O nosso entrevistado sabe-o bem, pois aconteceu-lhe aos 10 anos, quando foi matricular-se no 5º ano do articulado, na Escola D. Martinho Castelo Branco, e teve de escolher um instrumento musical. Mas ele explica o que aconteceu.
Francisco Monteiro – Já tinha escolhido o piano. Mas, quando estava na secretaria para fazer a inscrição, surgiu o professor de acordeão e perguntou-me se queria experimentar o instrumento. Respondi que não estava muito interessado, mas um amigo que estava comigo disse que gostava, pois estava curioso. Então experimentei e gostei muito, ao ponto de mudar de ideias. Quando o meu avô soube, comprou-me um acordeão, comecei a tocar e vi que, mesmo sem aulas, tinha jeito.
barlavento – E que aconteceu a seguir?
Entrei no curso, mas foi somente dois anos depois, em 2012, quando ganhei o troféu nacional, que a paixão cresceu ainda mais. Nesse momento, já estava na escola da Bemposta, onde mudei no sexto ano e onde estudei até ao nono.
Quem era o teu professor?
Era e continua a ser o Gonçalo Pescada, mas agora no Conservatório Joly Braga. Porque estou na António Aleixo, no décimo ano, e já não tenho música. Frequento a área de Ciências.
E como vão os estudos?
Estou a fazer dois cursos: ciências na António Aleixo e música no Joly Braga, onde aprendo, além de acordeão, formação musical, classe de conjunto, história e cultura das artes e outras disciplinas. Mas ambos vão bem. Embora tenha pouco tempo para as duas coisas, tento aproveitar ao máximo e média está boa.
O que é, para ti, uma média boa?
16, na escola; entre 18 e 19, na música. E estou a tentar manter ou subir essas médias.
Porquê a escolha do articulado, com música? Houve influências familiares?
Gostei de cantar, desde que aprendi a falar. Sempre tive paixão pela música e, quando soube que, no quinto ano, havia oportunidade de entrar num curso de música sem pagar, inscrevi-me.
Então, também cantas, além de tocares muito bem o acordeão?
Canto somente por causa da disciplina de coro. Não tenho muito interesse no canto, embora tenha nota máxima. Gosto mais de expressar a música pelo acordeão do que pela voz.
Como é que tomaste o gosto pelo acordeão?
Antes de experimentar, achava que era muito difícil, mas logo no primeiro momento em que o toquei senti uma grande ligação e que tinha alguma habilidade. E também treinava muitas horas e tornou-se fácil para mim. Além disso, gosto do som e da variedade de estilos que se podem tocar nele. Também adoro o mundo do acordeão, de ir a concursos e de conhecer acordeonistas de outros países.
Já competiste internacionalmente?
Já fui à cup mundial, em Itália, e ao troféu mundial, na Lituânia; também estive num estágio de seis semanas, em França, na casa de um professor muito prestigiado, o Frédéric Deschamps, no verão passado. Vão lá alunos de todo o mundo. Foi muito bom, porque tive contactos com outras culturas e oportunidade de treinar o acordeão ao máximo.
Dizias, há pouco, que treinas bastante. O que é que isso significa em número de horas semanais?
Quando tenho uma competição internacional, tenho de estudar cerca de sete horas por dia. O que não acontece no tempo de aulas, em que só consigo estudar no fim de semana, duas horas por dia, no máximo. É difícil conciliar o instrumento com a escola, mas tenho conseguido manter o bom nível, até agora. Vamos ver se consigo continuar a mantê-lo.
Prémios internacionais, já há?
Lá fora, é mais difícil. Na primeira vez, só fui para ver como era. Na segunda, fiquei em sexto lugar no acordeão clássico. Vamos ver o que nos espera para o ano.
O acordeão passou de um instrumento popular a instrumento de música erudita. Tu tocas apenas música clássica, ou também ritmos diferentes, mais populares?
Apesar de saber tocar música popular, como os corridinhos, de ouvido, o que estudo no conservatório e mais gosto de tocar é música erudita: clássica, jazz, valsas francesas, tango.
Como é que o Francisco Monteiro aparece no concurso «talentos», na televisão?
Já conhecia o programa noutros países, mas não sabia que já existia em Portugal. Mas a minha avó telefonou-me a dizer que me tinha inscrito no programa. Fiquei muito satisfeito e alinhei logo, só para mostrar o meu trabalho. Nunca pensei chegar à final, mas fui passando as várias etapas e consegui chegar, o que foi espetacular.
Como se sente um jovem de 15 anos, quando começa a tocar, sabendo que estão milhões de pessoas a observá-lo e a escutá-lo?
Seria normal que eu ficasse muito nervoso, mas não aconteceu. Estava bastante calmo, porque já tenho muita experiência de palco. Mas senti-me muito orgulhoso de mostrar o meu trabalho e o que se pode fazer no acordeão e de as pessoas aderirem. Fui o mais votado na semifinal, o que me deixou muito contente.
Concordas com a votação feita pelo público ou achas que tira alguma verdade ao resultado?
Acho que a votação pelo público não é tão justa como se fosse por um júri entendido na matéria. Passa quem tem mais amigos e mais família. Contra mim estou a falar, mas é o que eu penso. Acho que a opinião de um júri seria mais justa. Mas essa votação pelo público também demonstra a opinião do povo português.
E o futuro? Já está pensado?
Ainda é um bocado incerto. Gosto de ciências e de música. Não sei se vou optar pelo que mais gosto, a música, ou por um caminho mais seguro, continuando a tocar como um hobby.
Se não seguisses a música, o que gostarias de fazer?
Medicina dentária ou uma engenharia qualquer.
E quais os projetos mais próximos, em termos musicais, como consequência das tuas aparições na televisão?
Tenho recebido alguns convites de pessoas interessadas em projetos comigo e também já tenho pequenas atuações agendadas. O meu objetivo é continuar a estudar e, no verão, participar em muitas competições internacionais e trazer o primeiro lugar para Portugal.
A terminar, Francisco, o que é que aconselhavas a alguém com 10 anos que se quisesse iniciar na música?
É bom estudar música e acho que qualquer pessoa o deveria fazer. Quanto à escolha do instrumento, não se devem assustar com a primeira impressão, porque, no início, tudo é difícil mas, com trabalho e dedicação, tudo se consegue fazer. E com muito estudo é que se vai lá e se atingem os objetivos.