O Cinema é admirável concentrado de vida, intensificador de emoções e paixões, onde melhor se pode aprofundar a complexidade humana.
Cinema sempre! Poderia ser um slogan ou desesperada palavra de ordem gritada em nome da resistência do Cinema, num presente de crise para a exibição cinematográfica com o número de espectadores em acentuado decréscimo e muitas salas em espaços comerciais a fechar.
Dados da exibição de cinema no distrito de Faro, em 2024, segundo estatística do Instituto do Cinema e Audiovisual registam 664.984 que viram filmes em sala, enquanto em 2019, ano anterior à pandemia de COVID-19, foram 949.259 espectadores.
Mas o cinema resiste!
Paradoxalmente, talvez nunca se tenham produzido tantos e tão bons filmes como no presente, provenientes dos mais variados universos culturais e diferentes latitudes geográficas. Difícil é ter tempo para tanta oferta!
Num momento crítico em que muitas salas nos centros comerciais do Algarve fecharam (Albufeira, Tavira, Portimão fechou e reabriu) é de salientar a boa programação do Forum Algarve, em Faro, que passa filmes que habitualmente associamos ao circuito alternativo dos cineclubes.
Agora que se aproximam os Óscares, dá-nos a possibilidade de ver os filmes candidatos a essa festa maior de Hollywood a bom preço. O cinema está caro!?… Mas tudo está caro. O teatro e os concertos ainda mais, os produtos no supermercado também, jantar fora é um luxo.
Sortilégios do acaso… há tempos quando ia ver um filme recente, deparei-me com o cartaz do Shining, o qual andava para rever em casa em versão DVD, coisa que já raramente faço. Nunca fui adepto de filmes de terror, mas como resistir à reposição do filme de Stanley Kubrick, no grande ecrã… deliciosa surpresa, proporcionada pelos cinemas NOS neste espaço comercial.
Aliás, não gosto da distinção entre cinema comercial e cinema alternativo. Pois temos bons e maus filmes, com mais ou menos marca de autor, menos ou mais criativos, exibidos em ambos os contextos, seja numa sala comercial ou em sessões de cineclubes, apesar destes ousarem a programação de pequenas produções e cineastas que dificilmente mostrariam as suas obras se aí não fossem exibidos ou nas mostras e festivais de Cinema.
A Sotavento temos, em São Brás de Alportel, a excelente programação do Cinema Lua, associação que programa os filmes mais atuais e criativos, a par de intemporais pérolas cinematográficas.
O Cineclube de Faro, um dos mais antigos do país (1956) e o de Tavira, mais recente, ambos com uma atividade regular e dinâmicas cinéfilas que vão além da exibição. Em Olhão, a Associação República 14, também exibe, com alguma regularidade, filmes e ciclos temáticos de cinema ao ar livre.
Autarquias há que procuram colmatar o vazio cultural da ausência do cinema em estreita colaboração com associações, ou por iniciativa própria, programando sessões regulares nos seus cineteatros e auditórios municipais.
É o caso de Loulé, Olhão, Tavira, São Brás de Alportel e Silves. Em Vila Real de Santo António (VRSA), o município também anunciou recentemente que vai passar a ter sessões mensais de cinema.
Já quem vive a Barlavento e gosta de Cinema tem menos sorte.
O Cinema como arte narrativa é o equivalente ao romance em literatura. Admirável concentrado de vida, intensificador de emoções e paixões, onde melhor se pode ler o tempo contemporâneo e aprofundar a complexidade da natureza humana.
Paulo Penisga | Professor