Márcia Neto tem diferentes peças em prata e ouro, inspiradas na natureza, à venda no centro de Lagos. Uma paixão pela joalharia que se transformou em profissão.
As artes sempre fizeram parte da sua vida, tanto na infância e adolescência como ao longo do seu percurso académico e profissional. Márcia Neto cresceu em Alcobaça, descendente de uma família ligada à cerâmica e pintura e, desde cedo, foi desenvolvendo estes talentos.
Vendeu os seus primeiros quadros na escola secundária, mas rapidamente percebeu que gostava mais de «trabalhar a tridimensionalidade e criar algo através da matéria».
Decidiu estudar Escultura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e, no último ano, fazer Erasmus na Universidade Politécnica de Valência, onde explorou diferentes máquinas e técnicas e viu crescer o seu gosto por materiais, como o ferro e o metal.
Nas férias de verão ao longo do curso, vinha para o Algarve vender as suas peças na rua devido ao conselho de uma colega, natural de Portimão, que sugeriu Lagos devido à diversidade cultural de residentes e turistas, o que a conquistou e fez com que regressasse ano após ano.
Não se separou de imediato da capital do país. O seu sonho de ser professora levou-a a integrar o Mestrado de Ensino de Artes e a dar aulas numa escola pública, em Lisboa, a alunos do 5.º ao 7.º ano.
Mais tarde, passou também por uma instituição privada no Estoril, mas não deixou a sua formação como artesã de lado. Em simultâneo, realizou um curso de joalharia, com o intuito de construir marionetas, que acabou por se desvanecer, sobreposto pela magia da criação de peças.
O interesse por Lagos aliado à paixão de criar joias, com recurso apenas a ouro e prata, fizeram com que Márcia se fosse estabelecendo cada vez mais na cidade algarvia.
No início, tinha apenas uma carrinha onde criava as suas peças, mas percebeu que necessitava de uma oficina para produzir. Passou por diferentes espaços até que começou a fazê-lo na loja onde hoje tem lugar a Márcia Neto Jewellery.
«Quando comecei a vender os meus artigos estavam apenas sob panos no chão, depois passei para uma mesa mais alta e hoje tenho a minha própria loja,» conta, em entrevista ao barlavento.
Ao recordar a relação próxima que desenvolveu com lojistas e comerciantes durante os anos, expressou também a felicidade de vender na rua pela oportunidade de experienciar a moda e essência das pessoas num ambiente natural e, muitas vezes, desprovido de preocupações.
A sua ideia inicial era apenas utilizar este espaço para criar e produzir, enquanto continuava a vender as suas peças na Praça Gil Eanes, em Lagos. «Nunca tive o desejo de ter uma loja física,» confessou ao notar que começou a utilizar o espaço em 2020, mas apenas dois anos mais tarde é que a Márcia Neto Jewellery abriu ao público.
Assim que se entra, a inspiração no mar e natureza é notória assim como a simplicidade dos artigos que nos transportam, num segundo, para a praia. O estilo minimalista faz com que os objetos se mantenham extremamente fiéis à realidade e a dedicação de Márcia confere-lhes um toque único e especial.
«Para mim cada artigo de joalharia é uma escultura. Ainda que cada joia possa servir de adorno e ter também uma vertente comercial, não deixa de ser uma peça escultórica,» explica.
Foi investido na sua formação e fez vários cursos para melhorar a sua técnica, desde cravação de pedras a fundição.
«É essencial conseguir bons moldes para alcançar o máximo de realismo, que é o que realmente me interessa. Tento ao máximo não retirar os pormenores do objeto,» destaca.
As coleções de Márcia Neto são exatamente como se tivéssemos recolhido um conjunto de conchas, estrelas ou ouriços-do-mar diretamente do seu habitat natural, já sem vida.
«Tento não fazer algo rebuscado, mas simples e o mais fiel à realidade possível para que a peça viva por si através de uma representação natural,» sublinha, ao refletir sobre o simbolismo que cada joia tem.
A ideia de utilizar conchas surgiu num passeio pela praia com os dois filhos, o que fez Márcia perceber que não só são elementos marinhos como estão também repletos de diversas memórias.
Ainda que dê «liberdade a cada peça para transmitir qualquer sentimento» e assumir tanto uma função de adorno como de decoração ou recordação, admite que todas têm um significado pessoal, mas, mais ainda as alianças, «um pedido que nunca recusa,» constatou.
Além de fazer encomendas personalizadas, a joalheira disponibiliza-se ainda a acompanhar os clientes na criação dos seus próprios anéis e não só. O amor por crianças e o carinho por lecionar levou-a a receber alunos do ensino básico no seu espaço para que possam aprender mais sobre esta que era uma profissão ancestral.
Num mundo de inúmeras possibilidades, as coleções de Márcia prometem continuar a surpreender e quem sabe até não fique apenas pelas joias. As saudades da escultura e da cerâmica poderão fazer com que o seu caminho volte a passar por aí e traga algumas novidades.





