Olhamos para esta «rapariga de Sagres», como se define, e notamos imediatamente uma vitalidade que a faz parecer mais nova do que os quase 43 anos de idade que já conta. Carla Cabrita tem formação académica na área de comunicação empresarial e relações públicas, mas decidiu regressar às origens, há cerca de dez anos.
Carla Cabrita – Nasci num restaurante e, por isso, sei que o tempo que temos para dar atenção aos filhos é muito pouco. E sempre tive o bichinho da natureza. Mesmo em Lisboa, trabalhei em projetos ambientais. Numa viagem à Patagónia argentina, tomei consciência da força do turismo da natureza e apercebi-me de que tínhamos aqui um parque natural quase inexplorado. Havia alguns guias que trabalhavam com agências de viagens do mercado alemão, levando alguns turistas a fazer passeios a pé, mas não numa vertente aberta ao público em geral. Um amigo atiçou-me e comecei a fazer várias formações na área do turismo da natureza e da flora e surgiu o sonho de ser guia de natureza. Mas a legislação era muito complicada e o licenciamento caríssimo e acabei por desistir.
barlavento – Mas, atualmente, está a praticar a profissão a tempo inteiro. Que aconteceu entretanto?
Há cerca de cinco anos, a legislação mudou e deu-me a possibilidade de ser empresária em nome individual, que facilitava o processo. Avancei e criei a Walkin’Sagres, para fazer passeios guiados na Costa Vicentina.
Recordo que, nessa altura, tinha outro emprego e era guia muito esporadicamente, porque não havia muitas pessoas interessadas. O que mudou, nestes cinco anos?
Mudou tudo, quase drasticamente. Na altura, guia individual com os seguros, a licença por parte do Turismo de Portugal, o reconhecimento do Turismo de Natureza, tudo muito certinho, penso que era a única na zona. Os operadores turísticos são muito rigorosos nisto e comecei a ter procura por parte deles e, também, por clientes individuais.
Foi fácil singrar numa área que despontava?
Também tive a sorte de, no ano em que me iniciei, vir a Sagres uma jornalista do guia de viagens Lonely Planet, que revisita os locais a cada dois anos. Encontrou os meus folhetos e ficou encantada. Veio ter comigo e ficou de me ligar, seis meses depois, para ver se tinha desistido ou ia continuar. Quando me ligou, já eu tinha tido os primeiros clientes e disse-lhe que ia continuar. Fui incluída na edição. Quando regressou, voltou a caminhar comigo e destacou a empresa, o que me deu uma projeção muito grande. A partir daí, a procura aumentou e, no ano passado, abandonei o outro emprego e sou guia da natureza a tempo inteiro.
O que é que um turista da natureza procura?
Eu trabalho com os ecoturistas, pessoas com grande consciência ambiental, preocupados com a sustentabilidade e procurando o que é autêntico. Desejam muito saber como vivemos aqui, as nossas histórias e tradições e conhecer o território. Estão habituadas a viajar pelo mundo inteiro e têm grande ligação à natureza. E nota-se que pretendem sair daqui conhecendo o povo, os seus costumes, as suas alegrias e as suas dificuldades.
Mas também vêm à procura de fauna e flora?
Fauna, flora, paisagens. Muitos vêm só pela paisagem, o que é muito curioso. Eu acabei por especializar-me em flora.
Especialização que a levou a escrever e publicar um livro sobre a matéria. Conte lá como aconteceu?
Somos duas autoras, eu e a Ana Luísa Simões, que tem trabalhado muito na área da sensibilização ambiental e como guia de natureza. É do Porto, mas veio viver para Odemira e já tinha a paixão pela Costa vicentina, porque vinha para cá passar férias. Foi ela quem me lançou o desafio. Como já cá tinha o bichinho, metemos mãos à obra. Tínhamos fotos das plantas que mais encontramos no campo, fizemos uma seleção e começámos a pesquisar e a escrever sobre elas. Aqui, tivemos a ajuda inestimável do coronel José Rosa Pinto, que trabalha no Herbário da Universidade do Algarve, que reviu os textos e nos aconselhou a nível das obras que devíamos consultar. Foi uma peça fundamental na parte científica da obra, porque nenhumas de nós é botânica.
O livro foi feito para o público, mesmo com poucos conhecimentos de flora?
Sim, é de fácil consulta. Quando encontramos uma espécie desconhecida, não sabemos o nome científico ou a que família pertence. Por isso, o livro está organizado por cores, que é uma forma fácil de chegar à planta, em função da cor da flor. A partir daí, tenta identificar através das fotografias e, nos textos, tentamos dar curiosidades sobre as plantas, mas também dar explicações que complementam a foto. É muito fácil de levar para o campo e de manusear.
Está a ser vendido onde e por quanto?
O preço de venda ao público são 22 euros e estamos a vender na FNAC, na livraria da Ria Formosa, em Lagos, na Loja do Viajante, em Lisboa, em várias livrarias do Porto, em Évora. Está muito bem espalhado. Também pode comprar diretamente a nós, sendo o custo de envio por nossa conta. O livro chama-se «200 Plantas do SW Alentejano & Costa Vicentina» e o e-mail é [email protected]