Enquanto autarcas do espectro da social-democracia (PS+PSD) sonhavam com passadiços de paisagismo impressionista, a industriosa extrema-direita, de travo neofascista, cavava uma autoestrada subterrânea que atravessa o Algarve de lés a lés.
Enquanto distraídos governantes plantavam hotéis de empregos precários a haver, o inominável mordiscava as múltiplas chagas do corpo dos algarvios: piores ordenados do país, precariedade sazonal, monocultura económica, saúde pública doente, ferrovia estacionada em 1960, parque habitacional abundante e a preços anglo-germânicos, e autoestrada com piso de lixa grossa a preços americano-sauditas.
Enquanto, desde 2004, um burro cansado carrega nas albardas os tijolos do hospital central do Algarve, pelos sertões alentejanos e trilhos da serra de Espinhaço de Cão, o cão de fila da direita fareja bolsonaristas exilados, reformados famélicos, jovens de esperança precária, empresários do lucro magro, ressacados da crise económica de 2011, revoltados da gestão pandémica recente e, claro, velhos e novos fachos, refascinados e fascinados pela retórica confrontacional.
Saudades de velhas e boas paradas militares.
Enquanto autarcas displicentes e governantes a férias chocaram o ovo do crocodilo, debaixo da asa da mansa alternância entre socialistas e social-democratas, o algarvio penava e lamuriava-se, mas o que fazer?
Se houvesse social-democracia no Algarve, aquela da dignidade humana, dos salários justos, do emprego estável, da saúde pública, da mobilidade efetiva, da habitação disponível, então o ovo não vingaria e, a nascer crocodilos, seriam vesgos e parcos de juízo.
Quem sabe de história conhece a lição. Mas quem sabe de história?
Disciplina bafienta que não zela pelo avanço tecnológico da juventude. Felizmente, no meio do caos, podemos dar graças pela regionalização não ter avançado, senão o crocodilo tinha comido a posta tenrinha do retângulo turístico de uma só dentada.
David Roque | Professor de História