Exposição «José Dias Sancho: Modernismo e Regionalismo», patente até fevereiro, recupera a memória e destaca o legado artístico do multifacetado são-brasense.
O Museu Municipal de Faro abre portas a uma figura surpreendente e multifacetada da cultura algarvia. «José Dias Sancho: Modernismo e Regionalismo» é o título da exposição que recupera o percurso singular do artista são-brasense, reunindo caricaturas, pinturas e documentos que revelam a sua vida intensa e breve — apenas trinta anos — mas marcante para o modernismo português.
«É realmente uma figura notável da elite cultural — e pode dizer-se mesmo da elite artística — dos finais do século XIX e do século XX», sublinha Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, que tem vindo a redescobrir nomes esquecidos da história artística do Algarve. Entre esses nomes está o de José Dias Sancho, um criador inquieto, caricaturista, escritor, jornalista, caricaturista e até pioneiro do cinema na região.
A mostra, patente até fevereiro de 2026, apresenta cerca de 20 caricaturas — algumas originais, outras reproduzidas a partir de publicações da época. Segundo a curadora executiva, Joana Galrão, «existem alguns originais, mas a maior parte é de reproduções, porque não sabemos o paradeiro das obras. Muitos foram publicados em jornais e revistas. Conseguimos obter alguns originais para fotografar e digitalizar, de modo a termos boas reproduções».
Entre as figuras retratadas por Dias Sancho estão o dramaturgo Cândido Guerreiro, o poeta Bernardo de Passos, o pintor Carlos Lyster Franco e outros protagonistas do modernismo algarvio. «Foi uma vida curta, mas com muita produção», resume a curadora. «Iniciamos o percurso expositivo com uma caricatura feita pelo Roberto Nobre, primo de José Dias Sancho, a representá-lo. Depois apresentamos esta cronologia biográfica, que resume a sua vida. Embora curta, foi muito preenchida».
Tradição e ruptura em diálogo
A exposição organiza-se em torno de dois eixos fundamentais da sua obra: o regionalismo e o modernismo. O primeiro é evocado através de caricaturas e textos de inspiração algarvia, vários deles publicados em revistas e jornais da época. «Mostramos alguns documentos selecionados: livros da sua autoria, textos publicados em revistas da época e também cartas — uma ao Carlos Lyster Franco e outra ao Bernardo de Passos — emprestadas pelo Museu do Traje de São Brás de Alportel», explica Joana Galrão.
No segundo núcleo, dedicado à paisagem algarvia, surgem pinturas de artistas que conviveram ou foram influenciados por José Dias Sancho. «Carlos Lyster Franco não era natural do Algarve, mas foi como se fosse. Foi docente durante vários anos», recorda a curadora. O mesmo aconteceu com Raul Marques de Carneiro, que, embora tenha vivido menos tempo na região, também retratou a paisagem algarvia — como nas obras Casa Algarvia ou Pôr-do-sol em Faro.
«José Dias Sancho consegue, de certa forma, atrair essas pessoas — essa elite cultural — que, se calhar, nem conhecia o Algarve ou não viria cá parar se não fosse essa influência. E depois mostra o Algarve: eles acabam por o representar nas suas obras e projetam a região. Essa projeção é feita através dessa colaboração, que é artística e não só. Há também colaborações do ponto de vista da literatura e da crítica de arte. Nos finais da década de 1910 e inícios de 1920, este grupo vem para cá pelo casario, pela vista, pela luz — que não existe em mais lado nenhum senão no Algarve. Conseguem representá-la, expõem cá, mas também expõem em Lisboa», acrescenta Marco Lopes.
Por isso, o percurso expositivo inclui ainda obras de Carlos Porfírio, Roberto Nobre e Bernardo Marques.
«O Almada Negreiros, o Eduardo Viana ou o Mário Eloy são apenas alguns nomes de um leque substancial de artistas que José Dias Sancho conseguiu trazer ao Algarve, expor e, no fundo, criar um fascínio por esta região. Uma região que já tinha inúmeros atrativos — não só paisagísticos, mas também culturais e linguísticos — e à qual ele próprio está associado, por exemplo, à marca muito conhecida da Vila Cubista. Ele é um dos progenitores dessa ideia da Vila Cubista, que acaba por ser um atrativo fortíssimo para trazer cá parte desta elite.
Por exemplo, o Eduardo Viana ou o Mário Eloy passam aqui temporadas a fazer aquilo que hoje chamamos de residências artísticas.
Vêm para cá desenvolver o seu trabalho e expor», detalha.
Artista plural, vida intensa
Além do caricaturista e do cronista, a exposição mostra o lado de programador cultural, curador e cineasta. «José Dias Sancho também foi fundador da primeira empresa de cinema no Algarve, a Sancho Filme, Limitada», lembra Joana Galrão. «Não sobreviveu nenhum fotograma até hoje, e a empresa teve vida curta: foi inaugurada em 1919 e dissolvida em 1920. Sabe-se que produziu dois filmes no Algarve, mas nada restou até aos nossos dias».
Dias Sancho foi também autor de textos satíricos e polémicos, como A Ceia dos Cábulas, uma paródia à célebre Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas, e Palmadinhas nos Carecas, em que ironizava o futurismo algarvio. Publicou o primeiro poema aos 13 anos, Cemitério, e cedo se destacou nos círculos literários e artísticos lisboetas.
«Quando foi estudar Direito para Lisboa, integrou-se logo nos círculos modernistas da época», recorda a curadora. «Participou na Questão dos Novos da Sociedade Nacional de Belas-Artes e esteve presente no jantar oferecido pelos «Novos» ao pintor João Vaz. Alguns desses encontros foram registados em cartoons publicados na Ilustração Portuguesa».
«Vamos ter oportunidade de as ver reproduzidas no catálogo, que será suculento, substancial, do ponto de vista da informação, com vários ensaios e artigos que resultam de anos de estudo à volta dele. José Dias Sancho é um cineasta, um programador. É um homem ligado à música e também ao teatro. E é um homem ligado ainda à organização e curadoria de algumas importantes exposições que se fizeram aqui no Algarve e que ele conseguiu concretizar através de articulações com nomes relevantes do modernismo português», acrescenta.
O Algarve não é uma ilha
O percurso termina com o núcleo «Entrevistas», que reúne textos jornalísticos de José Dias Sancho. Entre eles, uma entrevista publicada no Correio do Sul a Cândido Guerreiro e duas reproduções de conversas com Carlos Porfírio e Bernardo Passos. «Desta forma, encerramos a exposição com ele em diálogo», afirma Joana Galrão. «É muito importante mostrar como foi capaz de criar pontes culturais e de contagiar os outros com a sua energia criativa».
Para Marco Lopes, essa rede de relações é o que dá sentido à exposição. «O Algarve tem uma condição um pouco insular, parece uma ilha onde nada acontece — mas não é bem assim. Do ponto de vista cultural e artístico, é uma região riquíssima, com gente como o Dias Sancho, o Roberto Nobre, o Carlos Porfírio. Pessoas diversificadas, que estudam em Lisboa e depois vêm para cá, que têm relações com modernistas e com a elite cultural e artística lisboeta. Portanto, não estamos assim tão isolados, nem tão fora, pelo menos nestas áreas e nesta época».
«Quem chegava ao Algarve, na altura, transpunha uma série de de dificuldades — mas afinal não era uma região tão distante em termos culturais. Isso percebe-se nestes intercâmbios, nestas articulações e comunicações. Na questão das acessibilidades, do ensino e da economia, podemos estar um pouco afastados; mas na cultura, não estamos assim tão distantes do que acontece no resto do país. Havia uma agenda que não era de desprezar», compara.
Também a Escola Industrial Pedro Nunes, em Faro, foi «importantíssima, com três professores fundamentais: Adolf Ossmann, Lyster Franco e Ezequiel Pereira. Além de lecionarem, ainda organizavam com alguma regularidade uma série de exposições na própria cidade. Havia um entusiasmo contagiante entre professores e alunos, que tornava a cidade vibrante do ponto de vista cultural e expositivo — algo que não acontecia em muitos outros lugares. E estamos a falar dos anos 1910, aqui em Faro. Também é muito interessante o caso de Lagos, onde, numa outra escola industrial, estava à frente o Falcão Trigoso. Estamos a falar de grandes nomes, de gente formada em Lisboa, que vem para cá lecionar e dinamizar culturalmente estas regiões — regiões periféricas, afastadas dos principais centros urbanos do país. Portanto, acaba por ser um fenómeno muito sui generis, muito particular, que estas exposições, catálogos e projetos têm vindo a consolidar».
Do esquecimento à itinerância
A exposição é resultado de um projeto de mestrado de Joana Galrão, 27 anos, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, orientado pelo curador científico Fernando Rosa Dias. Trata-se de uma curadoria em movimento que seguirá para o Museu Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e para o Museu do Traje de São Brás de Alportel, em 2026.
Patente no Museu Municipal de Faro até 15 de fevereiro de 2026, «José Dias Sancho: Modernismo e Regionalismo» não é apenas uma exposição de arte, mas um gesto de recuperação da memória cultural do Algarve e do seu lugar na história do modernismo português.
O diretor do museu sublinha ainda que o projeto se integra num trabalho contínuo de valorização do património artístico regional. «Nos últimos anos, o museu tem procurado revelar nomes que a maioria dos algarvios desconhece, ou não conhece tão bem como seria desejável. O caso de Dias Sancho é paradigmático dessa missão», reforça.



