O Algarve foi abalado por uma sequência dramática de eventos climáticos extremos, que expuseram de forma evidente a vulnerabilidade da região.
Na passada semana, o Algarve foi abalado por uma sequência dramática de eventos climáticos extremos, que expuseram de forma evidente a vulnerabilidade dos municípios da região perante as consequências das alterações climáticas. Não é exclusivo do Algarve, mas existem condições especiais na região para problemas mais sérios no futuro.
Entre os episódios mais graves, destacou-se a passagem de um tornado em Albufeira, que provocou um morto e deixou dezenas de feridos, além de causar danos materiais significativos.
Em paralelo, o Algarve enfrentou cheias generalizadas que afetaram múltiplos concelhos, entre os quais Silves, onde o impacto foi particularmente severo, sobretudo nas freguesias de São Bartolomeu de Messines e Silves.
Provavelmente, centenas de milhares de euros em prejuízos serão contabilizados (se não mais), enquanto algumas famílias tiveram de abandonar temporariamente as suas casas, agora danificadas pela água.
Estes acontecimentos são um alerta para a impreparação dos municípios portugueses, incluindo Silves, face a fenómenos climáticos que se tornaram, e vão continuar a tornar-se, mais frequentes e intensos.
Os investimentos e medidas de adaptação ainda são insuficientes e, em muitos casos, ausentes, o que deixa as populações expostas a riscos elevados, com consequências que se traduzem em perdas humanas, materiais e sociais profundas.
A realidade no concelho de Silves não foge a este cenário. Apesar de algumas intervenções financiadas no âmbito de programas regionais para o clima, focados na proteção florestal, na gestão de águas e no ordenamento do território, sobretudo dirigidos à mitigação dos efeitos das secas e do calor extremo, estas medidas não abrangem a totalidade dos desafios atuais.
As alterações climáticas manifestam-se em eventos extremos em toda a sua diversidade, incluindo invernos rigorosos, com picos de precipitação elevados que provocam inundações urbanas severas, e tempestades violentas, como os tornados, cuja frequência e intensidade aumentam devido ao aquecimento global.
O aumento das temperaturas médias globais intensifica a formação de tempestades mais fortes nos oceanos, que acabam por atingir o território português com força renovada, trazendo destruição às populações. Contudo, no concelho de Silves, não existem investimentos estruturais dignos de salientar que permitam uma resposta eficaz para estes desafios.
Ao invés, verificam-se exemplos preocupantes que seguem em sentido oposto da adaptação e sustentabilidade exigidas pelos tempos atuais.
Um caso emblemático é o do Jardim do Largo da República, na cidade de Silves, que foi transformado numa área essencialmente pedonal e pavimentada em pedra, reduzindo de forma drástica a permeabilidade do solo, que é crucial para a infiltração da água da chuva.
A área de terra anteriormente mais extensa foi severamente reduzida, com poucas árvores e canteiros, o que faz também deste jardim, durante os meses de verão, um autêntico forno, agravando o desconforto térmico.
A falta de árvores e a predominância dos blocos de pedra impedem a retenção natural da água e a regulação da temperatura, aspectos fundamentais para a mitigação dos efeitos das alterações climáticas nas cidades.
Estes erros urbanísticos representam um retrocesso inadmissível e demonstram uma clara falta de visão ambiental e estratégica por parte das autoridades locais.
O problema da adaptação não pode ser ignorado ou adiado. Os custos associados às reparações das habitações e dos estabelecimentos comerciais afetados por eventos climáticos extremos acumulam-se ano após ano, tornando-se num fardo crescente para as famílias e para a economia local. O que antes eram episódios raros, que ocorriam uma vez em várias décadas, transformaram-se numa ocorrência anual, sinal da alteração do clima global e da necessidade urgente de agir.
Felizmente, existem várias políticas locais e medidas, muitas das quais podem ser implementadas sem a necessidade de grandes investimentos, que poderiam ajudar a mitigar os danos causados por estes fenómenos.
Entre elas destacam-se:
- A adoção de pavimentos permeáveis em ruas secundárias, parques de estacionamento e passeios que permitem a infiltração da água da chuva, reduzindo o escoamento superficial e o risco de inundações;
- A criação de valas de infiltração e bacias de retenção que recolhem e armazenam temporariamente a água da chuva, facilitando a sua absorção gradual pelo solo;
- A implementação de jardins de chuva (rain gardens) em rotundas, espaços públicos e praças, que funcionam como áreas verdes capazes de captar e filtrar a água pluvial;
- A instalação de zonas húmidas construídas, que atuam como sistemas naturais de retenção e filtragem das águas pluviais, melhorando a qualidade da água e prevenindo inundações;
- A ampliação e manutenção das infraestruturas de escoamento, como sarjetas, colectores pluviais e escoadouros, fundamentais para garantir que a água seja canalizada de forma eficiente;
- A implementação de planos de limpeza obrigatória pré-inverno, para a remoção regular de folhas, detritos e outros materiais que possam obstruir os sistemas de drenagem.
Estas medidas, que são de responsabilidade direta do executivo da Câmara Municipal de Silves, não exigem apenas declarações de pesar ou thoughts and prayers, como se diz nos Estados Unidos da América, cada vez que ocorre uma tragédia, mas nada se faz para resolver a raiz do problema.
É imperativo que existam ações concretas, planeadas e orçamentadas, para garantir a segurança e a resiliência das comunidades.
Mas a situação agrava-se ainda mais quando se observa a composição política do município. Neste tema, é contraditório que partidos como o Chega estejam presentes em órgãos de poder local, como a vereação ou a assembleia municipal de Silves, quando este partido promove ativamente a desinformação ou manifesta desinteresse pelas alterações climáticas.
A linha política do Chega é a negação do problema, o que implica que os seus representantes dificilmente poderão contribuir para soluções reais e eficazes. Mais do que isso, podem mesmo representar um obstáculo à implementação de políticas necessárias para proteger as populações locais.
Face a esta conjuntura, há muito por fazer em Silves. A aposta em medidas adaptativas deve ser acelerada e reforçada, integrando uma visão pragmática que reconheça a complexidade e a gravidade dos fenómenos climáticos extremos. Os municípios portugueses não podem continuar a encarar estas questões com complacência ou cinismo. O futuro das comunidades depende da capacidade de antecipar, planear e agir.
Por fim, é urgente repensar a urbanização e o ordenamento do território no concelho de Silves, adotando práticas que aumentem a permeabilidade dos solos, promovam o aumento das áreas verdes, valorizem a presença de árvores e garantam infraestruturas capazes de responder aos desafios de um clima em transformação. A construção de cidades mais verdes e resilientes não é apenas uma necessidade ambiental, mas uma prioridade social e económica para garantir a qualidade de vida e a segurança das populações.
Miguel Braz | Consultor internacional de negócios