Há burlões a anunciarem casas de férias de luxo para arrendar em plataformas credíveis como o Booking, prejudicando já diversas famílias em milhares de euros.
Os esquemas de burla relacionadas com arrendamentos de casas para férias no Algarve estão a atingir novos patamares, com os burlões a aliciarem famílias com anúncios falsos de propriedades de luxo, cobrando milhares de euros por estadias que não existem.
Foi o que aconteceu a um grupo de turistas dinamarqueses, que pagou seis mil euros por duas semanas numa moradia em Carvoeiro, anunciada na plataforma Booking. Quando chegaram, encontraram a casa ocupada e perceberam que tinham sido enganados.
A propriedade, avaliada em mais de 4 milhões de euros, pertence ao investidor Erik de Vlieger, empresário bom conhecida no sector imobiliário da região.
«Uma casa como a minha, em julho ou agosto, nunca se aluga por menos de seis ou sete mil euros por semana», disse de Vlieger ao Portugal Resident. «O que viram na plataforma parecia um bom negócio. As pessoas precisam de usar mais a cabeça. Se parece bom demais, é, provavelmente, uma burla», afirmou.
O empresário holandês providenciou alojamento alternativo aos turistas, ainda que em condições bastante abaixo do esperado. «Tinham amigos a juntar-se a eles, e alguns estão a dormir em colchões no chão», contou.
Erik de Vlieger denunciou o caso nas redes sociais, na esperança de chamar a atenção da plataforma.
No entanto, segundo noticia o Portugal Resident, o Booking não respondeu às queixas do proprietário, nem aos pedidos de esclarecimento do jornal.
Outro proprietário, também em Carvoeiro, descobriu que a sua moradia estava listada na mesma plataforma, a vender estadias falsas, neste caso, a 5.141 euros por 11 noites, sem o seu consentimento. Tentou que a plataforma removesse o anúncio, mas foi-lhe dito que não era possível, uma vez que a publicação tinha sido feita por terceiros, mesmo sendo uma burla.
A agência imobiliária que tem o imóvel à venda por 4 milhões de euros também se mostrou perplexa. «A localização está errada e há vários erros na descrição. O dono explicou tudo ao Booking, mas disseram-lhe que não conseguem apagar porque foi outro utilizador que colocou o anúncio».
A publicação falsa inclui a mensagem: «Antes de qualquer pedido, contacte-me por e-mail: [email protected]». Este domínio, à partida, indica uma origem alemã, mas, como alertam os especialistas, com o uso de VPNs e outras tecnologias, os autores podem estar em qualquer parte do mundo.
A descrição refere ainda que os idiomas falados são inglês, espanhol e polaco.
Segundo a imobiliária, a responsabilidade de denunciar às autoridades será do proprietário. No entanto, até ao momento, este contactou a plataforma, que, aparentemente, nada fez, visto o anúncio ainda se encontrar disponível online, o que poderá levar a que outras famílias sejam burladas.
Para Erik de Vlieger, a culpa é «100 por cento do Booking», considerando «vergonhoso» que uma empresa com «centenas de milhões de euros de lucro tenha tão pouca preocupação» com os seus clientes.

Casos semelhantes multiplicam-se noutros países, sem grande resposta da empresa. Um artigo publicado em março pelo jornalista Trevor Baker, da revista «Which?», revelou falhas graves no processo de verificação da plataforma.
«Demorámos menos de 15 minutos a colocar um imóvel fictício no Booking. Não pediram prova de identidade, nem documentos, como acontece na Vrbo ou na Airbnb», escreveu. Esta facilidade de registo pode explicar o número elevado de burlas denunciadas.
Na mesma investigação, a «Which?» encontrou centenas de críticas recentes na plataforma contendo a palavra «burla» (scam, em inglês), com utilizadores a relatarem pagamentos por alojamentos que não existiam.
Entre as medidas recomendadas pela revista para aumentar a segurança, destaca-se a verificação de identidade dos anfitriões antes de publicar anúncios, autenticação de dois fatores obrigatória, monitorização ativa de queixas e remoção de links maliciosos.
«O sistema de mensagens do Booking é tão seguro quanto o seu elo mais fraco», conclui o artigo.
E sublinha: «A empresa cobra cerca de 15 por cento de comissão por cada reserva. Com lucros na ordem dos milhares de milhões, deveria investir mais na segurança da plataforma».
Erik de Vlieger partilha da mesma opinião. Diz que é «inaceitável» que clientes fiquem sem milhares de euros por confiarem numa marca que «devia protegê-los».
GNR também alerta para burlas no arrendamento de casas de férias
A Guarda Nacional Republicana (GNR), no âmbito das ações preventivas que desenvolve, e com o objetivo de contribuir para a prevenção e o combate aos diversos tipos de burlas, alerta para os procedimentos de segurança que devem ser adotados para evitar este tipo de fenómenos, onde se incluem as burlas relacionadas com o arrendamento de imóveis nesta época sazonal, com especial destaque para as casas de férias.
A análise das ocorrências registadas na área de responsabilidade territorial da GNR revela que, no período em causa, os distritos de Faro (95), Porto (79) e Braga (70) foram os mais afetados.
Não obstante, verifica-se que este fenómeno ocorre de forma dispersa em todo o território nacional.
Foi ainda possível registar uma redução de 16,8 por cento no número de crimes de burla no arrendamento de casas de férias, comparando o ano de 2023 e o ano de 2024, demonstrando, assim, não só o impacto das ações preventivas e de sensibilização desenvolvidas pela GNR, sobretudo junto da população mais vulnerável, como também o empenhamento contínuo da Guarda no combate à criminalidade e na deteção destas atividades suspeitas e ilícitas.
Ainda assim, desde desde 2023, são já mais de 400 os arrendamentos falsos de casas de férias registados pela GNR, tal como o barlavento noticiou.
Neste âmbito, a GNR deteve 60 pessoas pela prática deste tipo de crimes em 2023, 29 em 2024 e 12 no presente ano (dados provisórios até ao dia 30 de junho). Pela prática deste mesmo tipo de crimes, foram ainda identificados 140 suspeitos no ano de 2023, 138 em 2024 e 33 no primeiro semestre de 2025.
Sobre a prática destes ilícitos, não se verifica um modus operandi específico, uma vez que são múltiplas as formas utilizadas para a concretização do mesmo objetivo.
Em regra, diz aquela força de segurança, «constata-se que os suspeitos publicam anúncios de arrendamento de imóveis a preços apelativos, em sítios da Internet com relevo e muita visibilidade. Algumas dessas publicações podem ser acompanhadas por fotografias de imóveis reais, mesmo quando o contexto e elementos de arrendamento são falsos».
Regra geral, «as vítimas procuram imóveis para arrendar no período de férias e efetuam a pesquisa via Internet, dada a rapidez e comodidade da pesquisa. Quando encontram o imóvel pretendido, normalmente com preços mais baixos face à concorrência, contactam o anunciante, sendo pedido à vítima que efetue o pagamento de um determinado valor monetário, vulgarmente denominado como sinal, para assegurar o imóvel pretendido. A vítima só percebe que foi burlada meses depois, numa das seguintes situações: quando tenta contactar o suspeito, constatando que o contacto deixou de estar ativo; quando pretende recolher a chave da habitação; e/ou quando verifica que a morada que lhe foi fornecida não existe».
- Atenta a este tipo de ocorrências, a GNR recomenda que, numa situação de aquisição ou arrendamento de bens imóveis, os interessados estejam particularmente atentos e adotem os seguintes cuidados:
- Desconfie de ofertas com preços muito abaixo do mercado ou que pareçam demasiado vantajosas face a imóveis semelhantes na mesma zona;
- Compare anúncios semelhantes e, sempre que possível, solicite uma visita ao imóvel. Caso o proprietário apresente reservas quanto à visita, desconfie;
- Visite o imóvel presencialmente, pois as imagens partilhadas podem não corresponder à realidade;
- Pesquise o imóvel em várias plataformas, tendo em atenção que pode estar anunciado em diferentes locais com preços distintos;
- Esteja atento a pedidos de pagamento de sinal sob o pretexto de haver muitos interessados;
- Verifique se existem outros anúncios com as mesmas fotografias ou denúncias de burla associadas;
- Solicite fotografias adicionais, especialmente do interior do imóvel;
- Peça a identificação do anunciante ou proprietário, bem como os seus contactos, e confirme se permanecem ativos;
- Confirme, através de um multibanco, se o titular da conta bancária corresponde ao nome do proprietário ou anunciante;
- Caso receba uma mensagem a indicar que o pagamento não foi recebido, confirme com o seu banco antes de efetuar nova transferência.