«A arte não é um espelho para reflectir a realidade, mas um martelo para moldá-la.» – Bertolt Brecht
A bomba-relógio está prestes a explodir.
Os curdos e os turcos estão a jogar Risk num tabuleiro viciado pelo «aprendiz» do costume. A extrema-direita disse «bom dia» ao parlamento português. O Japão está a ser devastado por um furacão, matando inocentes e cantoras de K-Pop. E enquanto o «papa-reformas» do Brexit não engata, a banca afunda, iniciando uma nova (?) crise económica. Tendo isto em conta, com que arte moldamos a nossa realidade?
O júri dos concursos bienais do programa sustentado de apoio às artes da DGArtes rejeitou 75 das 177 candidaturas a concurso. Não porque não eram boas candidaturas, não porque os responsáveis não tinham currículo ou porque os projectos não tinham potencial: foram rejeitadas porque não há dinheiro suficiente para a cultura. Mentira: há 0,27 por cento do Orçamento de Estado dedicado a TODA a cultura do país. Se é suficiente ou não, se é uma percentagem justa ou não, fica ao teu critério.
Há malta que anda a partir as costas há DÉCADAS nas Artes Visuais, no Circo Contemporâneo e Artes de Rua, no Cruzamento Disciplinar, na Dança, da Música e no Teatro que ficou sem meios para sobreviver durante os próximos dois anos. O júri deste concurso endereçou uma carta à ministra da Cultura, Graça Fonseca, onde expressou «(…) extremo desconforto na nossa actuação, como membros deste júri, por as nossas deliberações não encontrarem correspondência financeira nos resultados alcançados». Há uma outra carta aberta, da autoria do actor Filipe Abreu, que será entregue na residência do primeiro-ministro dia 18 de outubro. Ainda estão a tempo de a assinar.
Mas e o típico Millenial ou membro da geração Z algarvio: o que faz quando o apoio para 60 por cento dos nossos artistas é rejeitado?
Vai sacando as máquinas fotográficas analógicas dos pais? Ou partilhando no Instagram o quanto o Joker e o El Camino são, ou não, fantásticos? Ou ignorando a manifestação ambiental porque estão ressacados de quinta-feira à noite? Vão continuando a votar em listas para Associações de Estudantes cuja única preocupação é contratar rappers niilistas para actuar nas suas festas e ganhar pontos para uma carreira futura? Vão continuando a dizer que é a falta de comunicação que provoca exposições vazias e festivais de teatro sem público? Quando suspiram por Lisboa porque «não acontece nada no Algarve»?
Se a arte molda a vossa realidade, o inverso também acontece mpts.
Querem um exemplo? A jornada que o supramencionado palhaço tem no seu filme homónimo é, em tudo, semelhante à da activista sueca Greta Thunberg que tanto adoram. Invisíveis devido às suas diferenças, começam revoluções sozinhos e rapidamente são clonados quando os seus actos atingem os media. A diferença? Uma luta para melhorar o mundo e o outro porque não tem nada melhor para fazer. Qual deles queres ser?
Diogo Simão – Autor, realizador. Ator, produtor. Formador do supramencionado. Trabalha a tempo inteiro na criação de uma capital europeia da cultura em Faro e no Shortcutz local.