Faro cresce. Vários lugares da cidade estão agora em processo de expansão residencial.
Fileiras de prédios com varandas acrílicas e piscinas no rooftop — vulgo terraço — alinham-se ao longo de ruas retilíneas, cruzadas por rotundas e, sublinhe-se, com escassas passadeiras e poucos espaços que se adivinhem de convívio ou passeio.
Uma breve pesquisa num site de venda de imóveis dá-nos uma ideia do valor pecuniário em causa: casas anunciadas entre os 330 mil e os 615 mil euros.
Os mapas do Google ainda não acompanham estas grandes transformações habitacionais e rodoviárias, mas apontam decididamente para os loteamentos que deram, entretanto, origem às filas de apartamentos: novos conceitos de habitação, sinalizados com nomes pomposos em inglês, à boa tradição algarvia.
Uma série de gardens maravilhosos que, possivelmente, serão comprados por reformados europeus — com um poder de compra e poupanças muito superiores aos da generalidade dos portugueses — e por fundos imobiliários em franca consolidação pelas terras do Sul.
O preço por metro quadrado (m2) em Faro, considerando o concelho, ronda os 3.792 euros, abaixo do registado em Lisboa — 6.124 euros/m2, mas acima do Porto — 3.080 euros/m2—, a segunda maior cidade do país, de acordo com a informação de um site imobiliário. Nada de novo. Faro situa-se no Allgarve.
No quadro mais geral do problema da habitação em Portugal, qualquer observador curioso questiona-se sobre quem tem capacidade financeira para comprar uma casa nestes novos arrabaldes ostentosos.
Não é um problema apenas local, saliente-se. Apesar da desaceleração do ritmo de subida dos preços das casas, como foi noticiado há poucas semanas, comprar uma casa é uma quimera.
E não se trata apenas da compra: o acesso ao mercado de arrendamento é igualmente difícil.
Uma pesquisa rápida num site imobiliário mostra que os valores variam entre os 950 e os 2.550 euros.
Que o digam os estudantes universitários deslocados que, anualmente, têm de encontrar quartos para depois os abandonar em plena época de exames, em junho, porque passam a albergar veraneantes a preços chorudos. Pelo menos, é o que me dizem.
Mas, além das considerações económicas sobre a habitação em Faro e em Portugal — um problema sem fim à vista se não o enfrentarmos coletivamente —, surgem outras reflexões e perguntas.
Como situar estes blocos de apartamentos no desenho da cidade e da região, numa história de sucessivos crescimentos, quando as questões do património estão na boca de muitos decisores políticos, num processo cabal de mercantilização da autenticidade cultural algarvia?
Entre o interior abandonado, que agora oferece oficinas de queijo de cabra e degustações de vinho, e um litoral massificado, submetido ao sea and sun, que cidade é esta que se constrói nas suas periferias, anónima, imponente e nitidamente desenraizada?
Assiste-se a duas dinâmicas divergentes. Por um lado, a romantização e a glorificação do passado coletivo e comum — ativo indispensável do turismo — transformaram-se num processo mediático e político que vende o típico e o tradicional. Por outro lado, observa-se a individualização e a guetização do presente.
Multiplicam-se hipermercados de todas as cores e feitios, que servem bairros seriados, ordenados para lá do caos urbanístico das décadas passadas.
As novas centralidades que antes eram periferias, bairros de barracas, sucatas, hortas e estufas, por vezes zonas pouco nobres, abandonadas pelos poderes públicos, são agora transformadas em bairros chiques com fronteiras cimentadas muito nítidas. Que património é este que se constrói para as gerações vindouras?
Esta é uma pergunta que urge fazer. Olha-se para tudo o que possa constituir património como a panaceia para os problemas da cidade e da região: a carência de uma política cultural concertada, mas, sobretudo, a dificuldade de tornar a cidade habitável para os locais, jovens e menos jovens, aqueles que constituem a matéria-prima da cultura da terra.
Claro que todas estas considerações devem ser equacionadas à luz das estatísticas nacionais, já desatualizadas, de 2022, que indicam um ganho médio mensal por trabalhador por conta de outrem, em Faro, de 1.301,70 euros, segundo o Gabinete de Estratégia e Estudos, organismo do Estado.
Certamente, a sazonalidade também afetará a capacidade económica de muitos dos que vivem na cidade dos serviços.
Por isso, para quem são estas casas?
É esta a pergunta que me passa pela cabeça quando atravesso estas novas zonas chiques da cidade.
Raquel Carvalheira | Antropóloga e professora na Universidade do Algarve (UAlg)
Fotos: Bruno Filipe Pires

