Algarve, Quo Vadis?

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O Algarve criou uma tal dependência do turismo, que, se por qualquer motivo, num mundo conturbado e de futuro cada vez mais incerto, o mesmo entrasse em crise, só restaria à gente de cá ir para o Alentejo apanhar azeitonas… em nome dos espanhóis (1).

Frota pesqueira e tudo o mais a ela associado, como indústria conserveira e estaleiros navais? Só se for ali ao lado, na Isla Cristina ou em Huelva, na vizinha Espanha.

Meia-dúzia de laranjais e plantações de abacateiros concorrendo com os extensos campos de cultivo de toda a espécie de fruta que se podem começar a observar logo a partir da zona de Lepe, igualmente na vizinha Espanha? Só por graça.

Tecido industrial, em particular tecnológico (2)? Só em sonhos…

Será, portanto, por força dessa dependência e como «isco» para o turista, que não haverá autarquia, grande ou pequena, a deixar de abrir, generosamente, os cordões à bolsa para as mais diversas festas, não raro concorrendo entre si com sobreposição das ditas: são as passagens de ano com os seus concertos e fogos de artifício, os carnavais, as marchas ditas populares, os festivais do marisco, da sardinha, da cerveja e outros mais, as feiras e mercados medievais, as noites brancas e, até, imagine-se, os importados «halloweens»! Enfim, para além de sol e praia, viver-se-á no Algarve um clima de festa permanente.

Entretanto, o dinheiro que parece não faltar para as festas em causa, escasseará, por exemplo, para se investir numa habitação social condigna, capaz de servir de contraponto a um mercado imobiliário cada vez mais especulativo e virado para «vistos gold» e similares.

Pergunte-se a um jovem casal de namorados, com trabalho sazonal (na designada época balnear) e ganhando cada um deles o ordenado mínimo, quais são as suas expetativas quanto a encontrar casa, constituírem família, ter filhos… certamente responderão que muito poucas ou nenhumas.

Por sua vez, quem sabe, até, se motivado pela «embriaguez» de clima tão permanentemente festivo, que não deixará o tempo devido para o estudo, associado ao facto de os professores que para o Algarve desejam vir lecionar, acabarem por desistir de o fazer, dada toda uma dificuldade em arranjar alojamento acessível àquilo que ganham (com milhares de alunos, por via disso, a ficarem sem aulas ou só a te-las tardiamente), assiste-se na região, como já tivemos oportunidade de assinalar num outro apontamento, a um dos índices mais elevados de abandono e insucesso escolar do país!

O que deveria, pois, envergonhar quaisquer pretensos «lideres» regionais, a não ser que tenham como fatalidade adquirida, que os aqui nascidos estarão destinados a não ser mais do que serviçais dos turistas, faltando, assim, a «massa cinzenta» capaz de diversificar com futuro a economia algarvia.

Algarve, quo vadis?

(1) Bastou a falência da operadora turística Thomas Cook, a segunda maior europeia e uma das mais antigas do mundo, para todo um «nervoso miudinho» ter percorrido o Algarve.

(2) Como se não bastasse a reduzida dimensão do tecido industrial algarvio, este apresenta fragilidades como aquelas que acabam de levar à insolvência duma antiga empresa familiar na área da cortiça e que, ainda há pouco tempo, era tida como um exemplo a seguir, principal empregadora no concelho de São Brás de Alportel.

Luís Ganhão | Jurista