A escassez de água deve ser combatida através de pelo menos quatro eixos de atuação diferentes, defendeu hoje o investigador Rodrigo Proença de Oliveira.
«Não há balas de prata nestas questões da água. Vamos ter de desenvolver vários eixos de atuação. A dessalinização é um, a reutilização da água é outro, novas captações e, sobretudo, muito maior eficiência», disse à Lusa o consultor da Agência Portuguesa do Ambiente, no âmbito de um colóquio dedicado ao tema, em Ferreira do Alentejo (Beja).
Doutorado em Planeamento e Gestão de Recursos Hídricos pela Universidade de Cornell (EUA), Proença de Oliveira falou sobre o tema no colóquio sobre «Alterações Climáticas, Seca e Recursos Hídricos», promovido pela Associação dos Ex-Deputados da Assembleia da República (AEDAR).
Defendeu a «análise da componente económica» para chegar a conclusões sobre «a relação custo-benefício» das intervenções propostas e, nesse sentido, revelou-se cético em relação aos transvases de água do norte para o sul do país.
«Tem custos bastante acentuados, custos ambientais, custos sociais e, sobretudo, não é evidente que seja sustentável num clima futuro. Ou seja, o norte do país também vai enfrentar menores afluências de água. É preciso assegurar que não estamos também a criar um problema para o norte no futuro», sustentou o professor do Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa.
Por isso, é preciso avaliar «se os custos dessas obras são justificáveis perante o benefício que proporcionam» e admitiu que a dessalinização pode ser uma alternativa mais viável.
«O custo da dessalinização é elevado, tem vindo a descer, mas nós todos vamos ter de nos habituar a pagar mais pela água. Portanto, a certa altura, o argumento do custo não é assim tão significativo na análise que temos de fazer», comentou.
No que diz respeito à eficiência, lembrou que «há muito trabalho a fazer na redução das perdas físicas das redes de abastecimento para consumo humano e agrícola», onde viu «uma oportunidade», assim como «usar melhor as águas superficiais e subterrâneas».
Por isso, apontou como exemplo o Algarve, onde se está a tentar mitigar os efeitos da seca ao «combater as perdas de água e reutilizar na rega dos campos de golfe», assim como a dessalinização que «já estará em concurso público», ou «uma nova captação de água no Guadiana».
«Só aí o Algarve é um bom exemplo de como o problema da água está a ser resolvido com três ou quatro eixos de atuação e é assim que vai acontecer em todos o país. Temos de intervir em várias áreas», defendeu Rodrigo Proença de Oliveira.
Segundo os últimos dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o consumo urbano de água no Algarve teve um aumento de 4,6 por cento em janeiro, face a 2023.
Uma resolução publicada em 20 de fevereiro em Diário da República dá conta que o governo admite «medidas adicionais mais gravosas» para garantir as reservas mínimas que permitam o abastecimento de água para usos prioritários no Algarve.