O secretário de Estado da Digitalização defende que o Algarve tem condições para se tornar um polo tecnológico especializado, mas não deve copiar modelos já existentes, nem em Portugal nem no estrangeiro.
Bernardo Correia falou na quinta-feira, 28 de maio, num encontro promovido pela Câmara de Comércio Luso-Britânica, em Vilamoura e defendeu que o Algarve «tem todas as condições naturais e humanas para ser um hub de tecnologia e diversificar a sua economia para setores de alto valor acrescentado», apontando a robótica e a Inteligência Artificial (IA) como possíveis focos de futuro.
A ideia central que apresentou foi a da diferenciação. «Não devemos copiar apenas aquilo que já foi feito noutros lados. O Algarve não tem de ser Silicon Valley, o Algarve tem de ser o Algarve. E a definição do Algarve é que tem de evoluir. Tem de ser algo que aposta na mais elevada tecnologia e naquilo para onde vai evoluir no futuro».
«Agora, queremos construir algo parecido ao que já existe em Lisboa, no Porto ou em Praga? Não. Já existem startups e hubs tecnológicos no resto do país e da Europa — Londres, Berlim, Barcelona. Queremos criar mais um hub genérico, com múltiplos verticais? Não. Por isso, acho que aquilo de que o Algarve precisa é de seletividade. É preciso escolher onde apostar e como investir em áreas críticas».
O secretário de Estado recorreu a dois exemplos. O primeiro foi uma das fábricas da Tesla dedicadas à produção de robôs, entre San José e São Francisco.
«O plano de negócios deles é construir um milhão de robôs no próximo ano e dez milhões no ano seguinte, com um preço entre 20 mil e 30 mil dólares por unidade — um valor acessível para uma família americana média.
«Basicamente, a economia deles está a já preparar-se para fabricar o próximo frigorífico, a próxima televisão, o próximo carro, o próximo eletrodoméstico. Num futuro não muito distante — talvez três a cinco anos — vamos ver robôs espalhados transversalmente pela sociedade».
O segundo exemplo veio de uma conferência em Stanford. Uma investigadora, grávida de oito meses, disse confiar mais em carros autónomos do que em condutores humanos. «Ela confiava não só a própria vida, mas também a vida do bebé, mais a um carro autónomo do que a um condutor humano. Isto mostra como a tecnologia se normaliza muito rapidamente. Coisas que ainda nem sequer existem em Portugal ou na Europa já são normais», comentou Bernardo Correia.
«Por isso, devemos investir onde o crescimento vai acontecer. Não devemos replicar aquilo que os outros já estão a fazer. Devemos investir nas tecnologias que vão moldar o futuro».
O governante falou ainda em oportunidades na área da defesa aeroespacial, que poderão vir a ter financiamento do Estado. «Foi precisamente assim que Silicon Valley começou: investimento em microchips impulsionado pelo programa espacial e pela indústria da defesa».
«Se a região quiser levar isto a sério, precisa de pensar em AI factories e na capacidade de a região produzir IA como fonte de valor e um ecossistema económico», disse.
Já sobre o capital humano, destacou o papel da Universidade do Algarve (UAlg) e dos «empreendedores que existem na região, mas há ainda muito trabalho para fazer em parceria com a academia, para garantirmos um futuro tecnologicamente mais positivo para o Algarve».
O ex-executivo da Google, que tem raízes familiares algarvias, lembrou ainda o fluxo de nómadas digitais que o Algarve já atrai como trunfo e vantagem competitiva.
«O Algarve tem uma comunidade extraordinária de nómadas digitais. Eles trazem benefícios e ideias, mas, por definição, não são permanentes. É preciso pensar numa comunidade mais permanente, que colabore para resolver grandes problemas e grandes desafios. E com isto quero dizer trazer energia, conhecimento e colaboração para fazer as coisas avançarem. Acima de tudo, acho que a região precisa de pensar muito claramente em como criar colaboração em todo o ecossistema, para gerar economias de escala e, sobretudo, para levar as mentes brilhantes que já existem aqui a pensar maior e melhor».
Em termos do que o governo está a fazer, Bernardo Correia revelou que no âmbito da Estratégia Digital Nacional e da Agenda Nacional de Inteligência Artificial está prevista a criação de um visto especial — um fast track para atrair profissionais altamente qualificados na área das tecnologias de ponta.
«Queremos criar as condições para que as empresas portuguesas que queiram estar na crista da onda da tecnologia possam atrair o melhor talento disponível no mundo», explicou. «Queremos também criar condições para que esse talento possa vir das instituições de ensino portuguesas e tentamos igualmente requalificar o talento nacional, pois temos a noção de que existe uma urgência na economia portuguesa e precisamos de crescer rapidamente».
«Seria quase uma negligência não perseguir essa oportunidade», concluiu.

150 empresas tecnológicas num prazo de sete anos
Ouvido pelo barlavento, Miguel Fernandes, CEO da empresa algarvia Dengun, revelou o plano de criar no Algarve 150 empresas tecnológicas num prazo de sete anos.
«Acreditamos que precisamos de criar empregos de futuro para que novas gerações tenham uma possibilidade de ficar cá a trabalhar. Há trabalho no turismo e, como sabemos, na imobiliária, mas noutras áreas quantos cursos temos na Universidade do Algarve para os quais não há trabalho suficiente para as pessoas ficarem cá na região?», questionou.
O plano envolve entidades regionais, como a UAlg, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, e associações empresariais, com a Algarve Evolution, que «tem servido como um brainstorm hub entre estas entidades e parece começar a haver vontade de fazer isto acontecer».
Fernandes concorda com a ideia proposta pelo secretário de Estado, do Algarve apostar na diferenciação.
«Concordo. Temos de encontrar especialização. Nós somos 400 mil pessoas e temos mais de 90% da economia dependente do turismo e do real estate. Não podemos tentar ser os melhores a inventar IA para turismo, agricultura, mar e tudo ao mesmo tempo. Vamos imaginar que escolhemos duas áreas transversais: robótica e Inteligência Artificial. E depois escolhemos um ou dois setores para nos tornarmos realmente bons, porque somos poucos. Se calhar temos dez mil que podem realmente fazer parte disto para competir com o mundo».
«Nicho, nicho, nicho. Especialização. Acho que é preciso escolher. E hoje em dia IA e robótica são escolhas óbvias. Se vai tirar empregos ou não, ninguém consegue saber. Temos é de criar outros. Automatizando coisas existe uma correlação direta: vai haver menos pessoas a fazer certas tarefas. Essas pessoas vão ter de fazer outras coisas. Havendo humanoides, carros autónomos e IA capaz de substituir muita coisa repetitiva, é evidente que isto vai ter impacto na força de trabalho».
«Temos de ser corajosos para perceber que isto vai acontecer. Não fazer isso é estar à sombra da bananeira e fazer o truque da avestruz».
«O importante é perceber que não é a tecnologia em si — porque a tecnologia é um meio para um fim — mas sim a inovação. Pode ser em biotecnologia, pode ser no mar, no que quer que seja, mas temos de escolher e tentar perceber quais são os empregos do futuro, ter a ambição de criar estas empresas para que existam empregos no futuro. E não é só criar, mas também capacitar 500 empresas estrela, que realmente querem e têm potencial para crescer e transformar-se» em negócios do futuro.

Exemplo de Málaga
Bernardo Correia reconheceu que não é preciso ir tão longe quanto a Califórnia para encontrar inspiração. «Basta olhar aqui ao lado. O que os espanhóis fizeram em Málaga, por exemplo, com uma universidade de classe mundial, grandes aeroportos, ligações ferroviárias e o hub tecnológico que construíram em Málaga… a inspiração está mesmo aqui ao lado».
Fernandes partilha da mesma referência. Sobre o Málaga TechPark – Parque Tecnológico de Andalazia, explica que a região vizinha «fez esta especialização em turismo e tecnologia há 20 anos e conseguiu focar-se nisso. Há startups, empresas, um polo tecnológico com mais de 20 mil pessoas. Ando a dizer isto há dez anos: por favor, vamos olhar para Málaga. Eles especializaram-se num setor e numa área».
Para o CEO da Dengun, é inevitável que outras regiões estejam mais à frente. «Mas temos de apanhar esta onda, nem que seja para capacitar as empresas que cá estão. Na minha opinião, devíamos focar-nos em turismo e IA. E eu até já disse no passado que talvez não fizesse sentido irmos para o turismo porque Málaga já está muito forte. Mas claro que faz sentido, porque é aquilo que nós temos aqui. Há sempre inovação, há sempre coisas novas. Vamos buscar os robôs e perceber como os metemos no turismo. Vamos buscar IA e perceber como a aplicamos no turismo. E vamos criar produtos e conhecimento a partir daí e melhorar o nosso serviço. Não pensar nisto, não sermos pragmáticos, é tapar o sol com a peneira».

O desafio da IA
«Existe uma nova inteligência no planeta Terra. É a primeira vez na história da humanidade que existe qualquer coisa que parece pensar — e parece pensar cada vez mais depressa. Isto muda a forma como as organizações e a sociedade se regem». Para Fernandes, a infraestrutura é o primeiro obstáculo. «Não há nem 10% da infraestrutura necessária para correr a IA que se pretende nos próximos anos a nível global. Se nós não tivermos essa capacidade, vamos comprá-la lá fora e pagar mais caro».
O CEO da Dengun considera ainda que a Universidade do Algarve enfrenta um desafio estrutural. «A educação mudou drasticamente. Hoje há trabalhos e estudos feitos por IA. Mas isto não é um problema. É a realidade. Temos de perceber isso. E também perceber quantas profissões vão ser alteradas e quantos cursos terão de mudar. Temos de pensar nos empregos do futuro e criar currículos para isso».
«Eu acho que existe muita vontade de fazer essa reflexão na academia algarvia. Se a universidade deixasse de ser apenas uma entidade de ensino, teoria e pensamento — que é importante — e passasse a ser também um laboratório de experiências, criação e inovação. E não é uma questão de financiamento. É preciso que os professores catedráticos se alinhem», concluiu.