Caetano Ramalho, um alentejano de Reguengos de Monsaraz, 39 anos, viveu os últimos 10 em Portimão, integrado na Unidade de Controlo Costeiro da GNR. Paralelamente, pinta e expõe as suas telas, encontrando-se representado na exposição coletiva a decorrer na galeria da Adega Única, em Lagoa. Um talento escondido entre nós, embora já com algumas exposições regionais no seu currículo. No corrente ano, voltou aos antigos Paços do Concelho de Lagos. Entretanto, já foi descoberto por um casal de professores universitários americanos, que adquiriram um dos seus trabalhos e tentam promover a exposição das suas obras, em Washington, possivelmente em 2017.
barlavento – Como surge a pintura na sua vida?
Caetano Ramalho – Sempre tive algum jeito e já desenhava no secundário e na tropa. Entre 1998, quando entrei para a GNR, e o ano 2000, por falta de tempo e pela profissão em si, acabei por desligar essa veia artística.
E quando é que voltou a dedicar-se?
Quando comprei casa em Portimão, lembrei-me de fazer alguns quadros a óleo para decorá-la. Ao vê-los, familiares e amigos começaram a pressionar-me para me dedicar mais à pintura, dizendo-me que não estava a dar uso a uma qualidade inata. E foi assim que me decidi. Além disso, os horários atuais concedem-me mais tempo do que no passado. Passei 2 anos a pintar em MDF (papel prensado que faz lembrar o contraplacado), mas desisti, porque empena e é um material duro e pesado. Pinto em tela desde 2012.
O Caetano Ramalho frequentou aulas ou é um autodidata?
Tive algumas aulas com o pintor Gustavo Fernandes, em Lisboa, mas desisti, porque era longe e eu não tinha possibilidades de lá ir semanalmente, como gostaria, para ter a evolução que pretendia.
Quais são as suas influências?
Quem pinta surrealismo vai sempre buscar um pouco a Salvador Dali. Depois, é um misto de influências de outros pintores surrealistas cujo trabalho que vou vendo, seja em revistas, seja na internet. Mas, no final, acabo por trabalhar de acordo com o que eu gosto de fazer. No naturalismo, gosto muito de vida selvagem e vou buscar inspiração a documentários que vejo, às paisagens do Alentejo, a ideias que me surgem de repente e depois ficam a amadurecer cá dentro.
É engraçado que se refira às paisagens alentejanas, porque o Alentejo, para muita gente, é sinónimo de monotonia…
O Alentejo talvez seja a única região de Portugal que, em muitas áreas, está intocada. Depois, na Primavera, apresenta tons estrondosos. Mesmo no Verão, com os dourados e os amarelos, é muito bonito. Parece monótono, mas tem uma grande diversidade de vida selvagem. Quem passear por lá, apercebe-se de que há muitos pormenores que podem ser trabalhados e isso toca os artistas.
Como se define, enquanto pintor?
Gosto do naturalismo, embora também me atraia muito o surrealismo. Penso que, ao aliar o surrealismo ao realismo, se conseguem resultados fantásticos de imaginação. É essa técnica que tenciono explorar mais, ao longo do tempo, pois quero que venha a ser a minha imagem de marca.
Vai continuar ligado à Natureza?
Sim, porque é um tema que me agrada muito. Penso aliar a vida selvagem ao surrealismo, no futuro. Quero explorar a fauna alentejana: lebres, águias, raposas. E a flora também é única.
Vive no Algarve, tem uma atividade ligada ao mar, mas não o vemos representado nos seus trabalhos. Não o atrai?
Atrai-me muito e já o pintei. Mas não tenho tampo para fazer tudo e, para fazer um género de pinturas, tenho de deixar outros para trás. Há de ser algo para pintar no futuro, quer seja o mar em si ou aliado a outra temática. A principal razão para concorrer ao serviço marítimo foi o meu amor ao mar. Então, ao nascer e pôr-do-sol, tem uma luminosidade maravilhosa.
A arte é linda, mas é necessário vender para continuar. Já ouvimos queixas de vários artistas de que as vendas não correspondem às expectativas. É esse o seu caso?
Não me posso queixar. Nesta última exposição, vendi razoavelmente bem, o que me deu ânimo para continuar a pintar. E tenho vendido fora das exposições, a pessoas que já conhecem os meus trabalhos. Quando pintava em MDF, vendia menos, mas já percebi que era por causa do material-base. Desde que passei à tela, as vendas dispararam.
E os compradores são nacionais ou estrangeiros?
É ela por ela. Pensei que os estrangeiros pudessem comprar mais, por terem maior poder de compra, mas os portugueses também compram. Mas não os algarvios que, segundo outros artistas já me confidenciaram, estão pouco interessados em arte, preocupando-se mais com a marca e as características do próximo telemóvel que vão adquirir. É uma questão cultural.