Este resultado eleitoral nas eleições legislativas em Portugal e o crescimento do populismo é o resultado direto da alteração de valores e causas da nossa sociedade.
Sou do tempo em que o voto era utilizado no sentido da luta por condições dignas de trabalho e pela garantia da liberdade, educação universal, acesso à prestação de cuidados de saúde, humanismo e democracia.
A ausência de memória e o desconhecimento da História, o lastimável estado da educação, enquistado desde o tempo dos nossos avós, a desinformação e as inquestionáveis «verdades alternativas e absolutas» das redes sociais, o desprezo pelo próximo, associados a um maior conforto económico conseguido por quem ao longo destes 50 anos lutou e transformou este país e a sociedade ocidental em geral, tudo alterou.
De forma estruturada ou apenas por preguiça dos seus atores e decisores, os jovens não foram estimulados a aprender, a participar e a pensar sobre política.
Esta bagagem de conhecimento deveria ter ser criada desde cedo, num ambiente pedagógico, para que os jovens cheguem à maioridade preparados e se tornassem cidadãos participativos.
O resultado está à vista.
Os objetivos do acto de votar resumem-se hoje cada vez mais generalizadamente à garantia das condições que permitam umas férias anuais em Cancun e o pequeno-almoço diário no café ao lado, ao apoio à perseguição e castigo impiedosos a quem é diferente ou vem procurar condições dignas de vida e fazer aquilo que recusamos por considerar indigno, ao fim do estado de direito acusando e julgando sem direito a defesa com base naquilo que surge sem direito a contraditório na imprensa e nas redes sociais.
Este implacável e aparentemente inalterável caminho da sociedade, vai garantidamente conduzir a curto prazo à deterioração da democracia, à decadência do acesso publico e universal à educação e aos cuidados de saúde e não haja dúvida ao regresso de diversas formas de totalitarismo em todo o seu esplendor.
Os ciclos da História são inexoráveis e infelizmente o ciclo de prosperidade e crescimento no mundo ocidental criado por grandes políticos e homens de visão na segunda metade do século XX não teve seguimento desde aí.
Ao ignorar grande parte da humanidade, nossos concidadãos num mundo cada vez mais global e tendo criado um cruel fosso de desigualdade económica e de prosperidade, seria certo que esta inação acabaria mais cedo ou mais tarde por conduzir a este resultado.
Depois destes dias outros dias virão.
Ricardo Palet | Cidadão do Algarve