Empresa algarvia Algarpower envia geradores para ajudar Leiria após a tempestade Kristin, numa resposta solidária às falhas prolongadas de eletricidade.
Os geradores da ainda mal tinham terminado a manutenção pós-festas de final de ano no Algarve e já voltam a ser postos ao serviço — desta vez – numa missão de solidariedade entre regiões.
«Fomos contactados pela direção da E-Redes, face às dificuldades de fornecimento de energia elétrica na zona de Leiria», começa por explicar Pedro Góis, engenheiro eletrotécnico e gerente da Algarpower, empresa com sede nos arredores de Faro.
«Neste momento, há muitas pessoas sem eletricidade, sem água, sem poder retomar uma vida minimamente normal. Era impossível dizermos que não, tendo nós estes meios à disposição», conta ao barlavento, ontem à numa noite, já tarde, numa jornada sem horário de saída previsto.
Mobilização em poucas horas
Um telefonema a meio do dia, na sexta-feira, bastou para começar uma operação inesperada. «Às quatro da tarde conseguimos mobilizar toda a equipa para preparar a logística», conta António Mota, também engenheiro eletrotécnico e corresponsável pela empresa.
Para acelerar a saída, os 16 geradores da empresa começaram a ser concentrados ao início da noite no parque de estacionamento para autocarros do Parque das Cidades, junto ao Estádio do Algarve. Foi necessário contratar um vigilante para assegurar a segurança dos equipamentos até à chegada dos primeiros camiões, prevista para as sete da manhã de hoje, 31 de janeiro.
O plano envolve o transporte dos equipamentos ao longo de sábado para Santarém, onde está a ser montada uma operação de emergência considerada excecional no sector.
Não foi possível sair mais cedo porque «às sextas-feiras, muitas empresas de transportes já não têm motoristas disponíveis porque esgotaram o plafond de horas de condução. Nós temos camiões, mas não temos motoristas», explica Pedro Góis.

O parque mobilizado inclui três geradores de 400 kVA, três de 250 kVA e outros de menor capacidade, até aos 60 kVA, o equivalente a cerca de três semirreboques completos. A empresa fica apenas com um ou dois no Algarve, de reserva, para responder a eventuais imprevistos.
Questionado sobre a razão pela qual está a ser mobilizada uma empresa a mais de 400 quilómetros das zonas mais afetadas, o engenheiro responde com a excecionalidade dos seus equipamentos.
«Estamos a falar de geradores desenhados à nossa medida, com componentes escolhidos e combinados por nós», explica. «Se reparar, são mais altos porque na base têm depósitos de combustível de longa capacidade», acrescenta, o que lhes dá uma autonomia reforçada em comparação a outros produzidos em série.
Este conjunto resulta de um investimento elevado feito nos últimos dois a três anos, «com muito sacrifício e muito apoio financeiro da banca», resume Pedro Góis.
Capacidade para fornecer cerca de 2.400 casas
A explicação é técnica, mas simples. Frente ao painel de controlo de um dos maiores geradores que aguarda viagem, o gestor faz as contas.
«Este produz, em condições ideais, 580 amperes por fase. Se tivermos em conta que uma habitação normal consome, em média, 16 amperes, estamos a falar de cerca de 100 casas. Mas depois entra o coeficiente de simultaneidade».
Na prática, o número sobe porque «nem todas as casas estão no mesmo instante a consumir o máximo. Há casas a cinco amperes, outras a dez. Em rede, este gerador alimenta 150 casas».
Explicado de outra forma: um gerador de 400 kVA tem uma capacidade semelhante à dos postos de transformação instalados em urbanizações, normalmente entre os 400 e os 630 kVA. «Cada gerador alimenta quase uma vila», resume.
Além disso, a Algarpower fornece também os cabos elétricos necessários à ligação de emergência, o que facilita e acelera a resposta de emergência. «Somos projetistas, sabemos exatamente a secção e a dimensão necessárias. É uma solução chave na mão, pronta a funcionar».
Os geradores seguem já abastecidos. Os mais potentes consomem até 50 litros por hora, «mas também produzem muito», sublinha, referindo-se ao funcionamento contínuo, 24 horas por dia, pelo tempo que for necessário.

De Hospitais e lares ao consumo doméstico
A previsão é que os equipamentos algarvios permaneçam na região afetada durante, pelo menos, uma a duas semanas. Hospitais, centros de saúde, lares e consumo doméstico estão entre os destinos esperados. A distribuição, contudo, ficará a cargo da E-Redes, que definirá as prioridades.
«Repare, a tempestade fustigou toda aquela zona na terça-feira e os geradores só chegam hoje, sábado. Um dia sem luz ainda se aguenta. Agora, quatro ou cinco dias sem eletricidade, as pessoas entram em desespero», compara Pedro Góis. «Bastou aquele dia do apagão em Portugal e, ao final do dia, já ninguém se conseguia entender.»
O engenheiro acredita que a E-Redes terá convocado outras empresas do sector. Apesar desta operadora dispor de meios próprios e redundâncias para infraestruturas críticas, a dimensão da emergência em curso exige medidas adicionais.
Hoje os outros. Amanhã, quem sabe, nós
Habituada a trabalhar de forma discreta, a Algarpower fornece energia a festas de verão, festivais, concertos e eventos variados no Algarve. Esta resposta a uma catástrofe natural é inédita, mas foi assumida por toda a equipa. E prova que todo o «investimento que fizemos representa uma mais-valia para a região. E agora serve para apoiar os nossos vizinhos de Leiria», resume Pedro Góis.
Questionado sobre tarifas ou compensações financeiras, o gerente afasta as contas. «Não estou preocupado com isso», garante.
«Na primeira linha, estamos a ajudar. Hoje é com os outros. Amanhã pode ser conosco», conclui.

Rede sofre danos estruturais
Esta mobilização surge num contexto de impacto excecional da depressão Kristin na infraestrutura elétrica do país. Segundo a E-Redes, no pico da tempestade chegaram a estar cerca de um milhão de clientes sem fornecimento de eletricidade, sobretudo distritos de Leiria, Coimbra e Santarém.
Dias depois da tempestade, centenas de milhares de clientes continuavam sem energia, com a reposição condicionada pela extensão e complexidade dos danos. A operadora mobilizou cerca de 1.200 operacionais no terreno, mas admitiu dificuldades acrescidas devido à queda de dezenas de postes e linhas de média e alta tensão.
Em paralelo, a REN informou que a tempestade derrubou 61 postes de muito alta tensão e deixou cerca de 774 quilómetros de linhas fora de serviço, um dos maiores impactos registados nesta rede, o que ajuda a explicar a necessidade de soluções temporárias, venham elas de onde for preciso.