Passaram 25 anos desde que o Aterro Sanitário do Sotavento entrou em funcionamento, e mesmo com «uma gestão cuidada» por parte da Algar, a infraestrutura na Cortelha está a chegar ao limite.
Os camiões carregados não param de chegar e tudo o que entra já não sairá. «É o fim de linha, o destino final» de uma mescla indefinida de resíduos que não são recuperados e falharam o ciclo da reciclagem. Em média, são cerca de 150 mil toneladas por ano, segundo estima Carlos Juncal, engenheiro responsável pela operação no Aterro Sanitário do Sotavento da Algar, na Cortelha, interior do concelho de Loulé.
Uma particularidade é que 95 por cento dos resíduos chegam por via da estação de transferência de São João da Venda, que recebe lixo dos concelhos de Faro, Loulé e Olhão. Apesar de existirem ecopontos da triagem, o plástico é o material dominante nas descargas de resíduos indiferenciados.
O recente estudo «As implicações da atividade turística na região do Algarve para a gestão de resíduos urbanos», que juntou investigadores de cinco universidades de Portugal e dos Estados Unidos da América, concluiu que mais de 80 por cento dos resíduos produzidos na região vão para aterro. As taxas de reciclagem rondam os 15 por cento.
Significa que «ainda não existe uma consciência ambiental coletiva. Chega-nos muito material que poderia ser reciclado, misturado com o lixo indiferenciado. Significa que não está a ser depositado nos ecopontos. E mesmo com a triagem prévia que fazemos, muitos desses recicláveis não são recuperáveis porque sofrem contaminação», lamenta Juncal.
Na prática, além do desperdício, estes materiais recicláveis que poderiam ter outro destino, consomem espaço e reduzem a vida útil do aterro, que já está a prazo.
«O projeto inicial previa quatro células», isto é, espaços independentes onde os resíduos são depositados. «Neste momento, existem duas células encerradas que esgotaram a capacidade. Temos uma terceira em exploração, dividida em duas zonas: a zona A que já está encerrada, e a zona B, ainda em exploração», ou seja, em funcionamento, detalha o responsável.

Portanto, «falta edificar a célula D, que ainda não está construída. Será o próximo passo». No entanto, Juncal não se mostra otimista.
«A nossa capacidade de encaixe é limitada. O padrão de resíduos tem-se mantido, mais ou menos, constante ao longo dos últimos anos. E em função daquilo que é o volume disponível e da quantidade que entra no aterro, conseguimos estimar quando terminará a capacidade de cada célula. A que está hoje em funcionamento, diria que temos mais dois ou três anos de exploração. Creio que 2028 será a data limite para iniciarmos a exploração da nova» e última célula disponível, estima.
E quando estiver operacional, «poderá durar cerca de cinco anos, caso se mantenha o padrão atual».
Apesar de estar em vigor o Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2030), muitas das metas estão atrasadas ou aquém do previsto. Por isso, no final de novembro último, o governo criou um grupo de trabalho cuja missão é elaborar medidas de emergência para reduzir a deposição em aterros.
«Estamos perante um problema nacional e não apenas do Algarve. Claro que, se tivermos outras soluções complementares ao tratamento que existe hoje, novas tecnologias ou abordagens diferentes que não estão a ser feitas à data, poderemos prolongar a vida útil dos aterros. Deduzo que uma das possíveis orientações nacionais passará pela valorização energética de resíduos», ou pela incineração (pirólise).

No caso do Aterro Sanitário do Barlavento, em Porto de Lagos, no concelho de Portimão, na extrema fronteira com o concelho de Silves, «a situação é muito semelhante, mas ainda resta algum espaço disponível» para fazer a nova célula.
E embora não seja «uma situação desejável do ponto de vista ambiental, em último caso, a Algar tem a possibilidade de fazer a transferência de resíduos de um lado para o outro», entre os dois aterros do Algarve.
Carlos Juncal espera que não se chegue a um cenário tão drástico. «A deposição em aterro tem de existir. Mas é algo que temos que reduzir. Se conseguirmos, um dia, depositar apenas 10 por cento dos resíduos, significa que teremos um tempo de vida útil gigante, comparado com a situação atual. É para essa meta que teremos de caminhar», sublinha.
Outra solução poderá surgir logo na fonte dos resíduos. «Por exemplo, se os produtores vierem a ser responsabilizados pelos produtos que introduzem no mercado, de forma a assegurarem que há, efetivamente, o fecho do ciclo completo», desde que chegam ao consumidor final até ao descarte sustentável.
«Um grande bolo de bolacha»
Para explicar o método de laboração do aterro, Juncal usa uma metáfora culinária. «O aterro é como um grande bolo de bolacha. A bolacha é a terra que colocamos para cobrir os resíduos. E assim vamos fazendo camadas sobre camadas».
Todos os dias, um compactador «pés-de-carneiro» aperta os resíduos à medida que são despejados pelos camiões.
Na movimentação de terras, um bulldozer espalha camadas de solo, criando uma cobertura sobre o lixo. E o ciclo repete-se. É uma forma de poupar espaço e de minimizar os odores, até se formar um monte artificial que, no limite, é selado com geomembrana, que cria uma barreira impermeável.
«O aterro é um organismo vivo porque sustenta uma série de atividade biológica no interior. Com o passar do tempo, e à medida que a matéria orgânica se decompõe, começa, tendencialmente, a reduzir o volume. Após alguns anos, o bolo estabiliza com assentamentos e toda a matéria mineralizada. Por isso, é provável que um dia, tudo isto seja coberto com terra e plantas e venhamos a ter paisagem tal como nós vimos aqui ao redor», prevê.
As células A e B, seladas em 2019, por exemplo, «já estão quatro a cinco metros abaixo da cota de encerramento», compara.
Juncal acredita que «uma das indicações por parte do grupo de trabalho do governo será a possibilidade de voltar a encher estas cotas, que, entretanto, desceram, para se recuperar espaço. Do ponto de vista técnico, é possível» fazer essa engenharia para reganhar capacidade.
De resíduo a energia verde
Por cima das geomembranas das células encerradas é possível ver uma rede de canos e válvulas. A célula mais antiga tem mais de 200 pontos de captação de gás metano (CH4).
«Na ausência de oxigénio, quando está enterrada, a matéria orgânica em decomposição começa a produzir alguns subprodutos. Um deles é o metano que conseguimos captar e injetar em motogeradores para produzir eletricidade verde», explica o engenheiro mecânico.

O gás alimenta dois motogeradores que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. A capacidade instalada é de 600 kW cada. «Como a energia é produzida através de biomassa de resíduos, é considerada uma energia verde, a qual é vendida à rede elétrica nacional. Não fazemos autoconsumo», detalha.
No futuro, de acordo com a agenda de descarbonização, «será possível produzir biometano», um biocombustível gasoso derivado do biogás com propriedades e utilizações semelhantes às do gás natural.
«Essa é a estratégia que se prevê para substituir os motogeradores. Há estudos e algumas questões técnicas que ainda têm de ser resolvidas, mas, provavelmente, será essa a estratégia» a adotar nalguns locais. «Claro, isso carece de uma análise daquilo que é o custo-benefício».
Para já, «estamos a aproveitar um subproduto que de outra forma seria expelido para a atmosfera», contribuindo para o efeito de estufa.
Uma «lagoa de tempestade»
Outro subproduto do aterro, e que é preciso conter num circuito fechado, são as chamadas «águas lixiviantes», algo semelhante ao que se acumula nos baldes de lixo domésticos. Uma das grandes diferenças entre os aterros e as antigas lixeiras, esclarece Carlos Juncal, é que nas lixeiras não havia qualquer tipo de sistema de impermeabilização, «o que fazia com que essas águas se infiltrassem no solo e o contaminasse», dando origem a problemas ambientais graves.
Alguns aterros no país, diz, «têm ligação a Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) municipais e rapidamente tratam estes fluxos. Aqui, no meio da Serra do Caldeirão, não temos coletor para as encaminhar. Então, usamos uma tecnologia chamada osmose inversa», explica.
No fundo, é simples: as águas lixiviantes são drenadas, por gravidade, para uma «lagoa de tempestade» e a partir daí, bombeadas para um sistema de filtragem topo de gama.
Na saída do processo, obtém-se uma água destilada, «limpa, que reutilizamos internamente, em lavagens e regas, embora também estamos autorizados a descarregá-la no meio hídrico».
A desvantagem é que deste processo resulta também «um concentrado que retorna de novo ao aterro». E faz sentido? «O próprio aterro acaba por funcionar como um biofiltro e bioreator. Ao colocarmos mais matéria orgânica concentrada no seu interior, acabamos por melhorar o desempenho da produção de biogás».

O sistema tem três unidades de osmose inversa e é capaz de filtrar 660 metros cúbicos (m3) de águas lixiviantes por dia.
A economia dita os fluxos
O Centro de Triagem em São João da Venda, em Faro, funciona das 8h00 às 17h00 e das 23h00 até 7h00, de onde saem os camiões de 12 toneladas a caminho da Cortelha. Além disso, há a frota municipal de São Brás de Alportel, Tavira, Castro Marim e VRSA que também ali descarrega indiferenciados.
«Temos de ajustar o funcionamento dos nossos aterros às entregas dos municípios. Se trazem o lixo à noite, temos de o transportar até cá nesse período, porque não temos capacidade de retenção» em Faro.
Mas o que realmente dita os fluxos em alta é a economia. Quando há crise financeira, o consumo cai e a quantidade de lixo que entra nos aterros diminui. No Algarve, conta também a sazonalidade, que torna a vida na região bipolar.
O engenheiro responsável concorda. «Sim, notamos isso claramente. No tempo da pandemia de COVID-19, registámos logo de imediato uma quebra no papel de cartão, no vidro, em materiais que estão muito associados, por exemplo, ao canal HORECA, aos bares, aos cafés, à vida da região, ao turismo e à indústria da restauração», diz.

Assim, «percebemos logo quando há alguma alteração de comportamentos e de padrões», confirma.
E uma mudança que Carlos Juncal gostaria de ver na sociedade tem a ver com os projetos de recolha seletiva e valorização dos biorresíduos (restos alimentares e sobras da preparação de refeições) que têm vindo a ser adotados por alguns municípios algarvios. Quando depositados nos devidos contentores, são um recurso útil usado na produção de composto orgânico para a agricultura e também de biogás.
No Algarve, quando iniciou a atividade, há cerca de 30 anos, a Algar selou 22 lixeiras.
Telma Robim: «a situação é crítica»
Telma Robim, presidente da comissão executiva da Algar, empresa responsável pelo tratamento e valorização de resíduos urbanos no Algarve, sublinha que «a deposição de resíduos em aterro segue normas legais rigorosas e está sujeita a fiscalização contínua».
«A criação de novas células, seja em aterros existentes ou em novas localizações, é essencial para garantir um destino adequado aos resíduos que não podem ser valorizados. Os aterros desempenham um papel fundamental no equilíbrio do sistema, assegurando uma solução complementar indispensável às restantes formas de tratamento e valorização».
Segundo a administradora, a Algar «mantém um compromisso contínuo com a gestão eficiente e sustentável dos dois aterros sanitários, garantindo o cumprimento das melhores práticas ambientais e operacionais. Reconhecemos que a capacidade dos aterros é limitada e que é urgente encontrar soluções alternativas para reduzir a deposição de resíduos. A nível nacional, a situação é crítica. Estudos recentes apontam que, sem medidas complementares, a capacidade dos aterros poderá esgotar-se entre 2027 e 2028», diz.
O Grupo EGF, ao qual a Algar pertence, integra um Grupo de Trabalho para o desenvolvimento do Plano de Emergência de Aterros, que irá definir «uma estratégia sólida e de longo prazo» para a gestão de resíduos urbanos e não urbanos.
Neste sentido, diz, «continuamos a trabalhar ativamente na identificação de soluções, como a valorização energética, a produção de combustíveis derivados de resíduos e a otimização da engenharia dos aterros, através da união de células, utilização de taludes e outros métodos técnicos que permitam maximizar a sua utilização. O nosso objetivo é prolongar a vida útil das infraestruturas existentes e minimizar o impacte ambiental da deposição em aterro, promovendo soluções inovadoras que garantam um futuro mais sustentável para a região e para o país».

