O governo está a estudar a ligação do Alqueva à Bacia de Mira, e da Barragem de Santa Clara à Barragem da Bravura, em Lagos, disse hoje em Faro a ministra do ambiente, Maria Graça Carvalho. A possibilidade surge no âmbito da captação de 60 hectómetros cúbicos do Guadiana, no Pomarão, autorizada por Espanha.
Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente e Energia, esteve hoje ao início da tarde em Faro, para inaugurar o Pavilhão da Água, uma exposição temática organizada pela Águas do Algarve, no Parque de Lazer das Figuras (frente ao Forum Algarve).
No uso da palavra, a ministra começou por referir que «ao longo dos últimos meses, desde janeiro, tem sido notória a poupança de água dos algarvios. Todos os sectores – agrícola, urbano e turístico. uns mais do que outros cumpriram globalmente» os objetivos traçados de poupança.
Assim, «graças a este esforço e também a um cenário mais favorável do ponto de vista de precipitação quando comparado com o ano passado, as albufeiras algarvias recuperaram e contam atualmente com mais de 40 hectómetros cúbicos em relação a este dia, no ano» em 2023.
Segundo as contas de Maria da Graça Carvalho, as seis albufeiras do Algarve têm armazenados 154 hectómetros cúbicos de água, enquanto «que no ano passado tínhamos cerca de 114 hectómetros cúbicos».
Embora estejam em marcha vários investimentos para resolver os problemas de falta de água na região algarvia, a ministra lembrou que «só vão estar prontos daqui a dois anos e alguns meses».
Uma novidade anunciada pela governante é a intervenção integrada das rias e ribeiras entre o Baixo Alentejo e o Algarve. Com financiamento do PO Regional no valor de cerca de 40 milhões, vão ser «criadas duas reservas fluviais, uma para o Rio Vascão, no Sotavento, um dos afluentes do Guadiana, e outra reserva fluvial na Ribeira de Odeceixe, no Barlavento».
Segundo a ministra, «estas serão duas reservas fluviais importantíssimas para o nosso país». Além disso, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em articulação com a Câmara Municipal de Mértola, está a preparar os estudos para a renaturalização das margens do Guadiana, «estando também na reprogramação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) uma verba que estamos a propor à Comissão Europeia de 10 milhões de euros para tornar o nosso Guadiana bonito e renaturalizado. Portanto, não só usar a sua água para fins socioeconómicos».
Transvasse Alqueva-Algarve poderá vir a ser possível
Tal como foi noticiado na última sexta-feira, a Águas do Algarve abriu concurso público para a contratação da empreitada referente à chamada solução para a tomada de água do Pomarão, no Rio Guadiana.
«Trata-se de uma medida que, quando concretizada, irá acrescentar 30 hectómetros cúbicos à água disponível para o consumo humano» no Algarve, contabilizou Maria da Graça Carvalho.
Segundo a ministra, prevê-se um prazo de cerca de um ano e três meses para a construção da infraestrutura.
«Mas estamos a fazer o esforço para que tudo fique pronto quando acaba o PRR, que é em 2026.É uma intervenção dividida em três lotes, com investimento considerável» na ordem de 109 milhões de euros.
«Mas o trabalho mais complexo não foi a dotação financeira. Foi, sim, a criação de condições no âmbito das relações entre Portugal e Espanha para que esta obra pudesse avançar», recordou a ministra, assunto que culminou na cimeira ibérica, realizada em Faro, em novembro.
«A autorização de Espanha para a utilização de 60 hectómetros cúbicos do Rio Guadiana, desde que os caudais ecológicos do Rio Guadiana estejam garantidos, permite utilizar 30 hectómetros cúbicos para a tomada de água do Pomarão e 30 hectómetros cúbicos para reforçar o Alqueva», revelou a governante.
Assim, «através deste reforço do Alqueva, será possível, e é isso que estamos a estudar neste momento, fazer a ligação do Alqueva à Bacia de Mira, a Santa Clara, e de Santa Clara à Barragem da Bravura. Estaremos, assim, a fornecer água ao Barlavento e ao Sotavento», anunciou.
«O reforço da ligação Barlavento-Sotavento, na horizontal, que já existe, mas está a ser reforçada, irá dar uma maior resiliência hídrica ao Algarve», referiu.
Além disso, no âmbito da programação do PRR, «estamos a negociar um aumento de financiamento para as obras a cargo dos municípios, para que façam mais na redução de perdas de água», tal como sugerido pela AMAL.
No total, «os financiamentos que estamos a fazer no Algarve, ascendem perto de 500 milhões de euros. Estou certa de que o Algarve ficará mais bem preparado para enfrentar os desafios do futuro», afirmou.
Novas barragens e Central de dessalinização do Algarve
Questionada pelos jornalistas acerca da possibilidade de se construírem novas barragens, na ribeira da Foupana e Alportel, Maria da Graça Carvalho remeteu a resposta o primeiro trimestre de 2025.
«Temos um grupo, que é o grupo da Água Q1, que foi anunciado pelo primeiro-ministro logo quando começámos este governo, presidido pelo presidente das Águas de Portugal (Carmona Rodrigues) que e está a acabar um trabalho para apresentar ao governo. As nossas prioridades políticas são, em primeiro lugar, poupar; segundo, reutilizar; terceiro, evitar as perdas; quarto, utilizar as infraestruturas existentes, otimizá-las e aumentar a dimensão, se possível. E só em último caso, fazer obra nova. Vamos ver quais são os resultados muito em breve, no princípio do ano», respondeu.
Já sobre a futura central dessalinizadora do Algarve, prevista para Albufeira, a ministra refutou o ceticismo. No conjunto, «a dessalinizadora produzirá cerca de 24 hectómetros cúbicos de água, e a ligação ao Pomarão, 30 hectómetros cúbicos. O consumo humano é cerca de 75 hectómetros cúbicos. Hoje, o Algarve está numa circunstância em que a quantidade de chuva é cada vez menor, uma tendência dos últimos 20 anos. É toda uma frente de desertificação que está a subir para o norte da Europa. Hoje, Malta sobrevive com a dessalinizadora e a reutilização de água, não tem outra fonte. Neste momento há financiamento que pode não existir no futuro. A minha missão é deixar o Algarve preparado».
Graça Carvalho recordou que Espanha, comparativamente, «tem mais de 700 dessalinizadoras. Cabo Verde tem oito e está a construir a nona. Teve a primeira nos anos 1950 no Mindelo, construída ainda no tempo de Salazar. As tecnologias têm evoluído muito, não podemos perder mais tempo a discutir» a dessalinização na região algarvia.
«O Algarve tem problemas muito graves, precisa de muita água para a agricultura, para o turismo, para o consumo humano. Não podemos deixar que fique árido porque isso seria muito mau para a economia e para a qualidade de vida. O Algarve é uma região maravilhosa, mas precisa de água para ser uma região maravilhosa», justificou.
Nova administração da Águas do Algarve
A ministra do ambiente deixou ainda «uma palavra especial de agradecimento» também a Isabel Soares, que «durante 12 anos esteve ao serviço da Águas do Algarve, e nos últimos quatro meses como presidente desta importante empresa. Em breve, teremos outra administração. Posso-vos dizer que deixou tudo que havia para resolver, resolvido. A casa toda arrumada. A nova administração só tem de executar, porque os problemas, ela resolveu-os», afirmou.

