Já dizia o nosso Eça de Queiroz, observador perspicaz da vida social e das diferentes personalidades, que as aparências não dizem tudo, mas já dizem muito.
Surpreendido o país com a crise política e suspensos os portugueses neste folhetim judicial envolvendo as altas esferas do poder, talvez fizesse falta a ironia de uma pena queirosiana a lançar umas farpas a esta autêntica ópera bufa protagonizada pela atual maioria governativa.
Neste pano de fundo, como se estivéssemos perante uma galeria de personagens de uma peça trágico-cómica, talvez o humor seja o melhor refúgio destes malfadados dias.
Longe de mim querer pesquisar vestígios de idiotia inteligente próprios de um delfim, protegido do primeiro-ministro, ou de narcísica afirmação guerreira em Galamba, apesar dos dois socos que prometeu a um seu assessor. Ou esforçar-me por ver em Matos Fernandes, ex-ministro do Ambiente, uma genuína vocação ecologista, própria de um amante da natureza; ou encontrar traços fisionómicos do tipo interesseiro, reveladores de chico-esperto, em Vítor Escária, escudado está pelo refinado gosto e fino tacto de folhear livros. Nasceram lambidos, pobres de espírito, filhos da angústia de ter e depressa querer.
Assim, e uma vez que a coisa está muito personalizada, como o próprio Presidente da República reconheceu, ao personificar a conquista da maioria absoluta do PS no seu líder, António Costa, (cá para mim não foi bem assim, foi mais o medo do Chega no poder e as hesitações do PSD que originaram a atual maioria). Esqueçam os programas políticos e debrucem-se numa aprofundada análise da Persona dos atuais e futuros líderes e cabeças de lista nas próximas legislativas.
Como vamos ter muito tempo para pensar, sugiro que possamos avaliar de modo o mais objetivo possível o fácies, a postura e as maneiras, o vestuário também se acharem por bem, apesar de aqui ser mais difícil, pois na política e na televisão andam todos metidos dentro de fatos, a não ser que saibam distinguir qualidades do tecido e marcas; já com as mulheres será mais fácil, temos muitos estilos, do informal e juvenil ao tailleur saia e casaco, passando pelo clássico calça/casaco.
Qual será a nossa preferência: pelo estilo penteadinho, ar certinho, podendo ter barba ou não, mas sempre bem aparada, ou pelo estilo mais despretensioso, o cabelo um pouco desalinhado, preferindo por vezes a camisa sem gravata… Por exemplo, a barba maior e o cabelo um pouco mais comprido e levantado à frente de Pedro Nuno Santos poderá significar alguma rebeldia e maior ousadia política…
Nas duas principais forças políticas, PS e PSD, a análise é mais complicada, é que se o Montenegro apelidou este orçamento de betinho, nós olhamos para ele e não percebemos bem…
A propósito, o rosto do Venturoso, que promete um Portugal novo ao virar da esquina, que tipo de personalidade revela…
E qual é o líder partidário, vindo do mundo sindical, em pleno esforço de afirmação, que afirmou que a Rússia era um cão atiçado para justificar a posição do partido em relação à invasão russa da Ucrânia…Não, não, a Rússia de Putin é um cão raivoso que morde a vizinhança e não um cão atiçado.
E qual a jovem líder, séria, pouco sorridente, serenamente assertiva, de fronte altiva própria de uma mulher inteligente e combativa…
Vão pensando.
Rui Tavares, de perfil acentuadamente intelectual, dificilmente irradiará o brilho iluminado das ideias até à província. É um bom voto, mas está circunscrito a Lisboa, a um eleitorado marcadamente urbano, culto e citadino.
Quanto à Iniciativa Liberal, o atual líder encaixa num perfil jovem bem-parecido, entre o empresário e o professor universitário. Afirma-se pela novidade. Mas o cartaz desta força política, à saída de Faro, na 125, com o dizer Nos países liberais os trabalhadores ganham mais, recorrendo a uma imagem anacrónica ao melhor estilo de propaganda soviética ou nacional-socialista do século passado, não colhe em quem sabe de História.
O PAN, creio que veio para ficar, resolvidos os problemas internos. Na região apresentou algumas boas propostas na área do ambiente.
Aguardemos pelos candidatos a deputados pelo círculo de Faro para nos debruçarmos mais aprofundadamente sobre a anatomia do voto.
Neste presente cão, resta-nos a resiliência diária, já que a outra envolta no céu nebuloso dos milhões é uma abstração.
E despeço-me com o imperdível Eça, numa passagem do texto «a Coimbra de Antero» (edição Alma Azul) «… e a banalidade tinha a estima do Governo por ser uma condição da docilidade, e os melhores bens se obtinham pela intriga e o favoritismo, …».
