ABPRSA vai estudar a utilização de água proveniente da futura barragem da Foupana para restaurar o aquífero degradado entre Almancil, Faro e Olhão.
A degradação do aquífero que abastece a campina agrícola entre Almancil, Faro e Olhão motiva um novo estudo sobre a utilização de água proveniente da futura barragem da Foupana para substituir e regenerar a captação subterrânea naquela zona, onde a intrusão salina já é «muito elevada».
Macário Correia, presidente da Associação de Beneficiários do Plano de Rega do Sotavento Algarvio (ABPRSA), revelou esta intenção, à margem da apresentação do estudo «O Valor da Agricultura no Algarve», que decorreu na quinta-feira, 5 de março, em São Bartolomeu de Messines, tal como o barlavento noticiou.
Com foco na biodiversidade e proteção ambiental, está a ser preparada, em articulação com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, uma candidatura a financiamento por fundos europeus.
«Estamos a estudar uma candidatura que será feita até maio, que tem a ver com a utilização da água da Foupana até ao litoral de Loulé. Explicando por outras palavras: há um estudo da APA sobre a qualidade dos aquíferos do Algarve que tem uma mancha vermelho na campina de Olhão/Faro/Almancil. Vermelha pela quantidade de nitratos, sal, e cloretos», revelou.
A situação condiciona uma zona «onde a agricultura nasceu de forma expressiva no século passado — e teve depois o ciclo das estufas e das hortícolas que agora cresceram como culturas permanentes. Algumas, contudo, já não resistem àquela quantidade de sal».
«Já se verificam dificuldades na vegetação, rebentação, e crescimento das plantas, porque são sensíveis à salinidade que se verifica nas análises à água».
Macário frisou que o aquífero está de tal forma «inquinado» na faixa que se estende de Quarteira até Alfandanga, que a viabilidade agrícola estará comprometida sem uma solução hídrica de fundo.
E «além de ter má qualidade, o nível está extremamente baixo. Ou seja, enquanto na zona do perímetro do Sotavento temos furos a deitar por fora, por causa das chuvas, aqui não é assim: há furos que estão a tirar água a 100 e 200 metros».
O ex-autarca de Tavira e Faro referiu que o prazo de implementação até poderá ultrapassar uma década, ou seja, todo o tempo necessário até que o projeto da nova barragem esteja concluído.
Questionado sobre a pertinência desse projeto ironizou: «Agora que está a chover muito, perguntam-me: para que é que queremos a barragem da Foupana? Eu não desarmo: para resolver este problema. Ou seja, uma solução técnica estrutural para aquela zona. Sem isso, a agricultura entra em sufoco».
E justificou com o atual cenário: «quando um furo começa a ter índices de salinidade elevados, é algo extremamente difícil de resolver — é irreversível. Portanto, o que é preciso nos próximos anos é trazer água da Foupana para esta campina. Não estamos a falar em aumentar o regadio», mas substituir a rega.
«Em vez de ser de um aquífero que não está em boas condições, colocar em cima desses terrenos água de boa qualidade, vinda da serra. Isso melhorará a biodiversidade, o comportamento dos organismos, a vida das plantas e a qualidade dos alimentos», concluiu.
Este cenário insere-se num quadro mais vasto de discussão sobre os recursos hídricos da região. Rui Virgínia, vice-presidente da Federação da Agricultura Algarvia (FEDAGRI), alertou para a dependência do aquífero Querença-Silves — o maior reservatório subterrâneo do Algarve, no Barrocal —, que continua sob pressão pela seca e pelos baixos níveis de recarga.
«Dois terços do que se produz de riqueza na região do Algarve provém desse aquífero», afirmou, pelo que a FEDAGRI vai formalizar as preocupações dos agricultores junto das entidades responsáveis nos próximos dias. «A nossa direção decidiu colocar 12 questões pertinentes a alguns organismos do Estado, nomeadamente ao Ministério do Ambiente, às Águas do Algarve e à APA», que caso não sejam satisfatórias, serão remetidas para as instâncias europeias competentes.
O presidente da CCDR do Algarve, José Apolinário, que também participou no evento, recordou que está em curso um pacote de investimentos «significativo» com fundos europeus para redução de perdas nas redes da região — em linha com a meta europeia de resiliência hídrica de 10% até 2028.
Estiveram presentes, o presidente da Comissão de Agricultura e Pescas, Maurício Teixeira Marques, e o vice-presidente, João Paulo Graça. E também Miguel Freitas, ex-secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural e Fernando Severino, atual vice-presidente da CCDR Algarve.