O Algarve merece mais do que a raiva. Merece esperança. E a esperança nasce quando a política volta a ser serviço.
Vivemos tempos de desencanto. No Algarve, esse desencanto tem rosto e tem voz. São os homens e mulheres que, ao longo de 50 anos de democracia, sentiram que a política lhes prometeu mais do que cumpriu. São os pescadores que viram as quotas e a globalização reduzir a dignidade da sua faina; são os agricultores que enfrentam a seca, as pragas e a burocracia; são os trabalhadores do turismo, incansáveis no verão e esquecidos no inverno. É este o povo algarvio, orgulhoso da sua terra e resiliente perante as adversidades, mas que hoje olha para a política com raiva e frustração. É necessário compreender esta raiva.
Como dizia Adriano Moreira, «a política que não escuta, não governa, domina». O povo algarvio tem razões para sentir que não foi suficientemente escutado. O centralismo de Lisboa, as promessas adiadas de infraestruturas essenciais — do Hospital Central ao investimento sério na ferrovia e na água —, a incapacidade de planear o turismo de forma sustentável, tudo isto alimentou uma sensação de abandono.
Da armadilha que foi transformar a Via do Infante (que foi pensada pelos engenheiros da Junta Autónoma das Estradas como uma via estruturante longitudinal de dupla via gratuita para a distribuição de transito) numa autoestrada que anos mais tarde, em plena ruína nacional, teve de ser portajada e sobrecarregar ainda mais o magro orçamento das famílias e das empresas.
No entanto, transformar esta justa indignação em raiva cega contra a democracia e os seus atores é um risco que não podemos correr.
A tentação do radicalismo: o caso do Chega no Algarve
É neste caldo de descontentamento que partidos radicais, como o Chega, procuram espaço. Alimentam-se da raiva e transformam-na em slogans fáceis, sem oferecer soluções consistentes. Fazem da política um palco de insultos, e não um instrumento de serviço. A sua estratégia é clara: dividir para governar, gritar para esconder a ausência de propostas sérias, explorar os medos para ganhar poder.
Mas o Algarve, terra de mestiçagens culturais e de diálogo entre povos, não pode deixar-se aprisionar pelo discurso do ódio. A nossa história ensina-nos o contrário: fomos porto seguro de cristãos, mouros e judeus, fomos porta de saída para o mundo nos Descobrimentos, somos hoje espaço de acolhimento de milhares de estrangeiros que escolheram viver entre nós. A radicalização seria, portanto, uma traição à nossa identidade.
Do ponto de vista democrata-cristão, o risco é ainda maior: entregar o poder a forças que desprezam a dignidade da pessoa humana, que procuram resolver problemas complexos com soluções simplistas e que confundem autoridade com autoritarismo, seria condenar a região a um impasse perigoso. O Papa Francisco alertou-nos constantemente para os falsos profetas da política, que oferecem ilusões fáceis mas deixam atrás de si desilusão e divisão. O Chega é, em grande medida, essa promessa ilusória: grita contra Lisboa, mas nada propõe de concreto para melhorar a vida dos algarvios.
A raiva transformada em esperança
A raiva não deve ser ignorada, mas sim transformada em energia construtiva. É aqui que os princípios da Democracia Cristã oferecem uma via: dignidade da pessoa humana, solidariedade, subsidiariedade e bem comum. Estes valores não são abstrações. São critérios práticos para governar:
- Dignidade da pessoa humana significa garantir saúde, educação e trabalho digno para cada algarvio. O novo hospital central do Algarve, tantas vezes prometido, deve deixar de ser promessa e tornar-se realidade.
- Solidariedade implica que a riqueza gerada pelo turismo beneficie também os residentes, e não apenas grandes grupos económicos. É preciso investir em habitação acessível para jovens e trabalhadores sazonais, evitando que os algarvios sejam expulsos das suas próprias cidades.
- Subsidiariedade obriga a reforçar o poder dos municípios e freguesias, que conhecem melhor do que ninguém os problemas locais, em vez de centralizar decisões em Lisboa.
- Bem comum exige um planeamento sustentável da água e do território, que proteja as gerações futuras sem sacrificar as necessidades do presente.
Estes princípios traduzem-se em políticas concretas, e não em insultos ou fantasias. São a base de uma visão política séria, capaz de devolver a confiança às pessoas.
A Aliança Democrática como alternativa de confiança
Num tempo de incerteza, o Algarve precisa de uma alternativa segura. Essa alternativa não pode ser o vazio radical do protesto nem a continuidade da estagnação. A única força que se propõe, de forma clara, a servir os algarvios é a Aliança Democrática (AD) que nalguns concelhos foi expandida para acolher mais partidos e sensibilidade locais.
Porquê? Porque a AD reúne experiência governativa, capacidade de diálogo e uma visão de futuro. Porque não procura dividir os portugueses entre «bons» e «maus», mas unir todos em torno de objetivos comuns. Porque se compromete a melhorar a qualidade de vida no Algarve com medidas concretas:
- Saúde: construção efetiva do novo hospital central e reforço das unidades locais de saúde, combatendo a falta de médicos e especialistas.
- Habitação: programas de arrendamento acessível para jovens casais e trabalhadores, evitando a expulsão das famílias algarvias para as periferias.
- Água: investimentos em novas albufeiras, em dessalinização, em reutilização e em eficiência, para garantir sustentabilidade num contexto de seca estrutural.
- Mobilidade: melhorar a segurança na A22, incrementar a oferta do transporte ferroviário regional e conclusão das obras estruturantes da EN125, reduzindo desigualdades entre o litoral e o interior.
- Turismo sustentável: diversificação da oferta, valorizando a cultura, a gastronomia e o interior algarvio, para que o turismo seja motor de desenvolvimento equilibrado.
Estas propostas não são promessas vagas: são compromissos claros, alinhados com os princípios democrata-cristãos e orientados para o bem comum.
Uma nova cultura política para o Algarve
Para vencer a raiva, não basta apresentar medidas. É necessário mudar a cultura política. O Algarve precisa de políticos que falem menos de si próprios e mais das pessoas. Precisa de líderes que estejam presentes, não apenas em campanha eleitoral, mas no dia a dia das comunidades.
Aqui, a AD pode inspirar-se na tradição de líderes como Adelino Amaro da Costa, que via a política como missão de serviço; ou como Paulo Portas, que soube ligar estratégia nacional com proximidade social. Mas também pode beber da herança algarvia de figuras como Cavaco Silva, cuja governação teve impacto na modernização do país, ou até de Maria Barroso, símbolo de cultura e solidariedade. O Algarve não precisa de heróis de ocasião, precisa de servidores permanentes.
O Algarve é para todas as gerações
É igualmente essencial falar para diferentes gerações de algarvios:
- Os Baby Boomers, que construíram o Algarve moderno, esperam respeito e proteção social.
- A Geração X, que viveu as grandes transformações da região, exige estabilidade e qualidade de serviços públicos.
- Os Millennials, muitas vezes precários e sem habitação acessível, pedem oportunidades concretas.
- A Geração Z, que já não acredita em discursos vazios, quer autenticidade e futuro.
A AD neste período pré-eleitoral tem dialogado com todas estas gerações, apresentando soluções específicas e mostrado que, por sua vontade, ninguém ficará para trás.
Da raiva à esperança
O Algarve merece mais do que a raiva. Merece esperança. E a esperança nasce quando a política volta a ser serviço. O Chega oferece apenas gritos e divisões; a AD oferece trabalho, diálogo e compromisso. Entre a raiva e a responsabilidade, os algarvios sabem escolher: já o demonstraram na sua história de resiliência e de abertura ao mundo.
Como dizia o Papa Francisco, «a esperança é audaz». Hoje, ser audaz no Algarve significa não ceder ao radicalismo, mas apostar numa alternativa que devolva dignidade e confiança. Essa alternativa é a Aliança Democrática, porque é a única capaz de transformar a raiva em futuro.
O Algarve precisa, não de protesto vazio, mas de uma política que volte a olhar as pessoas nos olhos, que compreenda as suas dificuldades e que ofereça soluções reais. A raiva pode ser o ponto de partida; a esperança, orientada pela Democracia Cristã, deve ser o destino.
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio e democrata cristão