Escavação arqueológica numa antiga oficina de camionagem, em Faro, desvenda três sepulturas da cidade romana de Ossónoba. Futuras análises de ADN poderão desvendar se os indivíduos eram familiares.
Os restos mortais de um homem, uma mulher e uma criança, e um conjunto de estruturas romanas foram escavadas pela equipa da ERA Arqueologia durante a campanha de escavação um terreno de 5000 metros quadrados (m2) para um futuro empreendimento imobiliário em Faro.
As três sepulturas estavam juntas e segundo Francisco Correia, gestor do projeto e corresponsável pelos trabalhos, em conjunto com os arqueólogos Camila Lacueva e João Martins, datam possivelmente dos séculos V a VI depois de Cristo.
Ouvida pelo barlavento, a antropóloga Cláudia Maio detalha que as sepulturas terão sido vandalizadas algures no tempo para saquear «pequenas pulseiras, colares, anéis».
«Terão sido alvo de algum tipo de espoliação que levou ao revolvimento e mesmo à destruição de algumas posições anatómicas dos esqueletos, sobretudo, a da criança, que estava muito alterada. Só tínhamos a porção superior do corpo, um pedaço do tórax e o crânio. E também na sepultura da mulher, os ossos estavam todos aglomerados na parte inferior».
Já a do indivíduo adulto, a primeira a ser encontrada e também a que estava em melhor estado «tinha um indivíduo masculino completo, do crânio aos pés, mas verificámos que havia zonas resolvidas».
Em relação ao contexto de vida destas pessoas, a antropóloga admite que «podemos deduzir algum estatuto económico pela estruturação destas sepulturas. Não eram simples valas abertas. Eram cuidadas. Por exemplo, a sepultura do indivíduo feminino, tem um género de reboco em todo o interior preservado. A sepultura do homem é constituída por tijolos intercalados entre si, em várias fiadas e ambas estavam cobertas por grandes lajes que faziam uma cobertura, digamos, mais que monumental», descreve, «apesar de essas lajes serem reaproveitamentos de algumas estruturas que tenham existido nas redondezas».
Seriam familiares? «Gostamos de pensar nisso, não é? Um indivíduo masculino, um feminino e uma criança, ainda por cima, em sepulturas tão próximas e sem termos verificado a presença de outras nos arredores. Mas não podemos concluir nada».
Em termos de particularidades, os ossos mostram «algumas alterações patológicas. Não quer dizer que seja uma doença por si só. Podem ser patologias degenerativas, decorrentes da idade». O homem tinha marcas físicas de ter tido uma vida plena.
Sobre o individuo feminino, «foram preservados a parte das tíbias e fíbulas da perna, o que nos indica que estaria sepultada em decúbito dorsal com os membros inferiores paralelos, à semelhança do que ocorreu na sepultura do homem. Era uma mulher muito jovem, talvez estivesse no final da adolescência ao início da idade adulta, até aos 25 anos, à data da morte. Ainda tinha muito visíveis as linhas de fusão dos ossos, indicativas do desenvolvimento esquelético. Ou seja, os ossos tinham recentemente acabado de se formar e não se verificavam alterações patológicas».
A criança, cujo género não foi possível determinar, «teria vivido entre o nascimento e os seis primeiros meses».
Francisco Correia não descarta a hipótese de se realizarem estudos de ADN e análises isotópicas. «É uma questão interna a considerar. Após os trabalhos de campo, reunimos toda a equipa e vemos o potencial que existe no material exumado e até para o estudo das coleções. Para já, está tudo em aberto».
Num grande trabalho de acompanhamento arqueológico, em Lagoa, na Quinta dos Poços, a equipa da ERA Arqueologia fez datações por rádio carbono e por isótopos «para se perceber a proveniência e a dieta dessa das pessoas que ali estavam sepultadas.
Neste caso, em princípio, não será necessário porque, explica, «através de comparações, conseguimos localizar cronologicamente. No entanto, seria interessante perceber a possível relação de parentesco entre os indivíduos e a origem, se nasceram na região ou vieram de fora», acrescenta o arqueólogo.
Sepulturas estão onde não eram supostos estar
Francisco Correia conhece bem o passado romano de Faro e até já foi surpreendido com alguns achados invulgares, como o dado viciado da Rua Ivens.
«Sabemos que estamos numa zona com potencial arqueológico onde existe um Convento seiscentista (de Santo António dos Capuchos) a poente, e a nascente, fica a zona onde foi encontrado o mosaico do Deus Oceano, hoje um tesouro nacional», descreve.
As primeiras sondagens de diagnóstico tiveram lugar em dezembro de 2022. Dada a grande dimensão do lote, «propomos ao dono de obra fazer prospeção geofísica em toda a área possível do terreno do imóvel, para conseguirmos perceber onde poderiam estar os vestígios e assim concentrar a atenção nas zonas com maior potencial».
«Conseguimos desde logo perceber que os vestígios romanos estavam na metade sul», recorda.

Ainda assim, foram feitas sondagens no lado norte, embora, sem sinal de possíveis estruturas.
A prospeção foi feita através de um aparelho (método da resistividade eléctrica) que realizou leituras com intervalos de 20 centímetros (cm), apontando para profundidades até 1,5 metros.
Identificadas as condutas de saneamento, os reflexos de pedra (estéril), os contextos começaram a surgir a cerca de 80 cm. A sepultura surpreendeu os arqueólogos.
«Sim. Porque nos estudos que se têm feito, em princípio, aqui estaríamos numa zona talvez habitacional ou então mais ligada à parte industrial. Há muitos vestígios de salgas. O Largo da Madalena seria a entrada a entrada da área urbana da cidade de Ossónoba. As sepulturas identificadas estão na zona das Figuras, junto do Teatro Lethes, próximo da Ermida de São Sebastião e do Pavilhão da Escola D. Afonso III. Esta quase que entra dentro da malha urbana».
«Portanto, é normal termos necrópoles do século III depois de Cristo, mais a norte, e passado 300 anos, já estão aqui», o que mostra o crescimento e declínio de Ossónoba.
As sepulturas do homem e da mulher, «estavam tamponadas com laje em pedra calcária, que são aproveitamentos estruturais de ombreiras e partes de bases das portas de algum edifício mais emblemático que haveria aqui na zona», teoriza.
Especulando, «o edifício mais monumental aqui perto que temos conhecimento seria a possível casa onde estava o mosaico do Deus Oceano», descoberto na década de 1920, reenterrado e apenas encontrado de novo em 1976.
E é invulgar haver apenas três sepulturas? «Não é insólito. Gostamos sempre de acreditar que uma sepultura nunca está só, não é, mas isso também não é verdade. Às vezes existe enterramento de um indivíduo isolado», conclui.
Um possível edifício fabril
Durante as escavações, a equipa exumou centenas de objetos do quotidiano da vida romana, «desde restos de cerâmicas comuns, de cozinha, também de ânforas, um dado feito em osso, pregos, alfinetes, uma colher, ânforas, talhas e muitas peças de sigillata decorada (de várias origens, sobretudo da Sudgálica e Hispânica), um tipo de cerâmica de qualidade associada às elites. «Muitas com representações animalescas e mitológicas, temos uma que mostra bem a deusa Vitória», diz Francisco Correia.
Entre as moedas encontradas, destaca-se uma cunhada no reino do imperador Constantino I, o Grande (307-337). E também «temos a utilização de ossos de animais para a produção de alfinetes de cabelo», sublinha.
Questionado sobre a hipótese de aparecer um outro grande mosaico, o arqueólogo responde que «recolhemos quase uma centena de tecelas. Não posso dizer que ele existe, mas já existiu, certamente nas imediações» ou talvez tenha sido destruído aquando da urbanização recente, já no século XX.
Numa zona do terreno mais a sul das sepulturas, foi encontrada uma estrutura romana junto à qual os arqueólogos escavaram restos do que poderia ter sido produção metalúrgica e sobretudo, uma grande concentração de búzios esmagados, material de onde se extraía um pigmento para produção de coloração têxtil.
«Falta o tanque para podermos dizer que seria uma fábrica de tinta. Em outras intervenções arqueológicas ocorridas nos últimos anos nas proximidades apontam para a possível existência de um edifício de produção de tingimento de tecidos. Estes trabalhos reforçam essa teoria», sublinha Francisco Correia.
«Até conseguimos encontrar um pigmento de coloração cor-de-rosa agarrado a um pedaço de argila».
Intervenção arqueológica é exemplo de boa prática
Neste momento, a equipa da ERA Arqueologia terminou a terceira fase de escavações e está agora a fazer o tratamento do material recolhido para que o promotor da obra possa avançar para a segunda fase do processo, uma vez que ainda não foi feito o pedido de licenciamento à Câmara Municipal de Faro.
«Quisemos realizar os trabalhos de arqueologia antes de dar entrada do projeto na autarquia», referiu o representante do promotor da obra, Joaquim Ferreira, sublinhando que o projeto ainda está numa fase de estudo prévio e que este deveria ser o procedimento a adotar na legislação.
«Por norma, em Portugal não é feito desta maneira. É primeiro submetido o projeto na Câmara e depois faz-se campanha de arqueologia em função disso. Muitas vezes o que acontece é, em fase de obra, encontrar-se qualquer coisa e de repente tudo tem de mudar. Tínhamos a noção que esta zona é muito fértil e quisemos mitigar as incertezas. Agora temos tudo identificado. Acho que este devia ser o standard», opinou.
Por sua vez, Miguel Lago, diretor executivo da ERA Arqueologia, concorda com a estratégia, que pode ser uma boa prática a replicar noutras empreitadas em zonas de elevado potencial arqueológico. Isto é, iniciar-se primeiro a arqueologia, para evitar «sobressaltos» e imprevistos no decorrer das obras.
A empresa, que já soma cerca de 80 colaboradores, tem uma equipa de seis pessoas afetas ao Algarve, onde está a desenvolver vários trabalhos.

«Cerca de 95 por cento da arqueologia de campo está relacionada com obras e a verdade é que a arquitetura urbana no Algarve está bastante controlada, há muito rigor e cuidado por parte das câmaras. Diria que o Algarve é das regiões onde há uma uniformização maior ao nível dos procedimentos, sobretudo no espaço urbano. No espaço rural é que há mais problemas, existindo muitos projetos que escapam ao radar dos estudos de impacto ambiental e dos licenciamentos», ao contrário do que está a acontecer no Alentejo, sobretudo ao nível dos grandes projetos agrícolas e energéticos.
Em jeito de conclusão, Lago assinalou que neste caso, «a articulação com os técnicos da autarquia de Faro e com a tutela da cultura foi plena. Acompanharam todo o processo, as sondagens de diagnóstico, os resultados geofísicos e concordaram. Portanto, funcionou tudo muito bem».







