Um figura frágil, feita casca de bananeira, evoca Amador Vieira, protagonista de uma revolta contra o sistema colonial de São Tomé e Príncipe, em 1595. Foi preso, executado e esquartejado. Hoje, a escultura do «Rei Amador», da autoria do artista são-tomense Eduardo Malé Fernandes, recebe os visitantes do novo Núcleo Museológico Rota da Escravatura, inaugurado na tarde de segunda-feira, 6 de junho, na zona histórica de Lagos, no edifício conhecido por «Mercado de Escravos». Embora na realidade, o espaço nada tenha tido a ver com este comércio.
«Este foi o primeiro passo de uma longa caminhada de responsabilidade histórica que não termina aqui. Pretendemos dar continuidade a este tema, estabelecendo diálogo com outras comunidades unidas por este legado histórico. Cabe-nos a todos a responsabilidade de refletir a evolução da escravatura nos tempos atuais, fenómeno que, embora com diferente roupagem, continua a existir, pondo em causa os mais fundamentais direitos humanos », disse Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal de Lagos, no discurso de inauguração.
«Foi essa pesada responsabilidade que a Câmara assumiu, ao projetar um núcleo museológico que desse visibilidade a uma história antiga e triste: a nossa participação, durante séculos, no tráfico de seres humanos», sublinhou.
Filipe de Castro Mendes, ministro da Cultura que se deslocou a Lagos para esta inauguração, reconheceu que «todo o monumento de civilização é ao mesmo tempo um monumento de barbárie. Estamos aqui a criar um lugar de memória», referiu.
Este novo equipamento assinala «um processo de dever histórico ao qual Portugal já se tinha veiculado ao subscrever a criação da Rota dos Escravos no âmbito da UNESCO. O país partilha assim esta memória que levou milhões de africanos a um destino terrível», «por este meio absolutamente condenável que foi o tráfico de seres humanos», disse Filipe de Castro Mendes.
O governante agradeceu ainda o apoio do Exército Português por este ter cedido o edifício, em 2010 e, mais tarde, em 2012, tê-lo colocado ao dispor do município de Lagos.
Na verdade, o projeto remonta ao mandato do anterior autarca, Júlio Barroso. Joaquina Matos era então vereadora da cultura. «Na sequência das escavações de um parque de estacionamento, encontrámos 158 esqueletos», no início de 2009. «Foi um achado muito importante. As ossadas estão hoje à guarda da Universidade de Coimbra, para análise. Vão dar-nos uma série de informações para se determinar as zonas de África de onde vieram», explicou aos jornalistas Joaquina Matos, embora sem traçar prazos para esta investigação estar concluída.
Em 2012, a Câmara assinou um protocolo de colaboração com o Centro de Estudos Sobre África e Desenvolvimento do ISEG com o objetivo de desenvolver, com a colaboração do Comité Português da UNESCO, um Museu ou um Centro Interpretativo do Tráfico de Escravos e um Memorial de Homenagem, no local onde se deu essa descoberta. A edil diz que o compromisso não está esquecido. «É um desafio para muitos anos, é uma ideia, um desígnio. Tudo dependerá dos apoios e do reconhecimento do tema», garantiu aos jornalistas.
A criação do espaço agora inaugurado significa um investimento de 426 mil euros, dos quais 237 mil foram co-financiados por fundos europeus, pelo PO Algarve 21 a 65 por cento, ficado a restante verba a cargo do município. A próxima obra será o Museu Municipal de Lagos que vai mudar para as antigas instalações da PSP, onde será instalado «o núcleo da arqueologia romana». Até domingo, a entrada é gratuita. O espaço renovado pode ser visitado de terça a domingo, das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30.
Realidade aumentada
No primeiro andar do novo polo museológico estão expostos um par de algemas em ferro do século XVII. Um manuscrito de 1582 regista as despesas com enterramentos da Santa Casa da Misericórdia de Lagos. Refere «uma escravinha de Francisco de Sousa por nome Maria» e de «um negro de João Afonso» tendo a Misericórdia recebido, por cada um deles, «de penhor uma colher». Não há esqueletos para ver, mas a museologia usa uma tecnologia inovadora no Algarve. A Realidade Aumentada (AR para Augmented Reality) consiste na integração de informação digital, como por exemplo, um vídeo, que se sobrepõe em tempo real ao que a pessoa está a ver, com a ajuda de um tablet ou telemóvel. Quer através da aplicação «Mercado de escravos», quer dos tablets disponíveis, o visitante tem ao dispor conteúdos interativos que complementam o que está à vista. Elena Moran, técnica superior de arqueologia da Câmara Municipal de Lagos, Rui Parreira, arqueólogo da Direção Regional da Cultura do Algarve, e Rui Loureiro, historiador especialista na área dos Descobrimentos, foram os responsáveis pelo desenvolvimento de conteúdos.
Escravos atirados para o lixo em Lagos
No início de janeiro de 2009, a arqueóloga Maria João Neves e a equipa da empresa «Dryas», depararam-se com uma descoberta inédita. Ao iniciarem a escavação do Parque de Estacionamento do Anel Verde, no Vale da Gafaria, encontram 158 esqueletos. «Identificámos não só os depósitos de uma vasta lixeira urbana, dos séculos XV e XVII, mas também esqueletos humanos no interior e em torno de um extenso boqueirão – uma depressão natural com cerca de seis metros de profundidade. As características morfológicas e métricas dos crânios dos indivíduos, e o material associado (claramente africano), permitiram-nos identificá-los como escravos africanos», explicou.
«O costume de depositar escravos em poços encontra-se documentado. Com efeito, D. Manuel I, de forma a evitar que os corpos dos escravos fossem abandonados nas ruas, onde eram arrastados e devorados por cães, mandou por decreto régio de 1515, fazer um poço, o mais fundo possível, no qual se lançassem os escravos. Assim, a explicação para o achado reside numa prática de descarte dos cadáveres dos indivíduos reduzidos à escravatura. Aqueles que não resistiam às condições extremamente difíceis de cativeiro eram assim inumados», esclareceu Maria João Neves.
Na lixeira, foram encontrados 56 esqueletos de indivíduos sub-adultos. «Não era conhecido qualquer registo arqueológico semelhante. Lagos propiciou uma oportunidade única para a documentação objetiva do tratamento após a morte, e antes desta, dos escravos africanos. Muitos dos indivíduos recuperados evidenciam lesões ósseas compatíveis com uma pobre saúde nutricional. Encontram-se também sinais de violência tanto direta como indireta – nomeadamente evidências de amarramento das mãos e dos pés». Foi identificada uma mulher que nos seus braços tinha depositado um esqueleto de um neonato. A prova de uma verdadeira relação de parentesco entre estes dois indivíduos (mãe e filho?) passará pela realização de estudos de ADN antigo. Alguns dos vestígios cerâmicos provenientes de oficinas espanholas e italianas evidenciam o vigor económico e comercial de Lagos durante o século XV e XVII.
Rio de Janeiro semelhante a Lagos
Júlio César Pereira é diretor do núcleo de pesquisa do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), nome de um cemitério idêntico ao de Lagos, descoberto no Rio de Janeiro. «É o único no Brasil e talvez na América, exclusivo para escravos recém-chegados, e também onde os corpos não eram sepultados. Eram deixados ao relento trazendo muitos problemas, além de ser um completo desrespeito à cultura africana». Criado em 1722, viveu a sua fase final entre 1824 e 1830, tendo recebido, durante estes anos, cerca de quatro mil corpos num espaço com menos de cem metros quadrados.
«O aumento da demanda verificada na primeira metade do século XIX, fez com que as condições de transporte e de acomodação piorassem grandemente, aumentando a mortalidade: 85 por cento dos escravos sepultados foram homens, 5 a 10 por cento crianças», a maioria vindos da África Central Atlântica. «Apesar de conhecer a cultura africana no que toca ao bem-morrer, a Igreja negligenciou-a, demonstrando um completo desrespeito. O racismo pode ser lido aí. O cemitério fechou em 1830 não por pressão da comunidade, mas por causa da eminência do fim do tráfico atlântico de escravos».
Política de bilheteira
Núcleo Museológico Rota da Escravatura
Local: Praça do Infante
Terça a domingo | 10h00 – 12h30 / 14h00 -17h30
Condições de Acesso: Tarifa normal – 3€ | Tarifa reduzida – 1,50€: para Grupos Turísticos, jovens entre os 12 e os 18 anos, cidadãos com idade igual ou superior a 65 anos e portadores de Cartão Jovem| Entrada Gratuita a grupos escolares, a trabalhadores da CM Lagos e residentes em Lagos, quando devidamente identificados, e a menores de 12 anos.
Bilhete conjunto (visita a mais do que um equipamento museológico):
• Museu + Núcleo Museológico Rota da Escravatura – p.p.: 5,00€
• Museu + Núcleo Museológico Forte da Ponta da Bandeira – p.p.: 4,00€
• Museu + Núcleo Museológico Rota da Escravatura + Núcleo Museológico Forte da Ponta da Bandeira – p.p.: 6,00€
• Núcleo Museológico Rota da Escravatura + Núcleo Museológico Forte da Ponta da Bandeira – p.p.: 4,00€