maneira muito especial. Há quase uma ligação nevrálgica do mar à nossa vida, às nossas escolhas. Para mim é sempre um sítio de conforto e ao mesmo tempo de medo. Incomensurável, mas que por alguma razão que não domino, sempre me atraiu muito, porque tanto pode ser castigador como pode ser carinhoso e acolhedor», contextualizou.
«Então, pensei neste ser. Fiquei muito surpreendida quando descobri que há este conceito de colónia aplicado aos animais, que são compostos por vários organismos diferentes. E comecei a pensar nas intersecções da ciência com a História, com o nosso passado, com a nossa maneira de agir. E como é que a nossa História, aquela da qual nós estamos conscientes, e também aquela de que não estamos conscientes, como é que isso afeta o nosso caminho? Historicamente estamos ligados ao mar, e isso cria uma espécie de identidade portuguesa que influencia muito a maneira tomamos as nossas decisões», descreveu.
José Laginha, diretor artístico do festival e da Associação DeVIR/CAPa notou o «desconforto» do monólogo. «A Leonor fez algo que por vezes se evita, que é esta capacidade de confrontar de uma forma dura, falar daquilo que poderá ser, ou não, o que vem aí. E isto foi uma opção».
A atriz concorda. «Inspirei-me muito nalguns discursos da Greta Thunberg. Foi uma grande referência neste trabalho. É uma pessoa que admiro porque é muito jovem e tem a capacidade de comunicar de uma maneira muito dura, quase visceral, embora só utilize as palavras».
Também na inspiração se esbatem fronteiras: «utilizei uma referência da literatura, que é o Capitão Nemo», uma personagem fictícia que aparece em duas novelas escritas de Júlio Verne, «Vinte Mil Léguas Submarinas» e «A Ilha Misteriosa».
Nemo, segundo Cabral, é «um homem que vai viver para um submarino. Acaba por odiar os homens em terra e só amar o mar. Portanto, queria esta protagonista muito confrontacional, baseada nestas duas figuras, da realidade e da ficção (científica)», um pouco como o próprio texto da peça.
«E queria também criar uma estrutura de ficcional futurista, sobre o futuro que está perdido. Misturei estes ingredientes, estas referências, que mexem comigo».
E, apesar de ser um monólogo, também mexe quem assiste. «Às vezes fico com vontade de sair da partitura textual e de encetar uma outra conversa, porque me parece que as pessoas estão a pensar noutras coisas que eu que não estava à espera. Interessa-me muito essa relação com o público, muito direta, entre ação, reação, ação, consequência. E que o espetáculo possa ter uma dinâmica flutuante com a plateia».
«Caravela» é uma das 13 encomendas de criação da programação da nona edição do festival Encontros do DeVIR.
«É para isso que serve a arte. Convidar criadores para pensar de uma outra forma, aquilo que nós às vezes ou nem sequer conhecemos, ou pensamos que achamos que conhecemos. Esse é o grande desafio deste festival, é trazer alguma informação de uma outra maneira. Neste caso, com base em informação científica, naquilo que está estudado, imaginar o que pode vir a acontecer. Construir novas imagens, novos pensamentos, outras possibilidades e alternativas», concluiu José Laginha.
O espetáculo estreia esta noite, sábado, dia 21 de outubro, às 21h30 no Centro de artes Performativas do Algarve (CAPa), em Faro.
Antes, serão exibidos trechos dos documentários « » (Espanha) e « » (Portugal) sobre a realidade ambiental e costeira do litoral de Cádis e do Algarve.
Será também apresentado um texto original de André e. Teodósio, lido em voz off com ilustrações de Afonso Martins.
«Caravela» tem criação e interpretação de Leonor Cabral, conta com o apoio à criação de João Tuna, desenho de Luz de Zé Rui, vídeo de Aaron Ansarov, caracterização de Júlio Alves e produção: da Ciclone Associação Cultural. A atriz agradece a Adelino Canário e Ana Margarida Amaral (CCMAR), Antonina dos Santos (GelAvista), Raquel Rodrigues, TNSJ e TUP.
Os bilhetes custam seis euros e podem ser reservados por contacto telefónico (289 828 784 | 968 478 217).


