A espiral de descontentamento e polarização teve nestas eleições europeias mais um reforço, mais uma confirmação de como as coisas vão provavelmente continuar a piorar.
É comum neste tipo de artigos eu mencionar sempre o ponto de partida desta espiral. Nunca me canso de o mencionar porque é mesmo muito importante que todos percebam que a causa central do descontentamento dos povos europeus não é mais ou menos imigração, ou mais ou menos Estado.
A causa central é a diminuição das condições de vida, principalmente a diminuição do poder de compra da classe média europeia, o verdadeiro barómetro do humor popular. A crise financeira internacional de 2008 provocou uma série de acontecimentos que agora estamos a assistir e que se vão desenrolando ao longo dos anos, como uma fila de dominós a cair, com consequências para as próximas décadas, em todo o século XXI.
Sem surpresas, movimentos extremistas e populistas tiveram crescimento nas eleições europeias. Os casos mais dramáticos foram nas principais economias europeias, e onde realmente estão os centros de decisão, na Alemanha e França.
Neste momento, os partidos considerados moderados ou os do centro europeu, conservam o seu poder (PPE e S&D). O processo de perda de poder é progressivo e lento, no entanto observável. A mensagem dos novos partidos populistas é tão atrativa como foi noutras alturas da história.
A mensagem é a mesma, simplesmente existem outros sistemas de propagação mais eficientes com maior escala, como é o caso das redes sociais. A mensagem é a simplificação dos crescentes problemas que consomem a vida das pessoas. Os velhos partidos do centro neste momento representam a complicada burocracia e a gestão deficiente da coisa pública. Têm mais de 20 anos de políticas públicas a falhar em relação ao trabalhador comum, aos jovens, às classes médias e baixas.
Eleições europeias têm diferentes significados para diferentes países europeus, mas em França e Bélgica já tiveram consequências diretas com a marcação de eleições e quedas de governos.
Em França o problema parece mais crónico, mas é apenas um caso que se encontra em estado mais avançado de maturação, devido principalmente à questão da imigração. Mas mais se irão seguir no futuro. É claro que com o aparecimento destes novos movimentos nacionalistas, outros movimentos aparecem em resposta, como é o caso dos movimentos de extrema esquerda.
É a fratura da sociedade em polos cada vez mais distantes, que à medida que se afastam cada vez mais, tornam a discussão impossível a mais pessoas. O centro fica mais vazio, que é o que está a acontecer. Os partidos moderados, reféns de governos minoritários, esvaziados de poder de decisão, juntam-se a um lado ou ao outro, em geringonças, podendo depois ser canibalizados ou responsabilizados pelos falhanços dessas aventuras.
Convém também referir que o caso da Europa é diferente dos EUA, sendo dois universos completamente diferentes. Os EUA têm uma economia funcional, estando cada vez mais afastados dos europeus. Os movimentos populistas ou nacionalistas americanos estiveram sempre presentes e fazem parte de uma sociedade extremamente diferente entre si, em permanente conflito.
A União Europeia não tem uma economia funcional. Não existem respostas nos movimentos populistas, nem na extrema esquerda para resolver o problema da economia europeia. Em Portugal isso é demais evidente, sendo que o problema no nosso país é ainda mais agudo, fruto de uma população extremamente ignorante em temas de economia e finanças e um tecido empresarial empobrecido e descapitalizado. Existe um medo histórico do sucesso empresarial, do lucro e do empreendedorismo, o caminho para a inovação, que é a chave central do crescimento e desenvolvimento económico.
O país não sente tanto as adversidades devido às transferências que recebemos da União Europeia nas últimas décadas, disfarçando as disfuncionalidades. Sabemos que existe apenas uma forma do Estado social funcionar em condições: uma economia funcional. Não existe distribuição se não houver nada para distribuir.
Por cá, o Chega aparentemente foi um dos perdedores destas Europeias, mas não nos podemos esquecer que pela primeira vez têm representação no Parlamento Europeu.
Também não nos podemos esquecer que nestas eleições a abstenção foi de 63 por cento, muito mais alta do que as eleições legislativas, onde o Chega teve um resultado avassalador. Não sabemos a influência que esta abstenção teve no resultado do Chega, principalmente em termos demográficos, do tipo de eleitor do Chega, entre outras variáveis que podemos nunca vir a saber exatamente.
Todas as análises nesta temática são suposições neste momento. Apenas podemos referir que neste momento o Chega cresceu em representatividade em todas as eleições até agora. Não sabemos o que será do partido no futuro, mas com o agravar de condições de vida, a tendência é a procura por novas respostas, mesmo que sejam as erradas.
O caso da Europa torna-se assim mais severo e mais propicio a ser explorado por oportunistas. Existe obviamente a intenção de corrigir o rumo, a questão é saber se ainda estamos a tempo de impedir a subida ao poder de pessoas não recomendáveis.
É importante ter atenção ao chamado «relatório Draghi», um conjunto de análises e propostas do antigo primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, para que a Europa se adapte de vez ao mundo atual.
É importante notar que não são apenas receitas económicas, mas também de natureza geopolítica, estando as duas muito interconectadas. A Europa corre o risco de ficar preso entre o protecionismo dos EUA e a expansão das novas potências, como a China.
Na parte económica, é importante recuperar terreno nas novas tecnologias (inovação), corrigir a balança comercial produzindo novamente, reforçar a competitividade do mercado único permitindo o aparecimento de novas empresas tecnológicas globais, que neste momento são quase inexistentes na Europa.
Quanto disto pode ser feito em tempo útil não sabemos. Para já temos o esvaziar da discussão com a entrada de novos atores que pretendem uma mudança ideológica da estrutura europeia, que pouco se importam com negociações ou comprometimentos. Apenas com o caos podem continuar a crescer e é ai que se vão focar.