«O recente debate em torno da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento traz ao de cima questões essenciais: que tipo de cidadãos queremos formar?», opina André Pereira Rodrigues.
A escola sempre foi um espaço de aprendizagem, mas também um espelho da sociedade. O recente debate em torno da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento traz ao de cima questões essenciais: que tipo de cidadãos queremos formar? De que forma preparamos os nossos jovens para um mundo diverso e em constante mudança?
O primeiro-ministro anunciou a intenção de «libertar» esta disciplina das chamadas «amarras ideológicas», mas o que isso significa na prática?
Desde a sua criação, em 2017, a disciplina Cidadania e Desenvolvimento tem procurado equipar os alunos com conhecimentos fundamentais para uma participação ativa e informada na sociedade. Temas como direitos humanos, desenvolvimento sustentável, literacia financeira ou educação para a sexualidade fazem parte do seu currículo. E é precisamente este último que tem gerado mais desconforto em alguns sectores.
Algumas famílias alegam estar preocupadas com determinados conteúdos, mas a verdade é que o atual ministro da Educação, quando questionado, não conseguiu apresentar exemplos concretos dessas queixas. Por outro lado, o antigo ministro João Costa vê nesta possível revisão um «retrocesso», e os diretores escolares lamentam que a educação esteja refém de agendas políticas.
No fundo, há algo que não se pode ignorar: a educação para a cidadania nunca será um território neutro. Ensinamos os alunos a respeitar os direitos humanos, a valorizar a diversidade e a agir com empatia. Isso não é doutrinação, é formar indivíduos preparados para a vida em sociedade. E quando certos temas são retirados do currículo, não estamos a torná-lo mais neutro, estamos simplesmente a silenciar vozes e experiências que fazem parte da realidade de muitos jovens.
Imagine um adolescente que se sente diferente, que se questiona sobre a sua identidade e que encontra na escola um espaço onde pode obter informação, compreensão e apoio. Imagine uma jovem que aprende, nas aulas de Cidadania, que ninguém tem o direito de a discriminar ou inferiorizar. Estes momentos fazem a diferença na vida de muitos alunos e são fundamentais para que cresçam confiantes e respeitadores dos outros.
Quando um governo decide «rever» os conteúdos da disciplina por pressão de determinados sectores, o risco é grande: podemos estar a negar aos jovens o direito a uma educação completa e alinhada com os desafios do mundo atual. A escola não existe para reforçar preconceitos, mas sim para abrir horizontes.
No final de contas, o que está verdadeiramente em causa?
Está em causa o direito dos alunos a aprenderem sobre o mundo em toda a sua complexidade. Está em causa a possibilidade de crescerem sem medo, conscientes dos seus direitos e deveres. Está em causa a sociedade que queremos construir: uma sociedade baseada no respeito, na inclusão e na dignidade de todos.
E isso, mais do que uma questão política, é uma questão de humanidade.