Em Eurotrash, Christian Kracht atravessa uma Suíça sombria, entre vodka, culpa, dinheiro, morte e vazio, num retrato desencantado da Europa.
Christian Kracht viaja sem rumo numa espécie de dérive, também embriagada como a de Debord, com quem dialoga em Eurotrash, mesmo que, nuns momentos, o dispense como insípido e, noutros, se socorra do seu léxico para pensar o seu lugar no mundo.
Kracht perde-se numa Zurique oposta à dos postais e ainda mais distante da do Cabaret Voltaire, governada por caciques arrogantes e personagens duvidosas, com esquemas manhosos, ligadas a um submundo sadomasoquista e nazi, regido pelo fetiche do ideal masculino nórdico.
Neste cenário, é a própria personagem quem dá por si a questionar não tanto a sua saúde mental, mas a de quem manifesta capacidade de se adaptar a panoramas perturbadores como este, que, no fundo, ilustram a relação próxima que a Suíça sempre teve com a morte.
Essa ideia de morte, manifesta aqui tanto na sombra dos chacais de Hitler, que ainda assombra o país, influenciando a própria essência da personagem, como na mediocridade moderna, na depressão burguesa, na gentrificação na neve em vez de na praia, no abuso emocional ou num mal profundo normalizado, é combatida com o recurso a fenobarbital, afinal uma metáfora da nossa alienação colectiva como mecanismo de sobrevivência.
Há também um desígnio de eterno retorno em Eurotrash, constante na incapacidade de Kracht de interromper o ciclo, sofrendo as consequências da sua culpa enquanto destino (fado, diríamos nós, de um autor português), com o passado eternamente presente na ideia de um futuro pós-Muro de Berlim.
No seu lugar, surgiram apenas centros comerciais — não a liberdade, nem sequer o verdadeiro fim da história —, meramente materializada em objectos fetiche desaparecidos numa conveniente semiobscuridade.
A premissa de Eurotrash, onde o dinheiro é o Mal de que temos de nos livrar a todo o custo, acaba por ser, como nas melhores histórias, o gatilho para a profundidade subcutânea definidora das personagens enquanto medida do real, roçando por vezes o absurdo kafkiano ou a loucura de Hunter S. Thompson — ou talvez ambos.
Embora a realidade social de Kracht, definida por uma vontade de elevação devido à vergonha de pertencer ao proletariado, seja diferente da de Édouard Louis, ambas habitam a mesma Europa desencantada e ambos escrevem a partir desse lugar, com resignação e desesperança.
Também nessa resignação, Kracht estabelece uma ponte com a escrita de Bret Easton Ellis em Menos que Zero, assim como na elegância com que introduz as diversas referências culturais.
Mas, onde Ellis é dolorosamente frio, Kracht revela-se emocional e comovente, oferecendo um quadro de amor não romântico, acompanhando um filho e uma mãe numa viagem movida a vodka, marcada pela insuportabilidade da ausência de sentido, onde a beleza nasce dos dentes de David Bowie, ao longo de uma Suíça tudo menos neutra.
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Christian Kracht
Eurotrash
Relógio d’Água
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário