A dois passos do Autódromo Internacional do Algarve (AIA), imagem dos tempos modernos, Joaquim das Cabras, 83 anos, não desiste de ser um dos últimos pastores da região.
Quem passa por ele, talvez nem dê pela sua presença, nem pelo diminuto rebanho de dez cabras. Nem adivinha a história dos seus 83 anos, dos quais oitenta no pastoreio.
Não é fácil colocar alguém que se habituou, desde sempre, à solidão, que nunca casou nem arranjou uma companheira, «porque nunca calhou», e que já foi agredido e assaltado várias vezes, a falar da sua vida. Contudo, depois de investido algum tempo, Joaquim Sebastião Mateus abriu-se um pouco e dispôs-se a falar, embora com a desconfiança sempre presente.
«O meu pai era agricultor, comprou-me uma chibinha, quando eu era gaiato, tinha aí os meus três anos, e comecei a andar com ela. Depois, começou a criar, começaram a ser mais. Cheguei a ter 400 cabeças», foi dizendo, numa voz baixa, quase em sussurro.
Joaquim das Cabras, como é conhecido, nasceu e viveu na zona da Ribeira Grande, na encosta norte da serra de Monchique. Nunca colocou os pés numa escola, nunca aprendeu a ler, nunca saiu da sua zona de conforto (ou desconforto), até «há vinte e tal anos, quando vim viver para aqui, que é uma zona menos invernosa e menos agreste». Ainda trabalhou algum tempo com o pai «e lavrei com uma junta de bois, mas o pastoreio das cabras foi sempre a minha coisa».
E como seriam, na sua infância, estas paisagens? «Eram carreiros por onde só passava uma besta, não havia estrada nenhuma, e passava os dias sozinho. Havia lobos e ainda me mataram uma chiba, mas depois desapareceram. Mas um vizinho meu, que já morreu, tinha um rebanho grande, os lobos foram dar com elas, uma noite, ele não estava ao pé delas e mataram quase todas», recorda. No entanto, nunca foi homem de ter medo.
«Tenho tido muito mais problemas com os homens do que tive com os lobos. Roubaram-me animais, roubaram-me dinheiro, têm roubado tudo o que têm podido. Já foram umas poucas vezes lá a casa. Uma vez, além na Cabeça Boa, ia andando com o rebanho e comendo um bocadinho de pão e uma laranja, apareceu um homem mascarado, deu-me uma porrada na cabeça com um pau. Caí, fiquei como morto e, quando acordei, estavam as cabras de roda de mim. Queria dinheiro. Tinha, nessa altura, duzentos e tal contos, ainda era em escudos, levou o relógio de algibeira que eu tinha, levou tudo. E partiu-me um braço. A ambulância veio-me buscar, estive a tarde inteira no hospital, puseram gesso, mas o braço nunca mais ficou capaz. Já viu alguém andar com um rebanho, com um braço partido? E daí para cá já me roubaram mais vezes. Fiz queixa à GNR, deram-lhe cinco anos de gaiola, esteve para lá uns três anos, mandaram-no embora, mas nunca mais vi o dinheiro».
Questionado sobre se alguma vez fez queijos para vender, conta que «o leite e os queijos eram só para o gasto da casa. Nessa altura, ninguém comprava. Ganhávamos dinheiro apenas na venda dos animais nos mercados, em Monchique, Aljezur e, quando calhava, em Portimão».
Mas, moço novo, não se ia logo deitar, terminada a ceia. «Não havia televisão, fazia-se um fogo grande, ia-se para a roda do lume, conversávamos. Por ocasiões havia festas, juntavam-se moças e moços e faziam-se uns bailaricos. Olhe, fole nunca toquei, mas tocava gaita». E «dançava, porque havia mais quem tocasse».
Sobre as refeições, vivia-se do que a terra dava. «O meu pai tinha trigo, batatas, couves, apanhava azeitonas e mandávamos fazer azeite no lagar. Engordava-se um porquinho, que se matava e dava para o resto do ano. Tínhamos galinhas e coelhos. Apanhávamos medronhos e destilávamos para fazer aguardente». Só vinho é que não faziam, porque as uvas não se davam na encosta fria de Monchique.
«O vinho era um luxo. Só se bebia pelas festas, Natal, Carnaval ou Páscoa. O meu pai comprava um garrafão, íamos bebendo e, quando se acabava, não bebíamos até à próxima festa».
Antigamente, o dia tinha outro ritmo. Era tudo mais cedo. «A minha mãe fazia um tacho de papas e comíamos à luz da lamparina de azeite, a picha de lata. Ao meio-dia, era o jantar, qualquer coisa que pudesse ser. Era um feijão com arroz, feijão com batatas, com legumes. Quando vinha o tempo da couve, era uma mão-cheia de couves. A minha mãe tirava o jantar da panela e metia logo as couves para a ceia. Ferviam a tarde inteira, não é como agora, que dão uma fervura e está a couve cozida. Quando a couve se acabava, era outra coisa qualquer. Fermentava milhos com cinza e, depois, punha aquilo a secar e ia fazendo umas quantas vezes», recorda. E como é hoje? «Igual. Saio de casa de manhã, ando com o rebanho e regresso à noite».
«Comi um pouco de pão e uma lata de conserva, antes de abalar. E vou comer qualquer coisa, quando chegar a casa, à tardinha». No passado, trazia sempre qualquer coisa para merendar, mas deixou-se disso, com a idade.
A conversa, claro, tinha de passar pela falta de chuva. «Ainda vai havendo comida para os animais, vou andando de um lado para o outro para manter a coisa, mas não sei como vai ser. Se não chover, vai faltar a comida. Mas isto agora é só uma entretenha, para não ficar parado em casa. Tenho além sete cabritos na malhada, para vender quando estiverem capazes. Já não posso andar e vou ter de acabar com elas, qualquer dia».
A idade não perdoa, as dores são muitas, tem uma hérnia, não consegue dobrar a perna esquerda, o joelho está inchado e dói, necessita de dois cajados para se movimentar. Mas continua, porque é o que sempre fez.
No último dia de conversa com o senhor Joaquim, apareceu a sobrinha Maria Camila, que é quem trata dele há cerca de quatro anos, lhe leva comida e quer que ele fique ali, onde pode ter uma existência descansada.
«Mas tem de mudar de vida. Tem de ter descanso, ir ao médico, tomar os medicamentos, tomar banhito e andar limpinho. Não está em condições de continuar a vida de pastor, pois já lhe custa vir ali de cima para aqui com as cabrinhas», ralha.
E talvez esteja para breve o abandono da profissão, cada vez mais rara, porque a idade e estado de saúde assim o aconselham. Mas não sem esta homenagem simples a um humilde homem do povo que guarda também as memórias de um Algarve de outrora.


