Ponto de passagem e pernoita de caminhantes, em Vaqueiros, o alojamento Casas da Aldeia teve o apoio de fundos europeus para se tornar num modelo a seguir para quem quiser investir no interior do Algarve.
O cantar do galo ao fundo do horizonte, um alpendre florido com vista para a igreja seiscentista, e o respirar de um ar impoluto, descrevem a paisagem de Vaqueiros, no concelho de Alcoutim. Natural daquela freguesia, onde os pais ainda hoje têm uma casa de pasto com o seu apelido, Olga Teixeira dedicou a vida profissional à educação. É professora adjunta convidada na Universidade do Algarve (UAlg) onde dá formação a professores. E é também a empreendedora das Casas da Aldeia.
«Com o surgimento da Via Algarviana, começaram a aparecer aqui em Vaqueiros turistas que não tinham onde ficar. No início, nós ficávamos sem saber o que lhes dizer, porque às vezes chegavam de noite, de mochila às costas. Muitas chegaram a dormir em tendas nos nossos quintais e armazéns», começa por contar.
«Tinha aqui um espaço que foi o anterior escritório do meu marido e que ficou desocupado. Então, fomos incentivados» por Anabela Santos, da Associação Almargem, entidade promotora da Via Algarviana, a Grande Rota Pedestre que dá a conhecer o Algarve interior, de Alcoutim ao Cabo de São Vicente, «a legalizar aquele espaço para ficar acessível aos caminhantes». O primeiro quarto ficou disponível em 2014.
«A verdade é que foi sempre crescendo e achámos que valia a pena ampliar porque havia muita procura. Começámos aos poucos, pois isso tem a ver com a nossa forma de estar e de fazer as coisas. Primeiro é perceber se é possível, ou não, concretizar o negócio e investir com mais segurança».
Neste aspecto foi «determinante» o apoio do CRESC Algarve 2020. De um montante de 74.954 euros de investimento elegível, o projeto recebeu um financiamento de 44.973 euros de fundos europeus.
«Sim, isso foi importantíssimo porque de certa forma permitiu-nos concretizar o Alojamento Local num espaço de tempo muito mais curto do aquele que ambicionávamos. Com a aprovação da candidatura foi possível avançar com mais rapidez para a construção de um espaço que estava em ruínas. Foi muito facilitador. Por outro lado, permitiu criar dois postos de trabalho a tempo inteiro e criar as condições para recebermos os nossos hóspedes com qualidade», em 2018.
Perfil do turista de natureza
Começou por ser um lugar de pernoita e ainda é. «Temos algumas empresas turísticas que trabalham connosco, muito bem organizadas, conforme as necessidades dos grupos», como a Proactivetur, sediada em Loulé, especializada em turismo responsável, nas vertentes de ecoturismo e turismo criativo, a Janela D’aventura, de Boliqueime e a Algarve Cycling Tours, de Faro.
A ocupação dos seis quartos depende muito da altura do ano. «A primavera e o outono são sempre épocas em que temos muitos caminhantes, muitos turistas. No inverno, nem tanto e no verão são muito poucos, porque esta zona é muito quente e não é recomendado que se façam caminhadas».
E durante a época alta, a serra pode ser uma alternativa ao litoral? «Houve um período em que tivemos o nosso alojamento disponível na plataforma Booking. Recebíamos muitos turistas que vinham porque… nem sei porquê. Viam as fotografias, gostavam e queriam conhecer o espaço. Depois, achei que não era necessário e encerrei essa conta. Agora temos um público já mais restrito que vem através das empresas, ou que nos conhece, ou então recebemos pessoas que estão a trabalhar na zona e ficam no nosso espaço. No verão, o fluxo é diferente. São profissionais que precisam de ficar cá, o que não deixa de ser interessante», revela.
Em relação à faixa etária dos hóspedes, «nunca fiz um estudo, mas são sobretudo pessoas de meia-idade, entre os 40 e os 60 anos. Por norma são casais, ou então, homens ou mulheres sós. Há muitas pessoas a caminhar sozinhas. Imensas. Se calhar, para a nossa cultura, não é muito normal uma senhora ou uma rapariga fazer um percurso destes só. Mas recebemos aqui muitas senhoras sós. E gostam», diz.
A origem dos hóspedes é sobretudo dos países do norte da Europa, possivelmente onde existe tradição de pedestrianismo. «Estão habituados a caminhar e querem conhecer todo o lado cultural», da paisagem.
Em termos de nacionalidades, vêm sobretudo dos Países Baixos e Alemanha», embora também existam outros fatores que contribuem para o fluxo de visitantes. «Imagine que passa por aqui um jornalista que faz uma reportagem e publica numa revista do seu país. A seguir, recebemos muitas pessoas desse país. O trabalho deste tipo de comunicação tem muita influência. Sei que há tempos passou por cá um jornalista alemão. Não tive acesso ao que publicou, mas a verdade é que a seguir, tivemos um fluxo muito grande de alemães que ainda está a durar. Talvez tenha feito um excelente trabalho. Mas sim, tem muita importância para nós o facto de passarem pessoas por cá e levarem a mensagem».
Curiosamente, o Reino Unido, principal cliente do Algarve, não é muito visto por estas paragens. «Nem tanto. São sobretudo alemães e holandeses e houve uma altura em que recebemos muitos dinamarqueses», nota.
«Posso dizer que são pessoas extramamente simpáticas. É um tipo de turista muito predisposto para o diálogo e para questionar. Posso fazer esta comparação. O tipo de turista que chegava através do Booking era completamente diferente. Este turista da natureza tem uma forma de estar diferente, muito interessada» no que tem ao redor.
Neste momento, Vaqueiros já começa a ser conhecido. «Estamos a receber muitos repetentes e também pessoas que já ouviram falar, através do boca-a-boca. A abordagem que fazem nos e-mails é reveladora. Fazem perguntas informadas, pedem merenda para o dia seguinte, perguntam se é possível preparar o jantar. E às vezes até pedem o quarto que querem ficar. Isso é de quem já sabe».
Nos quartos e espaços comuns, há peças de mobiliário que eram de família e foram recuperadas. «O antigo traz uma história e é bom misturar isso com a história que estamos a criar agora», compara. Apesar deste alojamento não ter aspirações a crescer, Olga Teixeira ambiciona, no futuro, construir uma pequena piscina «que nos permitirá dar uma oferta com mais qualidade nos períodos mais quentes».
Refeições caseiras e familiares
Na Casa de Pasto Teixeira, a meio da manhã, acendem-se as brasas para o almoço. Não tarda, começa-se a grelhar a carne, já temperada com alho, louro e tomilho. Este é um apoio fundamental, para quem está hospedado. «A questão das refeições pode ser problemática. Porque ou a minha mãe faz, ou então, as pessoas não têm onde comer porque não há um restaurante em Vaqueiros. Portanto, fazemos uma gestão muito familiar. Tenho de garantir que as nossas duas colaboradoras estão a ajudar, mas preciso que a minha mãe esteja a orientar. Para mim é uma preocupação, sinto que é um esforço acrescido. Mas para os nossos hóspedes, é muito agradável. Gostam muito da experiência, pois é algo muito genuíno. Vão provar comida caseira, com muitos ingredientes locais, uma forma diferente de cozinhar, sem pressa. Isso é muito apreciado», admite Olga.
Na verdade, «há uma condição. Aqui come-se o que há e o que é possível preparar no dia». Num mundo a la carte, «essa ideia é muito bem recebida. Por exemplo, ao almoço, é sempre possível fazer um cozido de grão. Tudo é sazonal, servimos favas ou ervilhas quando é o seu tempo. Ao jantar, estamos mais limitados. Terá de ser uma carne no tacho à moda daqui. Sopa há sempre. Também é normal os hóspedes verem a minha mãe passar com uma alface na mão que foi buscar ao quintal. Percebem que a vai preparar para eles. É comida de família. E por norma, a refeição coincide com a da família e podem ver que comem o mesmo que nós. Acho que esta proximidade só se consegue em sítios assim e nem todos», reforça. Mesmo que não passem pela Casa de Pasto, «as pessoas não podem sair sem um bom pequeno-almoço, esse foi sempre um princípio».
Há um «potencial incrível» no interior
Um dos objetivos associados à criação da Via Algarviana é impulsionar novos negócios capazes e trazer um novo impulso económico e sustentável aos territórios que atravessa. Olga Teixeira concorda e diz que o seu negócio pode ser um caso exemplar. «Acho que sim. Mas é preciso querer, ter vontade e motivação. Acho que ainda falta muita coisa. Não se trata apenas de haver alojamentos. Temos de ter outras alternativas. Acho que valia a pena, sobretudo com as pessoas que vivem aqui e que estão cá de forma permanente, terem outro tipo de iniciativa. E não estou a falar em grandes investimentos, até porque não são necessárias coisas megalómanas, tudo tem de ser adequado ao contexto e à nossa realidade. Por exemplo, não há um sítio onde as pessoas possam parar para tomar uma bebida ou comprar o que comer. Faz falta tudo isso, um restaurante, uma pequena mercearia. E poderia haver outro tipo de percursos circulares organizados por empresas locais. Há tanta coisa interessante para ver aqui, que podiam ser visitadas e exploradas. Penso que falta capacidade empreendedora e iniciativa. Há um receio de arriscar».
Assim, «seria necessário criar algumas estruturas de apoio que dessem alguma tranquilidade às pessoas, que sentissem que podem investir um pouco. Falta todo esse trabalho de informação que as ajude a serem empreendedoras e a perceberem que há um leque de oportunidades incrível» no interior algarvio.
Mas mesmo um alojamento com seis quartos «não pode ficar em autogestão. É preciso estar em cima do acontecimento todos os dias, perceber se hóspedes gostam» para que nada falhe. E reforça que «nós nascemos por causa da Via Algarvia. Senão, provavelmente, não existiríamos. Sempre gostei de receber pessoas e de criar espaços agradáveis e confortáveis, mas se não tivesse público, porque é que iria fazer este investimento em Vaqueiros?», interroga. Sem querer fugir à questão, tem alguma dificuldade em quantificar. «Não posso porque não fiz um pedido ao banco para construir isto. Nasceu passo a passo, com uma gestão muito cuidada e ponderada», sintetiza.
Desertificação difícil de explicar
Para muitos hóspedes, Alcoutim é o ponto de partida para percorrer a Via Algarviana. Há quem faça o caminho todo de seguida e quem prefira dividir por etapas. Seja como for, há um feedback consensual e generalizado.
«Em relação aos percursos, embora gostem e apreciem, queixam-se do isolamento das longas distâncias sem ver nada nem ninguém», observa Olga Teixeira. «Acho que os deixa curiosos. Questionam muito o porquê desta desertificação. Porque é que isto acontece? Porque é que as aldeias, as vilas e os montes estão vazios? Porque é que não há crianças nem pessoas ali a viver?». Por norma, «são pessoas muito sensíveis a esta questão. Claro, a outra dimensão, a da natureza, acham maravilhosa».
Sobre a gigantesca central solar fotovoltaica nas proximidades, os hóspedes «não fazem comentários nem apreciações. Quando o parque solar se iniciou, tivemos a preocupação de alertar que as pessoas não vêm para cá para ver painéis. Alterou-se a rota e de alguma forma conseguiu-se minimizar um impacte que seria muito negativo», diz.
Segundo os dados definitivos dos Censos de Portugal em 2021, disponíveis no portal Portada, a população residente no concelho de Alcoutim é de 2.523 pessoas, sendo que 19,4 por cento vive só. 1.199 são idosos com mais de 65 anos. A densidade populacional é de quatro pessoas por quilómetro quadrado (km²). No mesmo ano, estavam registados quatro alojamentos turísticos. Também a empresária tem dificuldade em perceber esta realidade.
«Compreendo que as pessoas procurem outros locais onde os seus filhos cresçam ou onde possam ter trabalhos diferentes dos que teriam aqui. Mas o que me faz confusão é que quando saem para o litoral ou para o estrangeiro, não voltam nunca mais. Deixam cá as casas das suas famílias e todo um historial vivido. Não regressam ao fim de semana nem nas férias. Na verdade, não consigo perceber este fenómeno. Vivo em Faro, mas venho sempre que posso. Se me perguntar se estou bem aqui? Estou. Pode parecer contraditório, mas ficar aqui nesta paz, não tem preço».
Pandemia e flutuações na agenda
Antes da pandemia de COVID-19, «tínhamos a nossa agenda completamente cheia, os seis quartos todos reservados para vários meses. De um dia para o outro, as reservas começaram todas a cair. Ainda restaram algumas e fui eu que disse às pessoas para não virem. Foi a fase da grande incerteza. Ninguém sabia o que iria acontecer e havia medo. Estivemos dois meses fechados. Depois, houve a indicação que os alojamentos podiam trabalhar e isso coincidiu com a construção do parque solar vizinho. Portanto, esteve sempre cheio nesse período. Muitas empresas espanholas e algumas portuguesas alojaram e ainda alojam aqui os seus técnicos», recorda. «Ajudou a equilibrar esse impacto». No final de 2022, «não tinha grandes reservas para 2023. Mas noto que no final de 2023 já tenho muitas para 2024. Ou seja, está a retomar-se o hábito de agendar a longo prazo».







