«Num tempo em que tanto se discute o sucesso educativo, convém não perder de vista o essencial: a escola deve ser um lugar de sentido e pertença, não um campo de provas».
Com a entrada em vigor do novo modelo de avaliação externa — Avaliar Melhor, Aprender Mais — a partir do ano letivo de 2024/2025, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação introduz alterações significativas nos modos de aferição das aprendizagens no ensino básico.
As anteriores Provas de Aferição dão agora lugar às Provas de Monitorização da Aprendizagem (ModA), a aplicar obrigatoriamente no final dos 1.º e 2.º ciclos, nos 4.º e 6.º anos de escolaridade.
Apresentadas como instrumentos de recolha sistemática de dados sobre o desempenho académico dos alunos, estas provas pretendem contribuir para o alinhamento das práticas educativas com as tendências internacionais e favorecer a utilização de ferramentas digitais no processo avaliativo.
No entanto, importa questionar o real alcance pedagógico e humano desta reformulação. Estaremos a avaliar melhor? E, sobretudo, estaremos a aprender mais?
A avaliação externa no ensino básico deve, indiscutivelmente, permitir uma leitura contextualizada e rigorosa das aprendizagens dos alunos.
Todavia, ao centrarmo-nos exclusivamente na quantificação e na comparabilidade estatística — ainda que anonimizada — arriscamo-nos a esquecer que os alunos não são apenas sujeitos avaliados, mas seres em formação, emocionalmente implicados no seu próprio processo de crescimento.
É neste ponto que o discurso técnico deve abrir espaço à reflexão ética e pedagógica.
Apesar de as provas ModA não influenciarem diretamente a classificação final dos alunos, a sua realização tem um impacto emocional significativo. Não é raro observar, em contexto escolar, crianças que revelam níveis elevados de ansiedade perante a aproximação destas provas, mesmo sabendo que os resultados não contam para a nota.
A prova torna-se, ainda assim, um símbolo de desempenho, uma fonte de expectativa — por vezes excessiva — para os alunos, professores e famílias.
As crianças não vivem a escola como um sistema abstrato de metas e descritores. Vivem-na com o corpo e com a emoção, com receios e sonhos, com falhas e esperanças. Qualquer processo de avaliação que ignore esta dimensão corre o risco de se tornar redutor.
O verdadeiro desafio não é apenas diagnosticar falhas, mas cultivar potencialidades. E para isso é necessário tempo, escuta e sensibilidade — três elementos difíceis de quantificar, mas essenciais à pedagogia.
A introdução do formato digital nestas provas levanta, por sua vez, questões pertinentes de equidade e acessibilidade. Embora se prevejam momentos de familiarização com as plataformas do IAVE, nem todos os contextos educativos garantem iguais condições de acesso à tecnologia, quer em termos de infraestruturas, quer ao nível das competências digitais dos próprios alunos.
Para muitos, o formato da prova poderá representar um obstáculo adicional, desviando o foco do conteúdo para a gestão do meio digital em si.
Defende-se, com frequência, que a avaliação deve ser uma ferramenta ao serviço da aprendizagem. Mas será que a pressão para produzir dados comparáveis não está a afastar-nos deste princípio orientador?
Ao concentrar esforços na aferição externa, poderá o sistema estar a negligenciar o acompanhamento contínuo e qualitativo que só o professor, conhecendo o contexto e o percurso de cada criança, pode oferecer?
É fundamental recentrar a avaliação no seu papel formativo, como um processo de diálogo pedagógico que valoriza o erro como oportunidade, o esforço como virtude e a diversidade como riqueza.
Um modelo de avaliação verdadeiramente eficaz não é aquele que melhor classifica, mas o que melhor compreende. A aprendizagem não se esgota num momento de prova — constrói-se na interação, na persistência e no reconhecimento de cada passo dado.
Num tempo em que tanto se discute o sucesso educativo, convém não perder de vista o essencial: a escola deve ser um lugar de sentido e pertença, não um campo de provas. E a avaliação, para ser justa, tem de ser também humana.
Avaliar é, antes de mais, cuidar. Cuidar do desenvolvimento, da motivação, da confiança e do bem-estar das crianças que nos são confiadas. E isso exige mais do que escalas de 0 a 100 — exige inteligência pedagógica, sensibilidade ética e compromisso com a educação como ato profundamente humano.
Foto: F1Digitals / Pixabay.