Agradeço com o coração, de mãos dadas com a mais completa e desconhecida humanidade, ao Boris e ao Bob. Pois talvez o essencial da vida se inscreva nos breves e inspiradores momentos em que uma canção desperta o mais belo e desamparado sentimento.
Quando Bob Dylan estava a dar-se a conhecer, estava eu a nascer. Meados dos anos 60. Assim sendo, só mais tarde, nos idos de 70, com as primeiras borbulhas a despontar na cara, ouvi a sua música pela primeira vez no single Lay lady lay, no gira discos da minha irmã, sete anos mais velha. Na capa o músico de cabelo desgrenhado sentado ao piano.
A imagem mais do que a música despertou a minha atenção. Mais tarde, nos verões de Armação de Pêra, o meu grande amigo freak de adolescência, o João Portugal, que vinha de Lisboa sempre acompanhado da sua guitarra, muito contribuiu para ampliar o leque musical. À noite na praia, em grupo, escutávamos no amplexo rumor do mar e da fresca maresia dos primeiros beijos, algumas das canções mais conhecidas Mr. Tambourine man, Blowin’ in the Wind, mas também muito Neil Young, Genesis (The Carpet Crawlers), Pink Floyd (Wish you were here).
Não esqueço a noite no bar Pipa (hoje uma steakhouse), na rua da fortaleza, em que um apaixonado casal de freaks alemão insistia, amável e persistente, que ele tocasse a balada Stairway to heaven dos Led Zepellin, ao som da qual tinham começado a namorar.
Convoco a memória, nesta crónica, para abrir caminho até ao objetivo principal: prestar um breve tributo ao Bob e ao Boris, despertado pelo visionamento do filme A Complete Unknow, de James Mangold.
Dylan, chegado a Nova Iorque, em 1961, a cidade de todos os sonhos, guitarra na mão e mochila às costas, qual pedra rolando dos confins provincianos de uma América interior, com uma vontade genuína de afirmação artística. Canta nos bares de Greenwich Village, local de contra-cultura nova iorquina. Convidado para o festival folk de Newport, conquista toda a gente e é o protegido de Pete Seeger e Joan Baez, que fazem dele o porta-voz de uma geração. Até partir a loiça toda, em 1965, ao desencadear uma eléctrica tempestade rock sobre um público que esperava as habituais cantigas acústicas. Descoberto o filão é editado e revelado ao mundo.
Misterioso, labiríntico, pouco fala do seu passado, como se não tivesse família nem infância. Canta o amor, a revolta, o seu tempo, o futuro. A sua voz peculiar, as suas letras, são como um afluente melancólico, íntimo e profético a desaguar numa América em ebulição. Cascata de acontecimentos: ameaça de guerra nuclear com a crise dos mísseis soviéticos em Cuba (1962); a luta pelos direitos cívicos; assassinato do presidente John F. Kennedy (1963); assassinato de Martin Luther King (1968).
Confesso que nunca ouvi muito Bob Dylan. Já adulto e professor é que comprei e ouvi alguns dos seus discos em CD e em vinil. Foi quase como aceder a documentos históricos vivos e emocionais.
No Algarve, Dylan teve em Boris Bugerov um intérprete incondicional. Nos Artistas, em Faro, pela primeira vez assisti a um concerto seu. Lembro-me de que ao olhar o cartaz, pelo nome, ter pensado que seria música dos Balcãs. Nada disso. – Mas este gajo só toca Bob Dylan! – confirmei depois – Tal e qual!
Boris Bugerov era o nome artístico de André Viane, belga viajante, europeu vagamundo, apaixonado pelo cinema, fixa-se em Tavira, no enlevo da serra de Sta. Catarina, e na cidade organiza dois festivais (1992/93) + mostras de cinema e cria o cineclube local a convite de Macário Correia.
Personalidade complexa, persistente, fumando tantos ou mais cigarros do que Bob, tive oportunidade de o conhecer melhor quando o entrevistei para a revista Em Cena, n.º3, 2001.
Não sei se Boris e Bob alguma vez se terão cruzado e falado. Sei que o André assistiu a concertos do seu ídolo. Duvido que Dylan, inacessível deus de si próprio, tivesse gostado de ouvir este intérprete da sua música.
Mas como o essencial da vida se inscreve (e talvez possa escrever) nos breves e inspiradores momentos, em que uma canção como Girl from the north country desperta o mais belo e desamparado sentimento; então agradeço com o coração, de mãos dadas com a mais completa e desconhecida humanidade, ao Boris e ao Bob.
Paulo Penisga
