Os restaurantes são um povoamento multicultural único, dos empregados aos clientes, portugueses poucos. Muito poucos, dificilmente identificáveis. A vida própria é uma vida estrangeira.
1) Em outubro como em agosto
Nunca como no presente este perdurar do sol, do tempo quente e seco, rendeu tanto ao negócio, ao acumular imediato de riqueza. É caso para dizer que as alterações climáticas, com estas temperaturas de outono como no verão, jogam a favor do turismo.
– A praia está ótima!
O prazer hedonista de deitar o corpo ao sol na areia e até o banho de mar continua a ser possível. As esplanadas enchem-se. Ouve-se inglês com sotaque americano, coisa antes rara, neerlandês, italiano, alemão, para já não falar dos costumeiros ingleses, franceses e espanhóis. Toda esta gente está feliz, deliciada com este tempo. O turismo é uma maré humana de satisfação incessante, ampliada pelo bom tempo. Bem…
– Vai mais um mergulho, querida?
Praia do Vale de Centeanes – Carvoeiro
2) Em casa como no estrangeiro
Sexta-feira, 19h55. Saio para jantar. Os restaurantes são um povoamento multicultural único, dos empregados aos clientes, portugueses poucos. Muito poucos, dificilmente identificáveis. A vida própria é uma vida estrangeira. A de origem, à noite, encontra-se recolhida. Percorro ruas desertas de vida e adormecidas no silêncio. Apenas do campo de futebol ecoam palavras vigorosas e plenas de ânimo de quem treina. Pergunto-me se os conterrâneos estarão concentrados nalgum espetáculo, haverá algum evento a decorrer algures… Mas não, constato ao prolongar o passeio noturno, a desmoer o jantar e a remoer a cidade. A noite está belíssima. A temperatura do ar marca 23º Celcius. Parece uma noite de agosto.
Silves, 18/10/2025
3) O bom tempo é a nossa morte
Mas o que é o bom tempo para o turismo, é muito mau tempo para tudo o resto. Não apenas para os campos e a agricultura. As laranjas acusam a falta de humidade do ar. Racham e caem os frutos precocemente. As árvores nos jardins estão cabisbaixas, de rama pendida, devido ao stress hídrico. Algumas já mortas de secura. A ria Formosa igualmente necessita da chuva e da água das ribeiras que desaguam no mar.
No outro dia, ao almoço, em Olhão, ouvia um marítimo, mariscador ou ligado ao negócio das ostras, dizer a outro – sabes o que te digo, Manel, qualquer dia acabam-se as ostras…
– Este calor é a morte delas. O frio, as correntes frias na água, ajudam ao crescimento saudável dos bivalves.
Findo mais um dia de aulas, vou espairecer o olhar à beira da ria, antes de regressar. A beber um café e a comer um gelado. Vem-me à mente, bruscamente, o título do disco Um gelado antes do fim do mundo (Capicua). Como se no entardecer pintado a laranja ouro a poente, na suave e calorosa despedida do dia, se escondesse o prenúncio de um futuro menos bom na beleza do ocaso.
Olhão, 15/10/2025
Paulo Penisga | Professor