Os candidatos moderados atuais, onde podemos considerar os mais recentes vitoriosos, como Keir Starmer no Reino Unido ou Donald Tusk na Polónia, tal como Kamala nos EUA (aqui já estando a agoirar), são incapazes de resolver um problema que é global.
Randy Conrad provavelmente é um nome desconhecido para a grande maioria das pessoas, mas carrega um peso simbólico ao alcance de muito poucos. Foi Randy que fundou aquela que é considerada a primeira rede social do mundo, a Classmates.
Esta rede social tinha o propósito inocente de fazer as pessoas encontrarem os seus antigos colegas de escola, criando uma rede de arquivos com anuários escolares de várias décadas.
A verdade é que Randy foi o primeiro de muitos outros fundadores de redes sociais, que permitiram a comunicação instantânea massiva entre vários grupos de humanos. Essa interação não tem precedente na história humana. A partir daqui, todos sabemos que as redes sociais proliferaram, e com essas, todos os problemas de desinformação, divisionismo, tribalismo, espionagem, crime, entre muitos outros.
A questão do divisionismo e polarização não é nova, sempre esteve presente ao longo da história. Em tempos de maior dificuldade, existem sempre indivíduos ou grupos de poder disponíveis em explorar o descontentamento da população. O que atualmente difere é a capacidade de propagação e velocidade destes fenómenos populistas.
Muita desta capacidade advém das redes sociais, algo que vai continuar a ser problemático à medida que a tecnologia se desenvolve. As vitórias de políticos moderados não alteram esta trajetória. Basta analisarmos os incentivos atuais, sendo que de momento, quem propaga discurso de ódio ou de confrontação está a fazer bastante mais dinheiro do que aqueles com discurso moderado, e é fácil perceber o porquê.
Neste momento o mundo atravessa dificuldades em vários campos, desde a proliferação do extremismo político, o crescimento económico anémico, a inflação alta, a questão da emigração, os confrontos militares, entre outras questões.
No entanto, no centro do descontentamento penso que está principalmente a decadência económica das novas gerações e a queda do poder de compra das classes médias.
A questão económica arrasta consigo todos os outros descontentamentos sociais, algo que com uma ida ao Facebook ou ao X, conseguimos facilmente observar.
A busca por bodes expiatórios e explicações mais simplistas acerca das dificuldades da vida faz com que os canais de extremismo sejam agora os principais candidatos a liderar as visualizações de quem está online. E por isso, são eles quem realmente lucra neste momento.
Donald Trump, não sendo o primeiro político a aproveitar as redes sociais para o seu proveito, é sem dúvida o exemplo mais famoso do aproveitamento dos descontentes, num populismo online muito próprio, muito cáustico.
É da minha opinião que Trump, contra Biden ou contra Kamala, iria perder as eleições de 2024.
Pode ser considerada uma opinião pouco popular em vários círculos, mas basta analisar que Trump perdeu todas as eleições em que se candidatou, incluindo a de 2020 e a dos seus candidatos nas midterms em 2022, isto considerando também que a vitória de 2016 foi alcançada sem o voto popular. É um dos piores candidatos republicanos de sempre em termos de resultados.
Impulsionado pelo descontentamento e pelo ruído online, a sua influência parece muito maior do que na realidade é. Todavia, o fenómeno por detrás de Trump irá continuar bem vivo e com influência. Os candidatos moderados atuais, onde podemos considerar os mais recentes vitoriosos, como Keir Starmer no Reino Unido ou Donald Tusk na Polónia, tal como Kamala nos EUA (aqui já estando a agoirar), são incapazes de resolver um problema que é global.
É um erro achar que a história é uma repetição, simplesmente porque as variáveis estão sempre a mudar. Muitos fazem a comparação atual com os anos 30 do século XX, mas as condições são totalmente diferentes.
Os historiadores apenas conseguem explicar porque aconteceu e não porque irá acontecer. É importante perceber que o facto de dificuldades económicas levarem ao descontentamento popular não significa a inevitabilidade do confronto de potências e a uma guerra em larga escala, porque isso não é garantido.
Não existem soluções simples para problemas tão complexos. Existem políticas públicas e medidas que podem atenuar os problemas e reverter alguns acontecimentos. Medidas que duram anos, algumas podem durar décadas até terem os primeiros resultados.
A racionalidade dessas políticas públicas é completamente antagónica em relação ao imediatismo das redes sociais.
Com isto não quero dizer que se deva proceder a uma grande regulação das redes sociais, isso seria tão errado como regular as conversações das pessoas nas ruas. Mas existem certas medidas de responsabilização das empresas que gerem as redes sociais que podem ser aplicadas, referentes à monetização de discursos de ódio, à utilização da AI para filtrar notícias falsas ou mesmo à forma de como é filtrada a informação aos utilizadores, muitas das vezes, bombardeados sempre pelos mesmos pontos de vista, fechando as pessoas numa bolha opinativa homogénea, que por vezes leva ao fanatismo e a radicalização.
Tal como em outros sectores económicos as empresas são responsabilizadas em caso de dano, também nas redes sociais deve acontecer o mesmo.
Quando observamos o estado atual do mundo, o problema das redes sociais parece ser o mais fácil de resolver. A questão económica da desigualdade fica por resolver, também os confrontos geopolíticos e as alterações climáticas.
Para resolver esses problemas é necessária a discussão moderada entre os vários intervenientes, que é dificultada caso o nível de animosidade entre as pessoas não desça alguns níveis.
Desde os adversários políticos que têm de se deixar de considerar ameaças existentes, até aos familiares na mesa de jantar que não podem deixar de se falar quando existem opiniões diferentes. Dizia há algumas semanas Bill O’Reilly no programa do Jon Stewart, que temos de ser capazes de voltar a concordar em discordar. Não poderia estar mais certo.
Miguel Braz | Consultor internacional de negócios
Foto: The White House